Guns N’ Roses: o sucesso que a mídia forjou e destruiu – Parte 9

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Continuação do trecho anterior [links para todas as postagens anteriores ao fim da matéria]:

[..]

Mitch: Pelo menos é como eu me sinto a respeito deles…

Niven: Ele estava querendo um disco no qual ele estava se transformando em ‘Elton Rose’, com umas coisas que não empolgavam…’Coma’? Aquilo me deixou em um!

Michael: Você diria que, comparado a ‘Appetite’, e modo em que ‘Appetite’ foi trabalhado, como uma banda, você diria que ‘Use Your Illusion’ foi mais um álbum solo de Axl Rose, com uma banda de apoio pra ele?

Niven: Completamente! ‘Chinese Democracy’ começou basicamente antes de ‘Use Your Illusion’ ser completado. Sabe quando eu te digo algo que te chama a atenção quando você está lendo? Você está dando uma lida em algo, e há uma frase, uma sentença ou uma declaração que parece simplesmente brilhar pra fora do texto, é onde você se inclina pro papel e diz, ‘ah meu deus’…

Bem, eu estou dando uma olhada nessa parada do Axl, e o que me chamou a atenção não foi o meu nome, ou a negatividade dele, ou a frescura dele, ou as reclamações dele, ou a falta de gratidão dele; foi uma declaração: ‘O Guns N’ Roses é a minha vida, e de mais ninguém’. Eu me reclinei na cadeira e pensei, ‘senhoras e senhores, já era’. É assim que ele concebe a coisa: é a vida DELE, é a banda DELE… quero dizer que, ele até tinha uma foto pendurada no apartamento dele, da banda toda, e eles estavam no palco, e eu acho que era uma foto de quando eles estavam no palco no Country Club, e tem uma legenda embaixo: ‘minha banda’.

É assim que o Axl vê a vida, e ele com certeza em… ele tem uma personalidade complexa, e toda essa fama projeta um microscópio incrível sobre a psique de um indivíduo. Quer dizer, não eu, não você, não o Mike, nós não temos que lidar com gente querendo comer nossa carniça como as pessoas querem comer a de Axl. E eu sinceramente me solidarizo a ele por ter que viver com isso, e ele obviamente tem muitos problemas de cabeça, mas os problemas dele são principalmente com controle e poder, e eu não sou psicólogo, mas eu acho que passa por um sentimento de inferioridade, quer dizer, ele já teve uma esposa? Nos últimos 20 anos, ele já teve uma namorada nos últimos 20 anos? Ele já teve seus próprios filhos, ele já criou filhos? E tanto Mitch como eu somos pais, nós dois estamos no rock, mas ainda vivemos vidas comuns, criamos famílias, ele não…

Isso, pra mim, sugere um nível incrível de auto-envolvimento…e quer saber? Tudo bem, ele está correndo atrás da própria vida, do destino dele. Mas eu ainda invoco a pergunta: o eu é que você representa, Axl? O que você defende além de ego, poder e narcisismo?  Com o Slash, eu posso olhar pra ele e dizer ‘Eu sei o que você representa! O amor está agindo no que você faz.’ Eu vejo Slash fazer coisas generosas e amáveis frequentemente. O Slash é perfeito? Não, Slash não é perfeito, e quem de nós o é?

Mitch e Michael: Certo…

Niven: Quem quer jogar a primeira pedra? Quem é que pode apontar o dedo e julgar? Essas são referencias às quais Axl deveria ter se prendido, ele já teve tanto doutrinamento religioso na juventude dele, e ele sempre teve vários problemas com a família disfuncional dele pra lidar, mas quer saber? Todos nós temos! Eu fui mandado pra porra do colégio interno quando tinha sete anos de idade! Foi aí que minha sensação de segurança explodiu, aos sete anos de idade. Ser posto naquele tipo de ambiente, na Inglaterra, sabe como é? Se você assistir a [o seriado] ‘Downtown Abbey’, você vai ver um grande momento quando o Lord Grantham está falando a respeito de um de seus empregados homossexuais, e ele diz, ‘Deus, se eu ficasse incomodado toda vez que alguém tivesse tentado me beijar em Eton [College], eu ficaria irritado o tempo todo!’.

