Mötley Crüe: América do Sul em 2015, último show em Janeiro de 2016

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Por ANDY GREENE para a edição online estadunidense da ROLLING STONE de 19 de Agosto de 2014.

Faltam quatro horas para que o MÖTLEY CRÜE suba ao palco no Pepsi Center em Denver, e NIKKI SIXX está sentado em seu ônibus de turnê, lendo um livro sobre as Olimpíadas de 1936 e se gabando de suas habilidades ao jogo UNO. “Noite passada eu joguei com minha esposa e filha até 1 da manhã”, diz o baixista, de 55 anos. “Eu jogo Uno com qualquer um e ganho.”

Esse cara foi declarado morto após uma overdose de heroína em 1987, mas muito mudou para os quatro membros do Crüe desde aqueles dias insanos. “Quando você é jovem, você bebe a noite inteira, come mil garotas e cheira tanta cocaína quanto quiser”, diz Sixx.” Eu estou sóbrio agora. Eu tenho o desejo de conquistar mais coisas.

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No momento, o Mötley Crüe está no primeiro trecho de sua derradeira turnê, lotando casas pelos EUA com o convidado especial ALICE COOPER. Conversamos com os quatro membros do grupo para uma matéria na nova edição da Rolling Stone. Eis aqui 19 coisas que ficamos sabendo com as entrevistas.

  1. Inicialmente, até os próprios agentes da banda acharam que eles estavam blefando sobre essa ser a última turnê deles.

Eles nos disseram, ‘Isso é um lance legal de marketing’”, diz Sixx. “Isso realmente nos irritou. Eles disseram, ‘Sabe, isso rola por uns cinco ou seis anos’. E nós respondemos, ‘Sem chance. Quem vocês acham que nós somos?’ Eles responderam, ‘O THE WHO fez isso, assim como o KI$$ e muitos outros’. Foi quando tivemos a ideia de nos comprometermos legalmente com um contrato de modo que nunca mais saiamos em turnê.”

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  1. O “Acordo de Cessação de Turnê” tem sim, uma brecha.

“Se todos os quatro membros da banda concordarem, poderíamos sobrescrever nosso próprio contrato”, diz Sixx. “Mas isso nunca vai acontecer. Há pessoas nessa banda, e você está falando com uma delas. Não há quantidade de dinheiro que me faça mudar de ideia. Mesmo ser nos oferecerem $10 milhões para fazermos 10 shows daqui a dez anos. O modo que armamos tudo, incluindo essa conversa agora, seria muita palhaçada. Não vai acontecer nunca.”

  1. Mick Mars quer escrever um livro quando a turnê acabar.

Minha história vai ser um pouco diferente da de todo mundo, entretanto”, ele afirma. “Eu não quero seguir aquela de, ‘Saímos em turnê, daí eu comi aquela mina e peguei tal doença dela.’ Quem se importa com isso? Eu quero escrever sobre a música e os altos e baixos do ramo.”

  1. Eles viajam em ônibus separados.

“Isso é óbvio”, diz Vince Neil. “Nikki tem nove pessoas em seu ônibus. Tommy tem os filhos dele juntos o tempo todo. Todo mundo tem sua própria programação. Também não temos muito sobre o que conversar a menos que seja sobre o show.”

  1. Nem todas a tensão das antigas se foi.

Ainda há conflito”, diz Sixx. “Há diferenças e atrito. É como ter uma namorada e você não aguenta, mas é o melhor sexo que você já teve na sua vida e você continua voltando pelo sexo, apesar de ela te deixar louco. Isso é meio o que é o Mötley Crüe.”

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  1. A montanha-russa com a bateria de Tommy Lee, conhecida como Crüecify, o deixou cagando nas calças no começo.

É de arrepiar”, ele diz. “No ponto mais alto, ela está suspensa a 17 metros de altura. Eu tenho que admitir que fico meio com a calça pesada quando aquilo vira de cabeça pra baixo pela primeira vez.

  1. Tocar bateria de cabeça pra baixo, suspenso a 17 metros de altura, não é uma tarefa fácil.

“Minha obrigação é fazer com que pareça fácil”, diz Lee. “Mas é duas vezes mais difícil do que tocar em solo firme. A gravidade puxa seus braços para baixo e seus pés do pedal. Você tem que manter seus pés no pedal constantemente e seus braços voltados pra cima. Jesus, não tinha algo mais difícil para eu ter escolhido fazer?

  1. Mick Mars não tem planos para se aposentar da música uma vez que o Mötley Crüe acabe.

Eu quero gravar um disco solo”, diz ele. “Eu não quero ficar sentado em casa e engordar e envelhecer. Eu já sou velho o suficiente. Quero trabalhar até morrer.”

  1. A adaptação para o cinema do livro “The Dirt” seguirá em frente.

Nikki e eu acabamos de assistir a uma leitura de duas horas do roteiro”, conta Lee a respeito do filme baseado na autobiografia da banda. “Não foi com os atores que farão o filme, mas com pessoas que eles contrataram para ler todo o roteiro. Porra, foi uma viagem ouvir 30 anos de sua vida passarem em duas horas. Foi simplesmente surreal. Dirigindo pra casa, Nikki e eu ficamos olhando um pro outro, tipo, ‘O que diabos acabamos de ver?’ Eu mal posso esperar até que eles comecem a filmar essa porra. Está programado pra ser em breve, pelo menos eu acho.”

