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Mötley Crüe: 25 Anos de “Dr. Feelgood” – Parte II

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Dois milhões de pessoas em 14 países. A turnê custava 325 mil dólares por semana para se manter nos trilhos. Cada membro da banda foi pra casa com 8 milhões de dólares líquidos no final dela. Houveram percalços no caminho, mas nada como o desastre que os anos de bebedeira e uso de drogas haviam prometido. Apenas as coisas costumeiras do Mötley Crüe: os shows de Moscou foram os primeiros em que a banda tocara sóbria até então. Sabe-se lá onde é que Vince teria achado que esteve caso tivesse se chapado…

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Ainda assim, eles encerraram sua parceria com Doc McGhee após o fiasco da pirotecnia do roupa N… digo, do BON JOVI.

Vince Neil socou IZZY STRADLIN do GN’R no MTV Awards de 1989 [o guitarrista havia assediado a esposa de Neil algumas semanas antes], dando início a uma longa arenga entre as duas bandas. Entrevistado na MTV, Vince desafiou W. Axl Rose para uma briga. EDDIE VAN HALEN e SAMMY HAGAR logo se ofereceram para viabilizar o pugilato entre os dois no Madison Square Garden de NYC. Nunca aconteceu.

Vince arremessou sua cama pela janela de um hotel na Alemanha. Ela caiu sobre duas Mercedes no estacionamento. Tommy Lee foi acusado de atentado ao pudor depois de expor suas nádegas para a plateia em Cincinatti, Ohio. Tommy Lee se divorciou de Heather Locklear e casou-se com a atriz de ‘SOS Malibu’ Pamela Anderson. Sabemos o que aconteceu depois. Nikki Sixx casou-se com outra atriz de ‘SOS Malibu’, Donna D’Errico, Mick Mars casou-se e divorciou-se de uma das Nasty Habits, as backing vocals da banda na turnê de Dr. Feelgood.

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Kensal Green, 1989: Apesar de a matéria sobre Matthew Trippe ter emputecido Nikki Sixx, ele manteve seus comentários restritos a apontar pra mim e dizer “pessoas como VOCÊ escrevem merda sobre a gente…” quando conversamos depois da sessão de fotos da banda. Ele cerrou os punhos pra mim também. Não foi exatamente o fim, apesar de Matthew Trippe ter levado aquilo adiante por algum tempo, ainda que em vão. Ele encerrou a ação em 1993. Foi divertido enquanto durou, mas ele não era Nikki Sixx.

Depois que a turnê de Dr. Feelgood se encerrou, o Mötley Crüe fez divulgação em Londres, e um dos compromissos era comentar músicas das paradas no escritório da revista. Nikki apareceu – em uma limusine, claro – com um taco de beisebol. Uma das músicas sujeitas a seu crivo era uma faixa do FISH. O resenhista disse a Nikki que eu era um fã do cara. Quando eu cheguei à minha mesa na manhã seguinte, lá estava ela, partida ao meio com o bastão de Nikki.

“Caro Jon”, ele escreveu nele. “Você é o próximo. Nikki Sixx.”

ROCKIN’ THE CRÜE

Em uma entrevista nunca antes publicada, BOB ROCK lembra de seu período gravando Dr. Feelgood. Bob Rock fica aliviado por nunca ter tentado trabalhar com o Mötley durante o auge da baixaria do grupo.

“Quando eles chegaram a Vancouver, todos tinham se desintoxicado”, ele lembrou vários anos depois. “Então eles estavam muito mais afiados do que eu esperava em comparação aos álbuns anteriores.”

Rock era renomado na época por ser um produtor altamente comercial, alguém que tinha, por mérito, assim como em colaboração com BRUCE FAIRBARN, trabalhado com o Roupa N… digo, Bon Jovi, LOVERBOY, AEROMITH e o THE CULT. Então, quando ele fora escolhido para produzir a Dr. Feelgood, alguns ligaram a luz amarela.