Quem é que coloca um moleque desses num colégio interno? Sabe, essa foi minha vida. Sabe, há uma analogia antiga que a maioria de nós, envolvidos com bandas de rock, fazendo rock, está subconscientemente tentando fazer é formar a família perfeita, para substituir a família disfuncional que teve quando criança… e eu consigo ver isso em Axl…

Mitch: Sim…

Niven: Eu consigo ver isso com o GN’R, eu consigo ver um pouco disso no Great White, mas não muito, porque Jack Russel teve uma excelente infância, com Jack eu só posso dizer que ele é um narcisista sociopata, sempre foi e sempre será. Minha pergunta pra Axl é, ‘O que é que você defende, Axl?’

Michael: Isso é muito interessante de se ouvir vindo de você, porque, agora, da perspectiva e alguém que seja apenas um fã de rock, que tinha uma fita cassete promocional do Guns N’ Roses, porque ele tinha ouvido essa banda do underground, comprou ‘Appetite’ – eu me apaixonei por ele – pra mim, o momento em que aquela banda deixou de ser o Guns N’ Roses foi ‘Use Your Illusion’. Eu te digo agora: eu não tenho nem ‘Use Your Illusion I’ ou ‘Use Your Illusion II’, porque aquilo não era o Guns N’ Roses, pra mim, como fã, eu pensei, ‘O que diabos aconteceu aqui com essa banda? De repente tem todas essas canções longas, épicas e arrastadas, quando o último álbum foi um disco de rock com culhões, na cara?’. E algo dramático mudou ali porque, eu, fã deles, disse, ‘eu não gosto mais dessa banda’.

Mitch: Eu gostava…

Niven: Veja, ‘Chinese Democracy’, sob alguns aspectos, poderia muito bem ser chamado de ‘Chinese Water Torture’.

Mitch: [Risos]

Niven: Porque esse é o modus operandi do ruivo: ele vai atormentar as pessoas, e ele vai atormentar as pessoas e ele vai atormentar as pessoas até que ele consiga o que ele quer. E ele sempre fez isso. E isso é parte da razão pela qual perdemos Steven, porque Steven não conseguia se identificar com aquele material tampouco. E ele tinha muito dificuldade em tocar do mesmo modo duas vezes seguidas. E você junta a isso uma personalidade de vício, heroína, pressão, e dinheiro, e Steven – que deus o abençoe – ele não é um cara tarimbado. Ele se perdeu, e não sabia lidar com aquilo, e claro, a decisão pragmática teve que ser tomada depois de mais de um ano tentando trabalhar com ele, bem mais de um ano, quase dois anos tentando trabalhar com ele. Obviamente, Steven não conseguiria fazer aquilo, e tínhamos que arrumar um baterista que conseguisse tocar o que Axl queria. Izzy estava sendo marginalizado cada vez mais, e é uma pena que você não tenha os ‘Use Your Illusion’, pega uma música chamada ‘Dust N’ Bones’…

Mitch: Essa é uma grande faixa…

Niven: ISSO é o Guns N’ Roses, cara…

Michael: E sabe o que mais? Provavelmente há coisas excelentes ali, aliás, há coisas excelentes ali, mas ficou tudo tão perdido em minha mente, como fã de rock, dois álbuns dessa parada épica, que… quando você os descreveu como Axl querendo fazer seu disco do Led Zeppelin, é exatamente assim que eu os vejo agora, e talvez isso tivesse sido perfeito, uns dois ou três álbuns mais pra frente, mas foi uma transição tão rápida de ‘Appetite’ para ‘Use Your Illusion’ que foi tipo, ‘puta merda, essa banda virou, da noite pro dia, algo completamente diferente’ que os fãs – falando por mim – ficaram chocados.

Mitch: Sim, e as mudanças de integrantes vieram rápido também, quer dizer, do nada fomos pra Gilby Clarke na guitarra e Matt Sorum na bateria, e sabe, não tivesse sido pela trilha sonora de ‘O Exterminador do Futuro 2’ e ‘You Could Be Mine’, talvez eu não tivesse comprado aqueles dois álbuns, mas eu gostava tanto de ‘You Could Be Mine’ que eu tive que comprá-los, mas…

Niven: Mitch, os três singles que usamos para promover aquele disco, e você tem que levar em consideração aqui que essas não foram minhas escolhas, porque eu já havia sido demitido antes do fim disso, os três singles usados para divulgar os ‘Use Your Illusion’ eram três faixas que tínhamos guardado das sobras de ‘Appetite’.

Mitch: ‘Estranged’ vinha de ‘Appetite’?

Niven: Isso foi single?