10. A turnê de despedida vai rolar 2015 adentro.

“Tenho certeza que voltaremos e tocaremos nos EUA de novo”, diz VINCE NEIL. “Há muitas cidades que estamos pulando. Também temos que tocar no Canadá, México, América do Sul, Ásia, Japão e Europa. Temos um longo caminho a percorrer.”

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11. O uso de fitas pré-gravadas com os backing vocals ainda é um tema sensível.

Em uma recente entrevista com EDDIE TRUNK, Mars se pronunciou sobre sua insatisfação com a decisão da banda de suplementar os vocais de Neil com trechos pré-gravados. “Isso poderia me encrencar muito”, ele disse. “Deixe que eu coloque da seguinte maneira. Eu vou dizer duas palavras e você vai saber: Britney Spears… eu não gosto disso. Eu poderia colocar um CD do Mötley e tocar junto com ele o dia inteiro. Eu não quero fazer isso.”

Quando perguntado sobre o assunto de novo agora, Mars tem uma opinião levemente diferente. “É melhor ouvir vocais no tom certo do que não os ouvir”, ele diz. “Eu acho que há algumas pessoas que não curtem isso. Algumas pessoas preferem lances crus, na cara. Eu acho que os vocais de fundo reforçam a banda sob alguns aspectos. Quer dizer, é isso aí mesmo.

12. Vince Neil diminuiu bem seu consumo de álcool.

Eu tomo uns coquetéis de vez em quando”, ele diz. “Eu até tomo uma taça de vinho no jantar. E só.

13. Apesar da dor intensa oriunda de sua longa batalha contra a espondilite anquilosante, Mick Mars permanece livre das drogas.

Alguns dias são piores do que os outros, quando se trata de dor”, diz Mars. “Mas eu não tomo nenhum analgésico. De jeito nenhum. Eu embarquei nessa uns 15 anos atrás, e nunca mais quero lidar com aquilo, muito obrigado. Não é um bom caminho. O alívio rápido não é uma trilha a se seguir.”

14. Mars está considerando uma reunião com o vocalista JOHN CORABI, que foi frontman do Mötley Crüe por alguns anos na década de 90.

“John e eu temos conversado sobre compormos algumas coisas”, ele diz. “Uma reunião completa não foi discutida, mas é possível.”

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15. As opiniões sobre a banda gravar material novo depois do fim da turnê ainda divergem.

Eu não vejo isso acontecendo”, diz Lee. “Isso não está em nossos planos, a menos que seja para a trilha sonora de ‘The Dirt”, mas eu não consigo imaginar qual seria a finalidade disso, já que o filme conta nossa história.” Vince discorda. “Eu nos vejo gravando no futuro”, ele afirma. “Com certeza”. Nikki Sixx fica em cima do muro. “Podemos voltar a fazer músicas”, ele diz. “Só que precisa haver um veículo para ela.”

16. Caso eles sejam escolhidos para o Rock And Roll Hall Of Fame, espere uma única apresentação.

Se algumas pessoas deixarem seus egos de lado, nós nos reuniríamos sim para o Rock And Roll Hall Of Fame”, diz Sixx. “Mas, entre meus colegas de banda, o Hall Of Fame virou meio que uma piada. Mas talvez toquemos de novo em algum tipo de premiação ou no Super Bowl ou algo do tipo.

17. Eles já aceitaram o fato de que muitos críticos de rock não gostam deles.

Nunca fomos populares entre os críticos”, diz Neil. “Para muita gente, somos uma típica banda dos anos 80. Todo mundo quer se livrar da pecha de anos 80. Elas querem ir dos anos 70 direto para os 90, mas os anos 80 foram gigantescos para a música. Eles começaram um tipo totalmente novo de música que vendeu muitos discos e que as pessoas ainda seguem.”

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18. Eles se recusaram a cooperar com o musical ‘Rock Of Ages’ na Broadway e com a subsequente versão cinematográfica.

Eu, especificamente, não sou alguém que segue aquele período da música”, diz Sixx. “Eu não acho que sejamos inerentes de um determinado período. ‘Rock Of Ages’ nos ofereceu tanto dinheiro. Eles nos ofereceram uma porcentagem. Dissemos não. Foi um filme vagabundo que não tinha nada a ver com o que acreditamos.”

19. O último show do Mötley Crüe será em Los Angeles.

Tem que ser lá”, diz Neil. “É o único lugar para se terminar. Eu espero que o façamos no dia 17 de janeiro de 2016. Será o nosso trigésimo-quinto aniversário.” O local exato ainda não foi determinado. “Há negociações para que sejam algumas noites no Staples [Center] ou no Forum [de Inglewood]”, diz Lee. “Depois, pode haver um show começando 1 hora da manhã no Whisky [A Go Go], onde toda essa porra começou de fato. Quer dizer, porra, todos nós morávamos na esquina daquela merda de bar. Seria muito bom acabar lá.”

Não importa quando e onde aconteça, Sixx já tem uma visão dessa noite em sua mente. “Eu sonho com entrar no meu carro depois do último agradecimento à plateia”, ele diz. “Eu vou dirigir pra casa, sozinho, com o rádio desligado. Eu vou passar de carro pelo Whisky, pelo Roxy, o Rainbow e o Troubadour. Eu vou até minha casa, colocar a chave na porta, girá-la, e pensar, ‘Por onde passaram todos aqueles anos, caralho?’’ Daí vou fechar a porta e esperar pelo próximo capítulo.