“A banda queria seguir em uma direção musical diferente. Eu devo admitir que eu me perguntava o porquê de eles terem me escolhido. Mas tão logo eu ouvira as demos que eles haviam feito, tudo fez mais sentido. As músicas não eram exatamente como nada que eles haviam feito antes. Elas eram mais maduras, apesar de ainda terem o selo do Crüe.”

Contudo, apesar do fato de a banda ter se acalmado, Rock achou que as sessões de gravação foram tudo, menos calmas.

“Os quatro caras não estavam se entendendo de jeito nenhum, então eu tive que administrar a situação, e fazer com que cada um viesse e gravasse suas partes. Não foi fácil. Mas eu queria evitar derramamento de sangue!”

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A vasta gama de convidados que aparecem nos backing vocals com certeza deixou as coisas mais animadas.

“O Aerosmith estava no Little Mountain gravando ‘Pump’ na mesma época, então chamamos a Steven Tyler. O Cheap Trick também estava por perto, e trouxemos Rick Nielsen e Robin Zander. Bryan Adams era um amigo das antigas, e ele nos visitou uma ou duas vezes, cantou um pouco… tínhamos essa regra de que, caso você quisesse chegar e passar um tempo com o Crüe, você iria ter que trabalhar.”

FOTOS PUBLICADAS POR ROSS HALFIN EM SUA PÁGINA PÚBLICA DO FACEBOOK EM COMEMORAÇÂO AO ANIVERSÁRIO DO ÁLBUM.

 

 

Mötley Crüe: 25 anos de “Dr. Feelgood” – Parte I

Por JON HOTTEN para a CLASSIC ROCK #25

1990 MTV Video Music Awards

No dia 1 de Setembro de 1989, o MÖTLEY CRÜE lançava “Dr. Feelgood”. Seria o maior disco da carreira deles. Em 2001, a revista inglesa CLASSIC ROCK recapitulou os insanos eventos que cercaram a realização do disco.

Kensal Green, Zona Oeste de Londres, 1989. A limusine preta era comprida demais. Era tão comprida que cobriu a área de três parquímetros. Era tão comprida que eu tive que estacionar virando a esquina. Ali, outras três monstruosidades pretas ocuparam outros nove espaços de parquímetros.

Dos carros saíram quatro músicos, dois seguranças, um empresário de turnê, um capachão e vários executivos de gravadoras. Senhoras e senhores, o MÖTLEY CRÜE estava no prédio…

Essa é uma história de excesso. Essa é uma história de uma quantidade muito grande de sexo e drogas e um pouco menor de rock n’ roll. Essa é uma história de overdoses de heroína, mulheres, armas, sósias, contrabando de maconha e milhões de dólares. Essa é a história de uma banda que usou uma limusine para cada membro para se transportar por Londres. Por que? Porque eles estavam lá. Por que? Porque eles podiam.

Dentro do edifício, que abrigava o estúdio de um fotógrafo, a banda estava sendo assistida por maquiadores e cabelereiras. Em 1989 a banda tinha muito cabelo e maquilagem. No caso do guitarrista MICK MARS, ambos eram aplicados toda manhã. Ele parecia o Nosferatu de ressaca depois de uma noite inenarrável. Havia algo em sua cabeça. Deve ter sido vivo algum dia. Com certeza era longo e preto, certamente era algum tipo de cabelo, e quase certamente não era dele. Eu me apresentei. Ele mal me olhou por um tempo, e então eu tentei de novo. Ele seguiu me olhando, e eu achei que ele fosse um pouco surdo, então eu falei bem alto, diretamente no ouvido dele. Nada. Daí o empresário de turnê tentou. Depois de mais alguns minutos, eu tentei de novo. Daí, muito tempo depois, ele me olhou fixamente e disse: “E ai, amigo? Só viajando aqui…”

Três anos depois, Mick acertaria por acidente um tiro em sua própria namorada.