Mitch: Virou clipe…

Niven: Teve centenas de vídeos! Esse é outro excelente assunto!

Mitch: Mas aquele vídeo era longo e entediante, e tinha golfinhos e puta que pariu…

Niven: Bem, isso foi Axl no controle das coisas mais uma vez…

Mitch: Aquilo foi terrível…

Niven: Os quatro primeiro vídeos custaram no total meio milhão de dólares. Metade desse dinheiro foi pra um vídeo…

Mitch: ‘November Rain’?

Niven: Não, não, ‘Paradise City’.

Michael: Ah ok, os quatro primeiros…

Niven: Sim, os quatro primeiros…

Usamos seis câmeras no Giants Stadium, sob circunstâncias altamente controladas por sindicatos, vocês devem imaginar o fumo…

Mitch: Em Nova Jérsei? Sim…

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Niven: E daí gastamos 250 mil dólares em um vídeo, o que eu achava que era totalmente ridículo e insano, mas que se foda, vamos fazer, vamos fazer isso uma vez.

Daí eu sou demitido e o primeiro vídeo feito depois é ‘November Rain’, e aparentemente, o custo daquilo foi US$1.250.000, e eu te GARANTO que talvez 250 mil disso apareça na tela. O resto foi simplesmente roubado, porque não havia ninguém olhando, ninguém estava no comando, talvez alguém estivesse fazendo jornada dupla, eu não sei, eu não estava lá, mas eu te digo que a maioria das pessoas se foca nos quatro primeiros vídeos.

Michael: Ah sim…

Niven: ‘November Rain’ é uma grande música, uma canção incrível, mas é um grande vídeo? Digam-me vocês.

Mitch: Eu digo que não.

Michael: Quando eu estava a caminho dessa entrevista, eu estava pensando, que eu posso dizer sem demagogia alguma, que ‘Appetite’ está na minha lista de dez maiores álbuns de rock já lançados.

Mitch: Com certeza…

Michael: ‘Use Your Illusion’ não; essa é a diferença entre os dois. Você está certo: ‘November Rain’ é uma música boa…

Mitch: É comprida demais! É comprida demais!

Michael: Sim, eu já disse que muito desse material é comprido demais.

Mitch: Tem uma versão pirata da demo feita dela rodando por ai que tem cerca de quatro minutos de duração e é tocada razoavelmente, apenas de modo acústico, nada daquelas coisas de piano, e é perfeita…

Niven: Cavalheiros…

Mitch: Sim?

Niven: Vamos estabelecer uma perspectiva aqui, a respeito de minha declaração. E claro, essa é apenas minha opinião, certo? De maneira muito justa, todo mundo me acusa de ter uma opinião muito forte e eles estão certos, eu tenho mesmo, mas em minha opinião, é incrivelmente raro que uma banda grave um disco perfeito.

Pra mim, os egos impedem isso. Como em ‘Desperado’ [nota: álbum dos EAGLES de 1973], que, ironicamente, foi considerado um fracasso na época. O PINK FLOYD, que a meu ver, conseguiu fazer isso quatro vezes. Os ROLLING STONES, com sua incrível produção, a meu ver, o fez três vezes: em ‘Beggars’ Banquet’, ‘Let It Bleed’ e ‘Sticky Fingers’. E todos os críticos amam o álbum duplo que veio em seguida [nota: ele refere-se a ‘Exile On Main Street’, de 1972], mas eles estão errados! Essa é a minha opinião, e eu tenho uma opinião forte… esses três discos são uma demonstração incrível de sentimento, espírito, musicalidade, perspectiva, simplesmente grandes discos. O Guns N’ Roses fez isso UMA vez. Tal como o Eagles. Certo? Parabéns, caras! Muito bem! Sabe, os Eagles são inconstantes, eles tem o disco de rock mais vendido da história dos EUA, que é o ‘Greatest Hits’ deles, certo? Mas, em termos de produção de estúdio, eu só posso apontar para um álbum e dizer ‘vocês conseguiram! De A a Z, vocês conseguiram tudo nesse disco’. Então, se o Guns N’ Roses só lançou um disco perfeito, eu tiro o chapéu pra eles, porque eles conseguiram!

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Michael: Ah sim, indiscutivelmente!

Mitch: Com certeza. A propósito, você já ouviu ‘The Elder’ do Ki$$?

Michael: Cala a boca, Mitch!