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Buckcherry: ouça e veja o cover XXX para ‘I Love It’, do Icona Pop

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O BUCKCHERRY acaba de lançar um novo EP, intitulado sucinta e objetivamente como “Fuck” e viabilizado e produzido através do recém-estabelecido selo próprio, o F BOMB. O compêndio de seis faixas tem o termo ‘Fuck’ em todos os títulos e letras, uma aposta bastante contundente para uma banda que tem seu maior mercado dentro dos conservadores EUA.

Um destaque de ‘Fuck’ é o cover/remake da faixa pop “I Love It”, da girl band sueca ICONA POP que virou uma praga nas FMs do mundo ano passado e aqui foi – após devidamente recarregada com distorção e aceleração – rebatizada como ‘FUCK IT’, cujo vídeo você pode assistir abaixo.

 

Buckcherry – Say Fuck It (Official Music Video) from Buckcherry on Vimeo.

 

 

Uli Jon Roth: assista ao trailer do blu-ray “Scorpions Revisited- Volume I”

Assista abaixo o video contendo o trailer do vindouro Blu-ray do guitarrista virtuoso teutônico ULI JON ROTH [SCORPIONS], “Scorpions Revisited- Volume I”.

O home vídeo é um registro da performance de UJR no festival europeu Guitare En Scene e nas imagens disponibilizadas no teaser, trechos das eternas ‘Fly To The Rainbow’ e ‘In Trance’, com NATHAN JAMES nos vocais.

 

 

Glenn Danzig: vocalista lançará EP de covers de Elvis Presley

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GLENN DANZIG está em estúdio trabalhando em um EP de covers do finado ELVIS PRESLEY. O compêndio deve chegar às lojas no começo de 2015.

Uma versão de Danzig para a clássica faixa ‘Some Velvet Morning’, de Lee Hazelwood e Nancy Sinatra, com a participação de CHERIE CURRIE [THE RUNAWAYS] foi disponibilizada para streaming ano passado. A música deveria ter sido integrante do disco de covers do vocalista, e que também estava programado para incluir as repaginadas de clássicos do BLACK SABBATH, ELVIS PRESLEY, ZZ TOP, entre outros

 

 

Discofilia: maior colecionador do mundo é brasileiro, diz NY Times

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Por MONTE REEL para o NEW YORK TIMES de 8 de Agosto de 2014.

PAUL MAWHINNEY, um ex-dono de loja em Pittsburgh, passou mais de 40 anos acumulando uma coleção de cerca de três milhões de LPs e compactos de 45 rotações, muitos deles coisas que ninguém queria e a preço de banana. A indiferença do mundo, ele acreditava, tornava até os discos mais negligenciados em algo precioso: música que não tinha sido transferida para arquivos digitais desapareceria para sempre a menos que alguém comprasse sua coleção e a preservasse.

Mawhinney passou cerca de duas décadas tentando achar alguém que concordasse. Ele fez um acordo por US$28.5 milhões no fim dos anos 90 com a então gigante varejista da internet CDNow, ele diz, mas a venda da coleção foi por água abaixo quando a bolha dos negócios eletrônicos começou a esvaziar. Ele entrou em contato com a Biblioteca do Congresso dos EUA, mas a negociação emperrou. Em 2008, ele a leiloou no EBAY por US$ 3.002.150, mas o vencedor acabou sendo um irlandês insuspeito que disse que sua conta havia sido hackeada.

Vinil: maior coleção do mundo está à venda – mas ninguém quer

E aí que ano passado, um amigo de Mawhinney chamou sua atenção para um anúncio de classificados na edição estadunidense da revista BILLBOARD:

RECORD COLLECTIONS. We BUY any record collection. Any style of music. We pay HIGHER prices than anyone else.

Naquele outono, oito trailers vazios, cada um com 16 metros de comprimento, chegaram às portas do depósito de Mawhinney em Pittsburgh. O comboio partiu, lotado de discos de vinil. Mawhinney nunca se encontrou com o comprador.

“Eu não sei de nada sobre ele – nada”, me contou Mawhinney. “Eu só sei que todos os discos foram despachados para o Brasil.”

Algumas semanas antes, Murray Gershenz, um dos colecionadores mais badalados da Costa Oeste dos EUA, e dono da loja Music Man Murray em Los Angeles, morrera aos 91 anos. Por anos, ele também tinha erguido sua coleção, esperando que ela um dia acabasse em um museu ou uma biblioteca pública. “Aquilo não deu certo”, noticiou o jornal Los Angeles Times em 2010, “então a próxima parada seria o lixão”. Mas em seus últimos meses, Gershenz concordara em vender toda sua coleção para um comprador anônimo. “Veio um homem com dinheiro, dinheiro suficiente”, seu filho Irving contou ao New York Times. “E parecia que ele daria um bom lar a eles.”

Aqueles discos também foram despachados para o Brasil. Tal como os inventários de várias lojas icônicas de discos, incluindo ai a Colony Records, aquela bela bagunça de caixas de LPs e partituras que fora um marco de Times Square por 64 anos. A loja fechou suas portas de vez no outono de 2012, mas todo e qualquer disco no prédio – cerca de 200 mil ao todo – acabou nas mãos de um único colecionador, um homem obstinado a pôr suas mãos em todos os discos do mundo.