 

Vince Neil estava em melhor forma física. Claro, Vince, era baixo, mas ele era bronzeado e tinha passado recentemente por uma cirurgia para corrigir seu septo nasal desviado, problema que ocorre quando a cartilagem que divide o nariz se desintegra, dentre outras causas, devido ao abuso de substâncias. A cirurgia afinou o rosto dele. Ele estava coberto de tatuagens e carregava um enorme relógio Rolex de ouro que tinha diamante para marcar aposição dos números no painel. O nome verdadeiro dele era Vince Wharton. Ele tinha 27 anos e era casado com uma ex-lutadora de luta livre na lama chamada Sharise Ruddell. Ele também era um típico californiano, tranquilo e acomodado e possuidor de uma visão de mundo perturbadoramente vaga. Conversamos meio por cima sobre um então recente evento de caridade no qual o Crüe tinha se apresentado em Moscou.

“Porra, cara, você tem ideia do quanto Moscou é longe? Demora pra… é…”

Ele procurava por uma descrição adequada para a duração do vôo. “É longe… pra caralho, cara.”

Ele estava sentado ao lado de TOMMY LEE, e até Tommy estava rindo da dificuldade de Vince.

“Enfim, botamos pra fuder. A gente mandou ver pra cima daqueles… daqueles…” Vince estava tentando com força lembrar-se de pra cima de quem ele tinha ‘mandado ver’.

Tommy pensou por um instante e disse: “Aqueles russos!”

“Sim! Sim! Aqueles porras daqueles comunistas. Aqueles russos. Nós botamos pra fuder com ele. Eles não têm muita coisa lá praqueles lados. Só, tipo, umas porras de lixeiras, cara…”

Tommy e Nikki eram diferentes. Eles eram celebridades genéricas. Eles se agarraram com unhas e dentes a todo tipo de oportunidade e eles pareciam inversamente incríveis. O nome de batismo de Tommy é Tommy Bass. Sua mãe havia sido Miss Grécia em 1957. Ele tinha pele cor de mel, dentes ultra-brancos, cabelo brilhante e um corpo totalmente desprovido de gordura. Ele era engraçado e genial, muito bonito e casado com Heather Locklear, a gata-mor da televisão.

O nome verdadeiro de Nikki era Frank Ferrano. Ele era alto e musculoso e de feições parecidas. Seu pai era siciliano, sua mãe de Idaho. Ele era um astro do rock nato e não havia muita dúvida de que ele comandava a banda. Ele compunha a maioria das músicas e bolava a imagem deles. Ele estava envolvido com uma modelo, Brandi Brandt, depois de romper com a antiga apadrinhada de PRINCE, Vanity. Ele também tinha sido, confessamente, um usuário contumaz de drogas por anos a fio.

Tommy estava gritando sobre seus problemas com Heather pra qualquer um que quisesse os ouvir. Ela suspeitava que ele tivesse ido pra cama com outra. “De jeito nenhum, cara. Mas ela tá me enchendo.”

“Cara,” disse Nikki. “É foda levar bronca por puta que você nem comeu…”

 

As coisas não iam rolar suavemente. Na verdade, a qualquer momento, tudo podia dar errado. O Mötley Crüe, e Nikki em particular, estavam putos da cara comigo e a [revista semanal inglesa de rock] KERRANG!, a publicação para a qual eu trabalhava porque havíamos publicado uma história sobre um cara da Pensilvânia que afirmara ter assumido o lugar de Nikki em uma série de shows em 1983 depois que o baixista sofrera um acidente de carro. O nome do cara era Matthew Trippe. Ele era um pobre coitado que tinha entrado e saído de hospícios e tinha seu próprio problema com drogas. Dentre suas ‘provas’ estavam uma série de memórias, fotos de um tour book que mostravam um Nikki Sixx suspeitamente baixo [quase tão baixo como Vince], várias fotos de umbigos, e outras provas circunstanciais.