[risadaria generalizada]

Niven: Você não tem vergonha na cara! Meu deus!

Michael: Não, mas, indiscutivelmente, eu não estou falando que é o melhor álbum de apenas um tipo de música, e sim, pra uma banda fazer um disco tão bom como aquele, é de se tirar o chapéu, parabéns, vocês conseguiram, está pau a pau com ‘Back In Black’ do AC/DC no quesito disco de rock, é perfeito.

Niven: Sim, mas caramba, Mike, é MUITO melhor do que ‘Back In Black’! Meu deus, o AC/DC teria sorte se fosse contratado para ser a equipe técnica do Guns N’ Roses! Eles poderiam ser contratados como roadies de guitarra e de bateria.

Michael: Eu não estou dizendo que amo todo o resto da obra do AC/DC! De jeito nenhum!

Niven: Estamos dispersando pra outro rumo aqui, porque vamos acabar falando de Bon Scott, e isso é algo que vocês deveriam conversar a respeito com alguém, quem é Bon Scott, o que ele agregava ao AC/DC e o que eles perderam quando ele se foi. Mas, enfim, estamos falando sobre o Guns N’ Roses…

Michael: Falando sobre o Guns N’ Roses, no período pós-negociação, e até o presente momento, qual é sua relação com David Geffen? Ele passou a ter um tipo diferente de respeito por você depois daquela negociação tipo, ‘Eis um cara que chegou e me disse o que eu faria’?

Niven: Olha…David aterrorizava a maioria das pessoas. Elas tinham medo dele. E se você assistisse a entrevistas com David, por exemplo, eu assisti uma entrevista com ele que era sobre Los Angeles, The Byrds, The Eagles, e a certo momento da entrevista, David disse, ‘Uma das coisas que tenho que fazer como empresário é proteger o meu artista do rio de merda que vai derramar em cima deles’, e a maioria das pessoas, quando ouve uma declaração desse naipe, não tem ideia sobre a que ele está se referindo. Mas eu tenho um pouco de noção: muitas pessoas que se acham importantes nessa indústria querem ser ligadas à sua banda bem-sucedida, querem ficar próximas de alguém, querem ganhar dinheiro em cima delas, você vai lidar com muitos parasitas e carniceiros… e idiotas. Com David Geffen, permita que eu lembre de algo: meu primeiro conceito sobre David Geffen foi uma música de JONI MITCHELL, ‘Free Man In Paris’ [nota: do álbum ‘Court And Spark’, de 1974], ‘I was a free man in Paris/I felt unfettered and alive/There was nobody calling me up for favors/And no one’s future to decide’. Isso era sobre David. Ele vivera naquele ambiente, com muito sucesso, as pessoas o chamavam de tubarão, os invejosos, ou os que não se importam com você, farão muitos comentários negativos a seu respeito. Eu tenho certeza de que há um milhão de pessoas que te dirão que eu sou louco. É o modo padronizado de Hollywood marginalizar alguém com o qual eles não consigam lidar tão bem. ‘Ah, ele é louco’, ‘Ah, ele é difícil de lidar’. Mas essa fora minha primeira impressão de David. E David era casca-grossa. Na renegociação, claro, eu não podia ir lá pedir pra ele renegociar, porque ele me diria pra ir tomar no cu. Eu tinha que o mandar fazer aquilo. Sabe, ele está tentando maximizar seu próprio lucro, está representando o interesse de David. A minha responsabilidade era tomar conta dos interesses do GN’R, e adivinha só, íamos nos confrontar por causa disso. Eu ouvi uma história da boca de Doug Goldstein, que afirmou que tinha sido contada a ele por John Kalodner, e que foi muito esclarecedora, sobre David, quando encerrava uma relação pessoal,ele dava um Jeep Wrangler pra pessoa como presente de despedida, e em uma semana, o carro aparecia incendiado. E aí, o presenteado podia ganhar outro, claro do seguro, mas que belíssima afirmação pra se fazer a respeito de discrição. Você não fala a respeito de David, certo?

Mitch: Fica de boca calada…

Niven: Essa foi uma história incrivelmente poderosa de se ouvir, sob o ponto de vista do entendimento, sobre o que David achava que tinha que fazer para proteger seu próprio ambiente, preservar sua privacidade, ter que ir até esse ponto. Que mundo louco que ele vive! Quer dizer, eu ainda me solidarizo a ele.

Michael: Quando foi a última vez que você falou com ele?