Em seu escritório perto da parte de trás de seu galpão de 8 mil metros quadrados em São Paulo, ZERO FREITAS, 62, acomodou-se em uma cadeira, pegou um dos LPs empilhados em uma mesa e examinou a lista de músicas. Ele usava óculos com armação de arame, uma bermuda cáqui e uma camiseta do Hard Rock Café. Seu cabelo grisalho era ralo em cima, mas cacheado em volta do pescoço na altura das costas. Estudando a relação de faixas, ele pareceu pouco entendido. Na verdade, Freitas é um próspero homem de negócios que, desde que era criança, não consegue parar de comprar discos. “Eu faço terapia faz 40 anos para tentar explicar isso a mim mesmo”, ele disse.

Sua compulsão por comprar discos, ele conta, é atrelada a memórias de infância: um aparelho de som que seu pai comprou quando Freitas tinha 5 anos e os 200 discos que o vendedor inclui como parte do negócio. Freitas era um adolescente em dezembro de 1964 quando ele comprou seu primeiro disco, um lançamento novo: “Roberto Carlos Canta Para As Crianças” [sem referência na discografia oficial do cantor], de um cantor que acabaria por se tornar um dos maiores astros da fonografia do país. Quando terminou o ensino médio, Freitas tinha por volta de 3 mil discos.

Depois de estudar composição musical na faculdade, ele assumiu os negócios da família uma empresa de ônibus que atende às periferias de São Paulo. Aos 30 anos, ele tinha por volta de 30 mil discos. Uns 10 anos depois, sua empresa de ônibus se expandiu, tornando-o rico. Não muito tempo depois, ele se divorciou de sua esposa e seu ritmo de compras explodiu. “Talvez seja porque eu estava sozinho”, disse Freitas. “Eu não sei.” Logo ele tinha uma coleção de seis casas numéricas, e ele calcula que atualmente o total seja de vários milhões de álbuns.

Recentemente, Freitas contratou uma dúzia de estagiários para ajudá-lo a inserir alguma lógica em sua obsessão. No escritório do barracão, sete deles estavam ocupados em estações individuais de trabalho; uma pegou um engradado de LPs com as inscrições “PW #1,425” e escolheu um disco. Ela o tirou da capa e limpou o vinil com um pano macio antes de dar o disco para o jovem ao lado dela. Ele entrou em uma cabine de cortinas negras e tirou uma foto da capa. Eventualmente, o disco chegou até a linha de produção dos estagiários, e sua informação foi armazenada em uma database de um computador. Um estagiário digitou o nome do artista [The Animals], o título ‘Animalism’] o ano de lançamento [1966], a gravadora [MGM] e – em referência à etiqueta no engradado do qual o disco fora retirado, anotou que ele outrora pertencera a Paulette Weiss, uma crítica musical de Nova Iorque cuja coleção de 4 mil álbuns fora comprada recentemente por Freitas.

Os estagiários conseguem catalogar ao todo cerca de 500 vinis por dia – uma taxa Sísifa no fim das contas, porque Freitas os tem enterrado com novas aquisições. Entre junho e novembro do ano passado, mais de uma dúzia de contêineres de 13 pés chegaram, cada um com mais de 100 mil discos comprados. Apesar de o barracão ser originalmente o lar de sua segunda empresa – uma companhia que provê sistemas de som e iluminação para shows de rock e outros eventos grandes – hoje em dia as mesas de som e holofotes são superados de longe pelo vinil.

Muitos dos discos chegam por meio de uma equipe de olheiros internacionais que Freitas emprega para negociar seus acordos. Eles estão espalhados pelo globo – Nova Iorque, Cidade do México, África do Sul, Nigéria, Cairo. O jazz com metaleira que os estagiários estavam ouvindo no toca-discos do escritório eram esse cara de Havana, que até agora já o enviou em torno de 10 mil discos cubanos – quase tudo que já foi gravado lá, estimou Freitas. Ele e os estagiários brincam que a ilha está emergindo no Caribe por todo o peso que Freitas tirou de lá.

Allan Bastos, que por anos tem trabalhado como comprador de Freitas em Nova Iorque, estava visitando São Paulo e juntou-se a nós naquela tarde no escritório. Bastos, um brasileiro que estudou administração na Universidade de Michigan, costumava colecionar discos também, muitas vezes colocando-os à venda no Ebay. Em 2006, ele notou que um único comprador – Freitas – estava arrematando quase todo disco que ele colocava à venda. Ele tem comprado discos pra ele desde então, concentrando-se em coleções dos EUA. Ele já comprou pilhas de discos de executivos idosos e críticos aposentados, assim como de celebridades [ele comprou a coleção de Bob Hope de sua filha cerca de 10 anos depois da morte dele]. Nesse verão, Bastos mudou-se para Paris, onde ele comprará discos europeus para Freitas.

Bastos olhou por cima de um estagiário, que estava digitando dados de outro álbum no computador.

“Isso vai levar anos e anos”, disse Bastos sobre a arquivar do catálogo. “Provavelmente uns 20 anos, eu acho.”

Vinte anos – se Freitas parar de comprar discos.

Colecionar discos sempre foi uma tarefa solitária para Freitas, e uma que ele mantém para si mesmo. Quando ele comprou o restante do estoque da lendária loja carioca Modern Sound alguns anos atrás, um jornal brasileiro noticiou que o comprador era um colecionador japonês – uma identidade que Bastos inventou para proteger o anonimato de Freitas. Sua coleção nunca foi divulgada, mesmo dentro do Brasil. Poucos dos outros entusiastas de vinil sabem do tamanho de suas posses, em parte porque Freitas nunca colocou nenhum de seus discos à venda.