Em 1988, ele tinha entrado com um processo contra o Mötley Crüe e o empresário deles, citando roubo de imagem e afirmando que ele tinha composto uma série de músicas que seriam gravadas pela banda depois, incluindo “Knock’Em Dead Kid”, “Girls Girls Girls”, “All I Need”, “Dancin On Glass” e “Wild Side”. Era exatamente o tipo de coisa que só acontece com o Mötley Crüe. Afinal, coisas de toda a sorte acontecem a eles o tempo todo. O empresário deles, Doc McGhee, havia sido condenado por contrabandear 20 toneladas de maconha. Parte de sua ‘punição’ envolvia montar uma organização de combate às drogas, a qual ele chamaria de ‘Make A Difference Foundation’. MAD [‘louco’] na abreviação.

Fora o show dessa fundação em Moscou que Vince se referia à viagem como “longe pra caralho” de se ir. Após finalmente chegarem, Tommy Lee saiu na porrada com Doc McGhee porque o Roupa N… digo, o BON JOVI obtivera permissão para usar pirotecnia em seu show e o Mötley Crüe não. A banda despediria a McGhee na sequência.

Vince Neil fora responsável por um acidente de carro que vitimou ao baterista do HANOI RICKS, RAZZLE. Ele fora condenado por homicídio culposo e sentenciado a 30 dias de prisão.

Mick Mars havia tentado explicar o cancelamento de toda uma turnê bretã [porque a banda estava intoxicada demais para ir] dizendo que ‘tinha muita neve no telhado’ de uma das casas de shows e que ele poderia vir abaixo com o peso do equipamento da banda. Vince tinha comprado um fuzil de assalto soviético AK-47 para Tommy no Natal.

Matthew Trippe era apenas mais uma trivialidade para uma banda que havia fincado acampamento na loucura. Era um artigo legal, para não dizer ridículo. Nikki odiou tudo, mas não entendeu o espírito da coisa. Matthew Trippe era cômico. Matthew Trippe era burro. Matthew Trippe era rock n’ roll. Matthew Trippe era, na verdade, muito Mötley Crüe.

Na semana em que o Mötley Crüe veio de avião até o Reino Unido, o quinto disco deles, “Dr. Feelgood”, era o álbum No. 1 nas paradas da Billboard. Eles haviam saído da desintoxicação e estavam tão próximos do topo quanto possível sem que virassem o próprio Elvis.

A banda não explodiu da noite para o dia, todavia. Eles todos estiveram na Los Angeles do começo dos anos 80, tentando fazer alguma coisa – qualquer coisa – acontecer. Mick Mars estava colocando anúncios de ‘guitarrista procura banda’ na imprensa local. Vince estava em bandas de bar. Nikki tinha estado no LONDON com BLACKIE LAWLESS. O London alcançaria um status de cult por todas as razões erradas: eles se tornaram um centro de admissão para os astros do rock recém-chegados à cidade, enquanto a banda em si nunca decolou.

O Mötley Crüe tinha lançado seu primeiro disco, “Too Fast For Love”, por seu próprio selo, o Leathür, e então subiu continuamente através de álbuns como “Shout At The Devil”, “Theatre of Pain”, e “Girls Girls Girls”. O primeiro grande sucesso deles veio de um cover de “Smoking’ In The Boys Room” em Theatre of Pain.

Enquanto os discos eram muito altos e traziam metal para farra sem maiores exigências, um VAN HALEN sem os licks, o Mötley Crüe provava-se brilhante em seu conceito como um todo. Eles afirmaram a imagem da banda sleaze, eles tinham um visual cool, caricato e enorme. E eles também tinham a sagacidade e a ingenuidade para seguirem em frente: Shout At The Devil tinha um pentagrama na capa, e uma faixa intitulada ‘God Save The Children of The Beast’ e nuances satânicas – o que sempre dá certo. Theatre of Pain era todo cheio de tecido de bolinha e batons. Girls Girls Girls foi um desabrochar genuíno: cabeção, tatuagens, bronzeamento, mulheres fabulosas e plásticas. O disco capturava a época, arrebentou nas casas de strip tease, no carro dos jovens e nos filmes descomprometidos. Entrou em alta rotação na rádio e na MTV. À medida que eles se preparavam para o álbum seguinte, o Mötley Crüe se turbinava para o cume do sucesso.