Mitch: Bem, depois dessa entrevista, você vai ganhar um Wrangler qualquer hora dessas!

Niven: Beleza! Pode queimar, eu ganho outro!

Eu falei com David há alguns anos, na época eu não estava indo muito bem, e ele foi gentil o suficiente para atender minha ligação, pra ser bem honesto, eu estava no meio de uma depressão muito grave, e provavelmente nada coerente com ele, mas ele foi doce o suficiente para me atender. David e eu obviamente tivemos diferenças de opinião, e tivemos alguns bate-bocas aos berros. Sob meu ponto de vista, eu via que todo mundo queria se aproximar dele, estar em bons termos com ele, e pedir coisas a ele. Então, quando David me deu o telefone dele em todas suas coberturas particulares e todos os números nos quais ele poderia ser encontrado, 24 horas por dia, sete dias por semana, eu nunca os usei! Eu não precisava que David fizesse meu trabalho por mim, isso não quer dizer que não batêssemos de frente de vez em quando, ele me ligou em Nova Iorque, e, engraçado, eu estava no prédio da Capitol/EMI para uma reunião lá, e rolava aquele apavoro de ‘O Sr. Geffen está no telefone querendo falar com o Sr. Niven, rápido!’, ganhava um ar muito importante só coma menção do nome dele, que deixava as pessoas correndo e pulando. E eu fui pra uma sala vazia, e David estava lançando um filme na época, com Tom Cruise, e ele queria uma faixa ‘ Appetite’ pra ele.

E eu tinha pesquisado sobre o assunto, e eu tenho que dizer que não sou lá o maior fã de Tom Cruise, e o que eu tinha descoberto pesquisando sobre o filme era que seria uma porcaria.

Isso tudo aliado ao fato de David querer uma faixa do GN’R para dar mais status ao filme, para vender mais ingressos para o filme, até que as pessoas descobrissem que não era lá um bom filme, se chamava ‘Dias de Trovão’ ou algo assim…

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Mitch: Eu ia te perguntar isso, se era ‘Dias De Trovão’, sim, eu me lembro disso, o filme de corrida…

Niven: Sim, sim… quer dizer, não é um grande filme… e enfim, eu disse pra ele que não, que não ia rolar porra nenhuma de música, e daí ele SURTOU, berrando e gritando, e eu estava com 38 graus de febre, o corpo cheio de remédios pra combater a febre, e eu comecei a gritar de volta com ele. Daí eu saio do escritório e há, literalmente, pessoas se escondendo debaixo de suas mesas, pra não serem atingidas pelos estilhaços da briga…

E daí eu pensei no assunto por um tempo, consegui colocar a coisa sob uma perspectiva melhor, e a minha perspectiva foi: David ajudou essa banda, ele certamente precisa de ajuda com esse filme, não, eu não quero associar uma faixa de ‘Appetite’ a esse filme, pelo senso de valor que eu dou àquelas faixas em ‘Appetite’, eu não as associaria a um filmeco de merda, mas te digo o que farei, eu vou ligar pro Axl e dizer, ‘olha, e se a gente desse outra coisa pra ele?’.

E foi assim que rolou ‘Knockin’ On Heaven’s Door’.

Mitch: Certo…

Niven: Porque eu conversei com Axl a respeito, e conversei com Izzy a respeito, e conversei com Slash a respeito, e disse, ‘olha só, o que rola é que eu realmente não quero uma faixa de ‘Appetite’ nisso, nem vocês, mas e se vocês gravarem outra coisa pra ele?

E foi o que fizemos, então ele conseguiu a faixa do GN’R pra ele, e pegamos uma música de Bob Dylan que foi tocada à exaustão desde então. Geffen assustava muita gente. A única fez em que pedi alguma coisa pra ele foi depois de Axl me despedir, eu pedi a ele que se certificasse de que a banda estivesse com as finanças suficientemente em dia para poder me pagar meus direitos pra que eu saísse daquela situação. Eu disse a David, ‘a única coisa que eu não quero mais na minha vida é o Guns N’ Roses’. Certo? Então eu vendi meus direitos vitalícios de comissão de volta pra banda, por muito menos do que eles já valiam. Então mai suma vez, EU NÃO TÔ NESSA PELO DINHEIRO, AXL! NA VERDADE EU PULEI FORA DESSA PRA NÃO TER MAIS QUE BRIGAR COM VOCÊ PELO QUE EU DEVERIA ESTAR RECEBENDO POR DIREITO PELO RESTO DA MINHA VIDA. Beleza? Eu estava nessa pelo espírito do Guns N’ Roses, eu estava nessa pelas personalidades no Guns N’ Roses, Eu estava nessa pelo fato de eu poder olhar para o Guns N’ Roses e dizer, “Quer saber? Isso significa algo pra mim porque representa alguém que valoriza todo e qualquer espírito no mundo, em especial e inclusive o dos próprios ‘urchins living under the street”’ [nota: referindo-se à letra de ‘Paradise City’, que fala dos ‘párias que vivem na sarjeta’], até eles tem valor. E era isso que eu amava no espírito consciente coletivo daquela banda, o fato de ele representar todo espírito vivo.