Mas em 2012, Bob George, um arquivista musical de Nova Iorque, viajou com Bastos para São Paulo para preparar o Brazilian World Music Day, uma celebração que George organizava e juntos visitaram a casa e o barracão de Freitas; a vastidão da coleção apavorou a George. Ele se lembrou de William Randolph Hearst, o magnata da mídia que cobiçava todas as obras de arte do mundo e continuou a aumentar seu castelo particular para poder abrigar a todas.

“Pra que serve ter tudo isso”, George lembra de ter perguntado a Freitas, “Se você não pode fazer nada com isso ou compartilhar?”

A pergunta incomodou a Freitas. Para o colecionador verdadeiramente compulsivo, chega uma hora que a coleção ganha peso – peso metafísico, existencial. Ela se torna uma fonte de ansiedade tanto quanto é de alegria. Freitas, nos últimos anos, tinha se tornado crescentemente atraído a tradições místicas – judaicas, cristãs, hindus, budistas. Em sua casa, ele e sua segunda esposa criaram um espaço de meditação, e começaram a fazer viagens espirituais para a Índia e Egito. Mas os ensinamentos que ele admirava nem sempre batiam com sua vida de colecionador – adquirir, tomar posse, nunca se desapegar. A cada disco novo que ele comprava, algo parecia sussurrar em sua orelha: “O quê, no fim das contas, você quer fazer com tudo isso?”

Ele encontrou um possível modelo em George, que em 1985, converteu seu acervo pessoal de uns 47 mil discos em um aparelho acessível ao público chamado de “ARChive Of Contemporary Music”. Aquela coleção cresceu até 2.2 milhões de fitas, discos e CDs. Musicólogos, gravadoras e cineastas consultam a coleção sem fins lucrativos regularmente procurando músicas raras. Em 2009, George estabeleceu uma parceria com a Universidade de Columbia, e seu arquivo angariou apoio de muitos músicos, que doaram discos, dinheiro, ou as duas coisas. O guitarrista dos ROLLING STONES, KEITH RICHARDS, colaborou com a coleção de blues antigos do acervo, e David Bowie, Paul Simon, Nile Rodgers, Martin Scorcese e Jonathan Demme integram seu conselho.

Freitas começou recentemente a preparar seu barracão para sua própria empreitada, que ele chama de EMPÓRIO MUSICAL. Ano passado, ele conseguiu com que as autoridades federais autorizassem a importação de discos usados – uma atividade que não era explicitamente permitida pela alfândega brasileira até então. Uma vez que o arquivo seja registrado como uma entidade sem fins lucrativos, Freitas irá passar toda sua coleção para o Empório. Eventualmente, ele a vê como um tipo de biblioteca, com estações de audição montadas entre milhares de prateleiras. Se ele tiver mais de uma cópia de um disco, os associados poderão levar as cópias para ouvir em casa.

Alguns desses discos são muito valiosos. Na sala de estar de Freitas, uma mesa de centro foi coberta com raridades adquiridas recentemente. Em cima de uma pilha de discos de 45, estava ‘Barbie’, um single de 1963 de KENNY AND THE CADETS, um grupo mal-fadad0 que tinha Brian Wilson dos BEACH BOYS nos vocais, e como background singers seu irmão Carl e sua mãe, Audree. Na mesma pilha estava outro compacto, “Heartache Souvenirs”/”Chicken Shack”, de William Powell – que vale até 5 mil dólares no Ebay. Perto estava um disco cubano de Ivette Hernandez, uma pianista que deixou Cuba depois de Fidel Castro subir ao poder; Hernandez teve sua imagem na capa coberta com um carimbo que diz “Traidora da Revolução Cubana”.

Enquanto Freitas vasculhava esses discos, Bastos o alertava de um futuro no qual algumas músicas podem desparecer de vez. A maioria dos discos estadunidenses e bretões que Freitas comprou já foram preservados digitalmente. Mas em países como o Brasil, Cuba e Nigéria, Bastos calcula que 80 por cento da música gravada da metade do século 20 pra cá nunca foi transferida. Em muitos lugares, diz ele, o vinil é só o que existe, e está ficando cada vez mais difícil de achar. Freitas olhou, cobriu seu rosto com as mãos e soltou um grunhido baixo, “é muito importante salvar isso”, ele disse. “Muito importante.”

Fritas está negociando para comprar e digitalizar milhares de discos brasileiros de 78 rotações, muitos dos quais do começo do século 20, e espera digitalizar alguns dos discos mais raros de sua coleção logo em seguida. Mas ele disse que poderia fazer mais e melhor para efetivamente salvar a música ao proteger os originais existentes em vinil em uma instalação segura e à prova de fogo. “O vinil é muito durável”, ele disse. “Se você os armazenar verticalmente, longe do sol, em um ambiente de temperatura controlada, eles podem durar pra sempre. Eles não são como os CDs, que são na verdade muito frágeis.”

Sem sua jornada para salvar músicas obscuras, Bastos me contou, Freitas por vezes compra discos que ele nem sabe que já possui. Nessa primavera ele finalmente atendeu aos pedidos de Bastos para vender algumas das cópias, que tomam até 30 por cento do total se sua coleção, online.