 

Sustentando tudo isso estava uma honestidade à qual as pessoas respondiam. Enquanto a música era comum, ela vinha de um estilo de vida genuíno. A banda realmente se vestia daquele jeito, agia daquele modo, vivia daquela maneira. Era pra valer, e inspirou e gerou uma geração de bandas. Isso foi o grande êxito deles.

Mas as drogas eram um problema sério, para Nikki Sixx em particular. Ao fim da turnê japonesa de 1987, Nikki deixou o resto da banda enquanto eles partiam para os EUA e parou em Hong Kong com Doc McGhee e o renomado produtor japonês Mr. Udo. Eles foram até uma cartomante, que disse que Nikki morreria antes do fim do ano se ele não repensasse seu estilo de vida.

Nikki viajou de volta para Los Angeles. Logo depois disso, ele foi até o Cathouse, o famoso bar na Sunset Strip administrado pelo apresentador da MTV RIKKI RACHTMAN e TAIME DOWNE, do FASTER PUSSYCAT. Ele levou a SLASH com ele em sua limusine. Sixx começou a perguntar por traficantes atrás de heroína e alguém apareceu no Franklin Plaza Hotel, onde a dupla tinha pego um quarto depois de sair do Cathouse. Slash desmaiou enquanto Sixx se injetava.

Ele não aguentou e foi encontrado pelo baterista do GUNS N’ ROSES, STEVEN ADLER, que havia chegado com a namorada de Slash. Adler, ele próprio um usuário, percebeu imediatamente que Sixx tinha tido uma overdose e o arrastou para o chuveiro. Adler estava com um gesso no braço depois de um acidente, e ele batia em Sixx com aquilo, tentando mantê-lo consciente à espera dos paramédicos. Eles chegaram um pouco depois, mas Sixx estava clinicamente morto. Ele foi removido, com um lençol lhe cobrindo o rosto. Ele permaneceu daquele jeito por alguns minutos, até que uma injeção de adrenalina o trouxe de volta o pulso.

Nikki lembraria-se depois do que ele descrevia como uma experiência de projeção para fora de seu corpo, olhando de cima para si mesmo na ambulância. Ele também começou a usar heroína de novo.

O Mötley Crüe seguiu em frente. Eles estavam em turnês constantes, levando o Guns N’ Roses com eles para a primeira grande turnê da banda de W. AXL ROSE. Mas eles tinham quase uma década de abuso nas costas, e estavam perdendo o controle lentamente. No Japão, houve histórias horrendas que quase levaram a banda a acabar. Daí veio a turnê de Girls Girls Girls sendo cancelada no Reino Unido. A turnê de GGG se encerrou, e a banda voltou ao tratamento contra seus vícios.

“Ou parávamos ou a banda acabava”, lembrou Vince Neil. “Era algo que eu tinha que fazer de modo a lançar outro álbum e voltar às turnês. Pega quatro caras e dê aquele tanto de álcool e drogas por 10 anos e veja o que acontece. Saiu totalmente do controle.”

 

 

Os planos para gravar um novo álbum estavam sendo feitos, o quinto deles, e fazê-lo fora de Los Angeles, longe da tentação, longe do fluxo contínuo de visitantes no estúdio. Um especialista em reabilitação do álcool e das drogas, BOB TIMMINS, havia limpado a banda. Eles fizeram a pré-produção em Los Angeles, mas as gravações ocorreriam em Vancouver, com o produtor BOB ROCK.

Vince Neil estava convencido de que trabalhar em Vancouver seria uma grande vantagem. “Vai ser muito melhor porque há muita distração em Los Angeles. Você não termina de fazer nada.”

“Não vai ser muito puxado”, ponderava Tommy Lee. “E não vamos cansar do material do disco tocando pra 80 pessoas que dão uma passada por lá. Não conhecemos ninguém na cidade. É perfeito.”