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Mitch: E de fato representava. Agora, chegamos a uma hora de entrevista, começamos outro assunto ou encerramos?

Michael: Acho que vamos encerrar. A saideira: olhando pra trás agora, vendo seu envolvimento com o GN’R e a Geffen, a Geffen foi a gravadora certa para o Guns N’ Roses, ou você diria que algum outro selo teria feito mais pela banda, que daria outros resultados, ou foi tudo perfeito?

Niven: Nada é perfeito. Por exemplo, o poder de David Geffen inspira pensamentos positivo sou negativos? Eu fui até Eddie Rosenblatt um dia e disse, ‘Eddie, estamos prestes a tocar no Roxy pela última vez. Me adianta cinco mil dólares para eu deslocar um estúdio móvel até a frente do Roxy, e gravar o show para a posteridade?’ E Eddie disse não, para o adiantamento de cinco mil, de modo que eu pudesse gravar aquela que eu achava que seria a última apresentação do Guns N’ Roses em uma casa noturna. Vocês conseguem imaginar quanto valeria isso em dinheiro pra Geffen? Em 1988 ou 1989? Aqueles cinco mil dólares teriam se transformados em quantos? Decisão estúpida e burra!

Michael: Por que vocês não fabricam mais um álbum ao vivo? [risos]

Niven: Não, naquele momento não! Na [gravadora] Capitol, eu tenho que dizer que você tem que valorizar a energia fornecida por todo mundo pra que algo se torne um sucesso, e a Capitol, especialmente lá no começo eles foram muito bons comigo e maravilhosos para com o Great White. Infelizmente, passamos por três presidentes, e quando chegamos ao terceiro, as relações não estavam como deveriam estar.

Mas eu diria o seguinte: eu tive duas bandas no auge ao mesmo, tempo e entre o que eu achava que a Geffen podia fazer ou não e o que a Capitol podia fazer ou não, e a Geffen tinha uma reputação naquela época de ser a melhor. E eles a mereciam e a construíram. Eles tinham pessoas inteligentes trabalhando lá, com certeza e eu diria que a decisão mais sábia que o Guns N’ Roses já tomou – depois de me contratar como empresário – foi…

Mitch: Foi contratar Matt Sorum!

Niven: Não… foi assinar com a Geffen. Eu não acho que nenhum outro selo teria colocado eles onde a Geffen os colocou, não mesmo. Eu não acho que eles teriam dado certo na Capitol, com certeza não teriam dado certo na MCA, eu poderia dar uma lista, RCA… na Warner? Talvez, mas rola uma energia meio hippie na Warner que ainda perdura por lá. David Geffen comprou a ideia, ele tinha um entendimento…

Mitch: Sim.

Niven: Tanto o homem como a empresa. Geffen compreendeu o lance.

Mitch: Eu posso dizer, mesmo como apenas um fã, que toda vez que a Geffen lançava um disco, eu me lembro disso muito claramente, eu via o logo da Geffen na contracapa de um álbum do Whitesnake ou do Aerosmith, e eu pensava, ‘esse disco deve ser bom’, e eu o comprava, enquanto a MCA e a RCA não inspiravam esse tipo de confiança. Pra mim, na qualidade de fã que compra discos, quando eu via um disco lançado pela Geffen, eu pensava, ‘Esse vai rodar bastante na minha vitrola, esse tem coisas que eu curto’, e eles com certeza entendiam de hard rock.

Niven: Uma coisa que eu acho que seja característica sobre a Geffen é que ficava bem aparente pra mim, que na consciência da Geffen, é que eles viam o Bon Jovi como um indicador, um líder de mercado, e isso tendia a te apontar a superficialidade dos galãzinhos e daí você entende o porquê de Kalodner fazer o que faz com o Aerosmith, e o que ele estava fazendo com o Whitesnake, que era: músicas bem açucaradas, vídeos bonitinhos e na moda…

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Mitch: Concordo.