“Eu disse, ‘Vamos, se você tem 10 cópias do mesmo disco, vamos vender quatro ou cinco!’” contou Bastos.

Freitas riu e deu de ombros, “Sim, mas todas essas dez cópias são diferentes”, ele argumentou. E daí ele fez uma expressão que parecia reconhecer o quão ilógica sua postura pode soar.

Em Março, ele começou a encaixotar 10 mil cópias de LPs brasileiros para mandar para George em um escambo entre o crescente arquivo público e seu modelo inspirador. Foi um modesto primeiro passo, mas muito significante. Freitas começava a se desapegar.

No começo desse ano, Freitas e Bastos foram até a Eric Discos, uma loja de usados em São Paulo que Freitas frequenta. “Eu separei algumas coisas pra você”, disse a ele o dono, ERIC CRAUFORD. Os dois adentraram o endereço ao lado, onde Crauford mora. Centenas de discos, e dúzias de CDs, entulhados em pilhas rudimentares – jazz, heavy metal, pop, easy listening – tudo para Freitas.

Algumas vezes, Freitas parece envergonhado de seu próprio ecletismo. “Um colecionador de verdade”, ele me disse, é alguém que almeja discos específicos, ou se atém a um gênero em particular. Mas Freitas odeia filtrar seus prazeres. Certa vez, Bastos se deparou com uma coleção atraente que continha 15 mil discos de polka. Ele ligou para Freitas para saber se aquilo seria algum empecilho. “O Zero ficou me perguntando sobre alguns artistas específicos de polka, pra saber se estavam ou não na coleção”, lembra Bastos. “Ele tem esse conhecimento incrível sobre todo tipo de música.”

Naquela tarde, Freitas comprou as seleções de Crauford sem verifica-las, como ele sempre o faz. Ele disse a Crauford que ele mandaria alguém depois naquela semana para pegar os discos e entrega-los em sua casa. Bastou ouviu tudo sem comentar, mas notou o destino dos discos – a residência de Freitas, não o barracão. Ele ficou preocupado com que as compulsões do colecionador possam estar interferindo com os esforços de arquivo. “O Zero não está levando muitos discos pra casa, está?” Bastos havia perguntado a uma mulher que ajuda Freitas a administrar sua operação de inventário.

Não, ela respondeu. Mas quase toda vez que Freitas pega um disco no arquivo, ele conta uma história inteira sobre ele. Muitas vezes, ela conta, ele fica surtado de emoção. “É quase como se ele chorasse com cada disco que ele vê”, ela revelou.

O desejo de Freitas por ter toda a música do mundo é claramente ligado a algo que, mesmo depois de todos esses anos, permanece carinhoso e cru. Talvez seja a nostalgia disparada pelas músicas naquele primeiro disco de Roberto Carlos que ele comprou, ou talvez remeta aos 200 discos que seus pais tinham quando ele era pequeno – uma micro coleção que foi danificada em uma enchente muito tempo atrás, mas que, quando adulto, ele recriou arduamente, disco por disco.

Depois da ida até a Eric Discos, eu desci até o porão de Freitas, onde ele mantém alguns poucos milhares de discos escolhidos com carinho em um canto particular que ele não divide com o arquivo. Além de uma pequena área reservada para uma bateria montada pela metade, umas guitarras, teclados e amplificadores, a sala era um labirinto de prateleiras do teto ao chão cheias de discos.

Ele entrou fundo dentro de um corredor procurando aquele primeiro P que comprou na vida, o de Roberto Carlos em 1964. Ele o tirou da prateleira, segurando-o vagarosamente nas mãos, olhando par aa capa como se fosse um artefato insubstituível – como se ele não tivesse, comprovadamente, outras 1973 cópias de álbuns de Roberto Carlos, o artista que sempre ocupou, e sempre ocupará, mais espaço em sua coleção do que qualquer outro.

Perto dele, uma caixa de discos que ainda não havia, sido dispostos nas prateleiras. Eles vieram da coleção de um homem chamado Paulo Santos, um crítico de jazz e DJ brasileiro que morou em Washington nos anos 50 e que ficou amigo de alguns dos gigantes do jazz e da música clássica moderna. Freitas olhou disco por disco – Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Leonard Berstein, Dave Brubeck. Os discos estavam autografados, e não com simples autógrafos; os artistas tinham cunhado dedicatórias afetuosas a Santos, um homem que eles obviamente respeitavam.

“Essas dedicatórias são tão pessoais”, disse Freitas, quase sussurrando.

Ele ficou segurando o disco de Ellington por bastante tempo, lendo a inscrição, e então passando pelo texto do encarte. Por trás de seus óculos, seus olhos pareciam levemente vermelhos e mareados, como se algo estivesse os irritando. A poeira, talvez. Mas o disco estava perfeitamente limpo.

 

 

Jim Morrison: ‘Meu namorado o matou’, diz Marianne Faithfull

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A cantora e atriz MARIANNE FAITHFULL reacendeu a polêmica em torno da morte do frontman do THE DOORS, JIM MORRISON, em 1971, ao insistir que ele fora assassinado por seu então namorado, um traficante de drogas.

Morrison faleceu de uma suposta overdose de drogas aos 27 anos, mas a lei francesa não exigiu sua autópsia, já que nada alertou as autoridades na época. Isso levou a anos de especulações, com acusações recaindo sobre sua namorada Pamela Courson, entre outros.