As notícias começaram a vazar sobre as faixas que a banda estava compondo. Eles fizeram demos pra mais de 20, incluindo o que se dizia, uma música chamada “Sex, Sex and Rock N’ Roll” [uma nova filosofia?] e outra chamada de “Say Yeah”, sobre o caso Matthew Trippe, além de “Stop Pulling My Chain”, “Brotherhood”, Too Hot To Handle” e “Rodeo”.

Enquanto o plano de ficarem totalmente escondidos em Vancouver não ter sido plenamente bem-sucedido [a banda tocou no palco com o SKID ROW, e o CHEAP TRICK, além de BRYAN ADAMS, passaram pelo estúdio e todos gravaram pequenas partes nas gravações também], eles certamente de dedicaram totalmente à música. Em uma rádio estadunidense, Vince Neil disse a Don Kaye: “Trabalhamos todo dia nas músicas e limamos as que não curtimos. Cada uma das que sobraram é ótima.”

Isso ficou evidente pelas músicas que ele mencionou. Poucas eram dos mesmos títulos que haviam vazado das sessões originais: “Don’t Go Away Mad”, “She Goes Down”, “Same Ol’ Situation”, “Rattlesnake Shake”, e duas baladas, “Without You” e “Time For Change”. A nova ética de trabalho da banda não prejudicou o caráter de sua música, ela ainda era alta e abrasiva, cheia de atitude e seu momento mais emblemático seria “Kickstart My Heart”, que Nikki Sixx havia composto sobre sua overdose e a subsequente e espetacular recuperação induzida por adrenalina. Sixx havia transformado um horrendo baixo e sua vida em um ponto alto e produtivo, uma miniatura fiel ao grande cenário.

 

Mötley Crüe: “Dr. Feelgood” & “Primal Scream” no Canadá- vídeos

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O MÖTLEY CRÜE vai chegando ao fim de sua mais longa tour canadense já feita, após a qual vai se preparar para mais algumas datas nos EUA e outra residência no Hard Rock Hotel & Casino em Las Vegas no segundo semestre.

A última parada da banda no Canadá foi no sábado passado, 11 de maio, em Oshawa, e você pode assistir a dois vídeos do show abaixo:

“Dr. Feelgood”  

“Primal Scream”

Mötley Crüe: ‘Kickstart My Heart’ é plágio descarado de Sweet?

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O álbum ‘Dr. Feelgood’, do MÖTLEY CRÜE, lançado em 1989, permanece sendo o de maior venda na curta fonografia da banda – e também o título que mais contribuiu com faixas para escolhas de set list do grupo desde aquele ano, chegando a ser executado na íntegra em 2009 durante um trecho comemorativo a seus 20 anos.

Duas faixas de ‘Dr. Feelgood’, a título e ‘Kickstart My Heart’ [essa o grande sucesso daquele CD] têm sido apontadas, desde então como ‘demasiadamente influenciadas’ por sucessos dos anos 70, e isso veio à tona semana passada, quando estive em conferência com Bruce William e João Paulo Andrade na suntuosa residência deste nos Lençóis Maranhenses. Ao ouvir mais uma vez o disco no player Meridian modelo 808 V6 recém-comprado pelo JP, quatro conclusões são bem fundamentadas:

1] ‘Dr. Feelgood’ tem o mesmo riff de introdução de ‘The Night Of The Long Knives’, do álbum ‘For Those About To Rock’ [1981] do AC/DC.

2] Conforme o baixista e mentor musical do grupo, NIKKI SIXX, já admitira, a levada da bateria de ‘Kickstart My Heart’ é pesadamente inspirada em ‘Ballroom Blitz’, do álbum ‘Desolation Boulevard’, [1974] do grupo inglês SWEET.

3] A introdução ‘Belina 77 rasgando a avenida’ de ‘Kickstart My Heart’ bebe em ‘Bad Motor Scooter’, do álbum ‘Montrose’ [1973] do MONTROSE.