Niven: Então estávamos em um ambiente levemente estranho em termos de mentalidade naquela altura, mas eu tinha a Tom Zutaut, que entendia o lance, e, dentre Zutaut e eu, conseguimos proteger a banda e os deixamos ser o que eles poderiam ser, e acredite, chegou um momento quando David Geffen reconheceu o que ele já tinha aos montes e proclamou, ‘Não, não se trata de galãzinhos, é algo mais elementar’.

Mitch: Voltando a falar de álbuns ao vivo, você não gravou o show do Roxy, mas você tinha o show no Ritz de Nova Iorque gravado, que foi pra MTV, por que vocês não o lançaram como um álbum ao vivo? Aquilo poderia com certeza ter rendido milhões para o grupo.

Niven: Por que ainda não foi lançado? Eu não sei, e te digo a maior pergunta que eu tenho a respeito de um disco não-lançado! Qual é a maior banda de country que já existiu?

Mitch: The Rascal Flatts?

Niven: A porra dos Rolling Stones!!!

Michael [rindo]: Rascal Flatts! Huahauah.. o inverno canadense, mais uma vez está congelando o cérebro dele!

Niven: Por que é que ninguém nunca lançou um álbum com as canções country dos Rolling Stones? O que quero dizer é que um álbum desses dominaria o country, dominaria o rock, seria gigantesco! ‘The Rolling Stones Country Songs’, meu deus, que disco seria esse! ‘Parachute Woman’!

Mitch: É que eu sempre pensei no show do Ritz, entre os ‘lordes do Guns N’ Roses’, ele é considerado como o vídeo que captura o espírito, a raiva, as músicas, o suor, e…

Niven: Com certeza, com certeza…

Mitch: …e ainda assim, é apenas um pirata vagabundo que você pode baixar da internet em uma versão terrivelmente borrada, e faturaria uma fortuna.

Niven: Eis uma questão, vocês são os entendidos… mas se isso estivesse sob minha responsabilidade, eu não o lançaria no formato álbum.

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Mitch: DVD?

Niven: Sim, eu exigiria essencialmente que houvesse imagem aliada ao som; ao ter somente o áudio, você seria privado da coisa toda. Você precisa ver o ambiente, você precisa ver a linguagem corporal, você precisa ver o quanto Slash estava drogado.

Mitch: Eu concordo! E você precisa ter a versão sem a censura da MTV, para poder sentir toda a raiva, toda a energia.

Niven: Com certeza, exatamente. Muitas pessoas, jovens, mais jovens do que eu, já vieram me dizer que, caso alguém não conheça o Guns N’ Roses, é esse vídeo que você tem que assistir, o show do Ritz.

Mitch: É clássico.

Niven: Tendo dito isso, na minha memória…

Mitch: O Great White abriu aquele show, não abriu?

Niven: Na verdade, era pro Great White ter fechado a noite. Originalmente, eu consegui aquilo porque a MTV queria gravar o Great White, e eu disse a eles, ‘se vocês querem fazer isso, então eu quero que a abertura seja da minha outra banda’, e eles disseram, ‘Beleza, você pode colocar o Guns pra abrir’. Certo? Porque eu queria que o Guns fosse filmado, e fizesse parte daquilo, naquelas circunstâncias também. Mas a coisa foi originalmente armada para o Great White. Mas até aquilo ser feito, quando chegou o mês de março, eu sentei com os caras do Great White e mandei, ‘Ouçam, qual é o mote a seguir? Sejam uma banda difícil para se tocar depois, ao invés de tocar depois de uma banda difícil de superar. Se vocês foram inteligentes, vocês vão convidar o Guns para fechar, porque o momento deles é tão forte que vocês seriam idiotas em não fazê-lo’. E os caras do White me ouviram e dissera, ‘beleza, deixa eles fecharem. Vamos tocar primeiro’. Depois do show do Great White, Slash entrou correndo no camarim do Great White e disse, ‘Como é que nós vamos conseguir tocar depois disso?’

Michael: [risos] Então eram ELES que estavam preocupados?!

Niven: Mas eles conseguiram, eles conseguiram…

Mitch: É um clássico.