Mas Faithtfull, cuja ascenção à fama veio de um relacionamento com MICK JAGGER, culpa ‘o traficante de heroína das celebridades’ JEAN DE BRETEUIL. Ela se recusou a acompanha-lo ao apartamento de Morrison na noite em que ele morreu, dizendo que teve ‘uma intuição que daria encrenca’.

Faithfull disse à revista bretã MOJO: “Eu pensei, ‘Eu vou tomar uns Tuinal e não vou. Jean foi se encontrar com Jim – e o matou. Tenho certeza que foi um acidente. A heroína era forte demais e ele morreu.

Ela reflete: “Pobre diabo. Enfim, todo mundo ligado à morte do pobre coitado já está morto, exceto por mim.

 

 

Led Zeppelin: Page teria recusado projeto acústico com Plant

A maioria dos fãs de LED ZEPPELIN parece já ter entendido – mas não se conformado – que ROBERT PLANT simplesmente não está interessado em se reunir com os demais membros do grupo, seja para compor ou uma turnê. Mas isso não tem impedido JIMMY PAGE de lançar especulações à imprensa, e Plant agora já demonstra sua irritação com isso.

Plant, que anteriormente aconselhara Page ao baixista JOHN PAUL JONES que ‘seguissem em frente’, ele ainda insistiu que havia ‘zero de chance’ de que uma reunião acontecesse um dia e até sugeriu que Page deveria ‘tirar uma bela soneca’, agora teve que reconjecturar sobre o tema em entrevista à revista bretã UNCUT.

Confrontado com os últimos comentários de Page, que acusam a Plant de ‘fazer joguinhos’ com o assunto reunião e brincadeiras sobre sair em turnê com outro vocalista, ele mandou: “Eu me sinto mal por ele. Ele sabe que sai nas manchetes se assim o quiser. Mas eu não sei o que ele está tentando fazer. Então eu me sinto levemente desapontado e perplexo”.

De acordo com Plant, ele até tentou colaborar com Page em um passado recente. “Alguns anos atrás, eu disse, ‘Se você quiser algo acústico, me diga. Eu penso no assunto’, lembrou. ‘Não deu em nada. Ele saiu andando. Mas não conseguiríamos fazer nada direito. O peso das expectativas é grande demais.’

 

 

Duff McKagan: fã confesso, baixista assiste ao Mötley Crüe nos EUA

Ambos oriundos da cena musical de Seattle, os baixistas NIKKI SIXX [MÖTLEY CRÜE, SIXX:A.M.] e DUFF MCKAGAN [GUNS N’ ROSES, VELVET REVOLVER, LOADED, WALKING PAPERS] sempre tiveram sua trajetória entrelaçada desde que se estabeleceram em Los Angeles e participaram da ascensão de suas respectivas bandas originais ao panteão-mor do hard rock angeleno da década de 80.

O Guns N’ Roses de McKagan chegou a abrir, durante sua primeira turnê nacional pelos EUA, para o Mötley Crüe de Nikki Sixx quando este promovia o álbum ‘Girls Girls Girls’. A socialização entre os meliantes de ambas as formações acabou com uma overdose de Sixx por heroína e uma fratura na mão do baterista STEVEN ADLER.

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Tanto Duff como Sixx sempre tiveram posturas parecidas em suas bandas, tomando a frente dos negócios e decisões sobre o futuro e as estratégias a serem seguidas, e tamanha similaridade também se traduziu em afinidade.

Fã confesso do Crüe – a quem já definiu como ‘o show de rock a ser assistido’ em sua coluna no periódico Seattle Weekly – Duff compareceu a uma das apresentações da atual turnê de despedida da banda em Seattle, onde acompanhado de sua esposa, a modelo Susan Holmes McKagan, pôde conferir ao que deve ser a derradeira performance do grupo naquela cidade.

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O casal ainda confraternizou na coxia com Sixx e sua atual esposa, Courtney.

 

Ratt: fãs começam movimento para substituir vocalista da banda

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Após uma deveras explicitada arenga interna que constrangeu o RATT perante aos fãs no começo desse ano, quando o vocalista STEPHEN PEARCY e o baterista BOBBY BLOTZER terem trocado ofensas pela mídia à ocasião do desligamento de Pearcy do grupo, agora é um grupo de fãs mais ferrenhos que se mobiliza para extirpar definitivamente o crooner do ARCADE da agremiação.

A movimentação começou nos fóruns dedicados ao grupo, e ganhou força quando um engenheiro de som que gravou o Ratt ao vivo em 2013 cedeu o registro de uma apresentação com as pistas abertas e em cima delas, os fãs estão colocando suas próprias vozes por cima da de Stephen, e criando demos que eles acreditam que serão levadas em consideração pelo restante dos decanos do hard angeleno quando for a hora de escolher um novo cantor.

De fato, a voz de Pearcy já vem falhando clamorosamente há quase uma década, e isso ficou bastante evidente quando o grupo de apresentou no MONSTERS OF ROCK brasileiro em sua última edição, quando, não fossem a ansiedade e a vontade do público local em ver a banda pela primeira vez, o show teria sido um desastre pela fraca performance dele.

Dentre os bounces postados que se destacam, está o fornecido por RYAN COGGIN. Ele tem 33 anos e mora no Texas, onde gravou – com muita competência – covers de ‘Body Talk’, ‘You’re In Love’ e ‘Round N’ Round’, podem ser ouvidos pelos streams de SoundCloud mais abaixo.

O Ratt ainda não se pronunciou oficialmente sobre um substituto para a posição de frontman.

 

 

Compact Disc: como e por qual motivo nasceu o revolucionário formato

Por DAVE SIMPSON para o THE GUARDIAN

The new CD dazzles 80s consumers

Jacques Heemskerk, pesquisador, Philips

Nos anos 70, a PHILIPS sentiu que o disco de vinil estava chegando ao fim de sua vida, porque ele era grande, empoeirado e riscado. Nos EUA, o mercado musical tinha sido completamente dominado pela fita cassete, mas elas eram usadas principalmente em carros, e tinham péssima qualidade. Então a ideia de criar um disco pequeno que fosse digital, e não analógico, para melhor sonoridade, surgiu.

Quando eu cheguei, a Philips tinha um projeto chamado Video Long Player [VLP] que depois foi rebatizado como LaserVision – que imprimia vídeo em um disco ótico de 12 polegadas e que parecia como um disco de vinil reluzente. Aquilo não decolou, mas foi um DVD primitivo. Ao mesmo tempo, tanto a Philips como a Sony estavam pesquisando novos discos de áudio. Pelo fato de ambas as empresas terem visto o que acontecera no vídeo – onde os rivais VHS e Betamax seguraram um ao outro – combinamos de desenvolver um formato padrão juntas.

A princípio, havia desconfiança de ambos os lados. Mas tão logo você começasse a conversar, você se dava conta de que a outra equipe tinha o mesmo problema e as mesmas experiências. Então você via que não eram tão diferentes assim no fim das contas.

Tendo dito isso, um problema era que os japoneses usam muito a palavra ‘hai’, que quer dizer ‘sim’, para expressarem ‘nós entendemos’ ou ‘sabemos o que quer dizer’. Então era frequente que quando eles dissessem ‘hai’, achávamos que tínhamos chegado a um acordo, mas eles estavam apenas dizendo que haviam nos entendido. Era muito frustrante.

Tivemos dois anos de reuniões e discussões antes de chegarmos ao disco de 12 cm de policarbonato [plástico], com uma camada refletiva armazenando dados lidos por um feixe de laser. Ele portaria até 74 minutos de música – porque o presidente da Sony queria poder ouvir à Nona sinfonia de Beethoven sem interrupções. Quando finalmente chegamos a um denominador comum em 1980, as especificações técnicas foram escritas no ‘Livro Vermelho’. Daí fizemos uma grande festa.

Desenvolvemos os discos e os players ao mesmo tempo, e então licenciamos a tecnologia para outras empresas para que elas fabricassem seus próprios O primeiro player custava 1000 dólares – muito dinheiro em 1982produtos. Uma vez que convencemos a Panasonic, todas as outras abraçaram. O primeiro player custava 1000 dólares – muito dinheiro em 1982 [US$ 2500 nos valores de hoje] – mas depois de uns dois anos o preço começou a cair.

Precisávamos fazer muita divulgação e sabíamos que a música popular seria o maior mercado, mas não podíamos começar com nada extremo, como o punk. Então fiemos um acordo com o DIRE STRAIS para promovê-los: a música deles foi toda posta em CDs, e eles apareceram em pôsteres e anúncios. Quando ‘Brothers In Arms’ tornou-se o primeiro compact disc a vender um milhão de unidades, vimos que havíamos subestimado o quão rápido ele se tornaria o formato dominante. O disco de vinil estava tão estabelecido, e nos EUA parecia inconcebível que o cassete desaparecesse. Mas depois daquilo, as coisas começaram a mudar muito, muito rapidamente,

Quando os CDs chegaram, eu estava decorando minha casa. Então eu decidi me livrar de todos meus discos de vinil e comprar meus discos dos Rolling Stones e dos Beatles em CD. Isso ainda dói. Apesar de eu ter trabalhado no CD, e tecnicamente ele ser melhor, eu não tenho certeza de que as pessoas terão o mesmo calor e apego emocional com eles como eu tinha com o álbum de vinil, com a bela arte gráfica de 12 polegadas.

 

 

Jean Schleipen, pesquisador, Philips

Eu entrei para a Philips no começo dos anos 90 com um PhD em física. Em 1999, o CD tinha se tornado o formato estabelecido e se desenvolvido para o DVD, que tinha sido outra revolução e dominado o vídeo. Os DVDs eram menores e tinham qualidade melhor, e você não tinha que se preocupar com adiantar fitas – você podia achar o ponto que você queria instantaneamente, o que era um divisor de águas.

Então o meu papel era dar o próximo passo, o Blu-ray. Do ponto de vista tecnológico, CDs, DVDs e Blu-rays são a mesma coisa – um disco ótico incitado digitalmente por um feixe de raio laser – mas passar de uma geração para a outra envolveu 10 anos de pesquisa e centenas de engenheiros. A principal vantagem do Blu-ray em relação ao DVD é a capacidade de armazenamento. Em um DVD, você não tem como gravar ou reproduzir um filme em Full HD porque é muita informação. Então precisávamos de um disco que pudesse abrigar tudo isso.

Claro, desde que conseguimos, a internet melhorou notavelmente. Agora, se você quiser assistir a um filme, você faz um streaming dele da rede. Então, depois de todos aqueles anos de pesquisa, nós de repente paramos. O Blu-ray é o último da família, então eu fui demitido. Estou brincando. Estou trabalhando em algo completamente diferente.

 

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