Niven: As duas bandas arrebentaram naquela noite. Foi uma grande noite de rock n’ roll. Eu tenho, em algum lugar, o áudio do Great White no Ritz, e há uma versão de ‘Since I’ve Been Loving You’ [Led Zeppelin] ali que, puta merda, te dá arrepios. te dá arrepios.

Mitch: Adoraríamos ver isso.

Michael: Essa foi outra conversa maravilhosa. Como eu disse, eu amo as histórias de bastidores, as histórias da Geffen, a visão por dentro das cabeças dos negócios, do mundo dos negócios, isso foi demais. Acho que foi uma grande continuação, o que você acha, Mitch?

Mitch: Sim, com certeza, as histórias simplesmente te sugam pra dentro delas, e vocês podem perceber, eu fiquei quieto durante a maior parte do tempo, você só tem que escutar.

Michael: Sim, é só deixar a história fluir.

Niven: Eu só notei que o Ki$$ tinha que ser abordado em alguma parte do papo.

Mitch: E eu sou muito bom nisso, não sou?

Michael: Eu adoro o modo no qual ele os inseriu na coisa, eu pelo menos falei deles no contexto de uma pergunta!

Mitch: Ah não, a minha foi escancarada, é assim que eu gosto.

Michael: Pelo menos você não botou [o produtor] Bob Ezrin no meio!

Mitch: Eu ia tentar isso, mas…

Niven: Se for pra gente falar de algo à toa, eu gostaria de finalizar agradecendo a vocês dois pela incrível hospitalidade, eu acho que vocês dois tem uma maneira vanguardista de conduzir uma entrevista, é um modo brilhante de fazê-lo. E eu gostaria de encerrar dizendo que se não comprarem discos de Chris Buck e do Storm Perception, vocês estão desperdiçando seu dinheiro.

Michael: E eu vou fazer um adendo a isso, pra vocês todos fãs de GN’R, Slash falou sobre Chris Buck no Twitter, acho que foi ontem, Slash postou algo falando sobre como Chris Buck é bom, então tai, Slash curte esse cara, vão atrás dele.

Mitch: Sim, com certeza, e da próxima vez, acho que seria curioso ouvir de Alan o que ele tem a dizer sobre o Guns N’ Roses ter trabalhado com Bob Ezrin [nota: a parceria chegou a ser confirmada durante as gravações que culminaram em ‘Chinese Democracy’].

Michael: Daí sim, você poderia culpar Bob Ezrin por acabar com a banda!

Mitch: Sim, mas teria sido um bom álbum, ou Slash teria se descontrolado, ou…

Niven: Todas hipóteses interessantes, mas quando de trata de gravar o Guns N’ Roses, há de se tirar o chapéu para duas pessoas em especial: Mike Clink, mais do que ninguém, que foi um guerreiro fabuloso em minha opinião, e Bill Price [nota: produtor e engenheiro de áudio responsável pela mixagem de ‘Appetite For Destruction’ e os dois ‘Use Your Illusion’; Price também foi o primeiro escolhido para produzir o álbum de estreia do GN’R, que seria gravado, na Inglaterra, ideia preterida pela gravadora devido ao envolvimento da banda com drogas] – eis outro assunto sobre o qual não falamos, as mixagens originais de ‘Use Your Illusion’, Bill Price veio e salvou o dia nesse caso, tirou meu chapéu pra ele também, e eis aqui uma história que eu não sei se vocês conhecem, mas vocês sabem quem fez a primeira mixagem de uma faixa de ‘Appetite’?

Mitch: Paul Stanley?

Niven: Não, seu bobo.

[risos]

Mitch: Tô tentando…

Niven: Fomos eu e Michael Lardie [nota: tecladista do Great White], e dentre todas as faixas de ‘Appetite’, pegamos ‘Brownstone’.

Mitch: Ah foi?

Niven: Sim.

Mitch: E essa faixa ou mix existe em algum cofre?

Niven: Sim, existe, e a Geffen a usou em inúmeros Lados ‘B’ e eu nunca recebi um centavo por isso.

Mitch: Que beleza…

Michael: Então Mitch, agora você vai correr atrás dessa música pra ouvir novo, não vai?

Mitch: Com certeza, é isso mesmo que vou fazer, você tem que conhecer bem o material.

Michael: Sim.

Continua…

 

 

 

3 pensamentos sobre “Guns N’ Roses: o sucesso que a mídia forjou e destruiu – Parte 9

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