4] ‘Kickstart My Heart’ é um plágio descarado de ‘Hellraiser’, do SWEET, do álbum ‘The Sweet’, de 1973. Assista à performance abaixo para tirar qualquer dúvida.

O Sweet é uma influência bastante forte no som do Mötley Crüe, e um cover deles chegou a ser gravado pelo vocalista VINCE NEIL em seu primeiro álbum solo, ‘Exposed’ [1993]: ‘Set Me Free’, originalmente no disco ‘Sweet Fanny Adams’, de 1974. Outro grande nome do hard rock oitentista – mas do lado europeu do Atlântico – o DEF LEPPARD, também é réu confesso da força do grupo londrino sobre seu material, e gravou uma versão de ‘Hellraiser’ para o CD de covers ‘Yeah! ’ de 2006.

 

 

Use Your Illusion 25 anos: Se você não estava lá, jamais entenderá

Por Nacho Belgrande

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17 de setembro de 1991.

Se você tem por volta de 35 anos ou mais, deve ter lembranças vívidas do que foi aquele dia [ou aquela noite]. E tal como eu, não deve ter referência nenhuma de comoção tão grande em cima de uma banda nem antes, nem depois.

Há exatos 25 anos, o GUNS N’ ROSES simplesmente tomou de assalto a indústria fonográfica da civilização ocidental por uma noite, e só não o fez também com a oriental porque o sol já havia nascido por lá.

Numa manobra inédita, ousada e megalômana, o grupo lançava dois discos duplos – o vinil ainda servia de referência em muitos mercados – simultaneamente, sendo que já excursionava para promovê-los fazia quase seis meses.

Eu não temo pagar minha língua depois ao afirmar que jamais haverá uma convergência de preparo, potencial, oportunidade, sincronia e momentum para uma banda como houve naquele ano, em torno do tão aguardado ‘novo disco do Guns N’ Roses’. Mas aquela supernova começara a explodir muito antes.

Lembro que em 1989, ao jornal Folha de São Paulo, em uma edição dominical, anunciava que o ‘mercado heavy’ queria o recorde de Michael Jackson, fazendo uma referência à prensagem inicial de ‘Bad’, do falecido cantor, que havia sido lançado nas lojas dos EUA com 3,7 milhões de cópias. O ‘mercado heavy’ do qual a Folha falava era o então futuro lançamento de ‘Dr. Feelgood’, do MÖTLEY CRÜE, que teria 3 milhões de unidades despachadas no dia 23 de setembro daquele ano. O mesmo artigo dizia que o recorde deveria ser arrebatado pelo novo disco do Guns N’ Roses, previsto para 1990 e que deveria sair do prelo com 4 milhões de cópias prontas.

Para quem já era fã do grupo ou conhecia a banda de Axl, Slash, Duff, Izzy e Steven, 1990 foi o mais longo dos anos. Tudo que ficamos sabendo – através das pouquíssimas fontes de informação que tínhamos no país na época – foi do lançamento do cover de “Knockin’ On Heaven’s Door” na trilha sonora de ‘Dias de Trovão’ [iniciando uma série de inteligentes parcerias da banda com o cinema – ignorem ‘Dirty Harry na Lista Negra’, com Jim Carrey cantando ‘Welcome to the Jungle’] e da demissão de Steven Adler [seguindo uma performance sofrível dele no FARM AID organizado pelo músico country WILLIE NELSON], assim como de sua substituição pelo ‘baterista do The Cult’, que é como a maioria de referia ao ilustre desconhecido do qual ninguém tinha foto [aonde, em 1990, você procuraria por uma foto de Matt Sorum?].

A MTV chegou ao Brasil no final daquele ano e até ali, só restava aos fãs da banda comprar a [revista] Bizz todo mês e ler quatro linhas que fossem que em sumo, diziam que ‘Axl afirmou que as gravações do novo disco estão quase terminadas’ e/ou comprar a agora falida Rock Brigade, que só falava em Guns N’ Roses em caso de escândalo e quase sempre em tom jocoso. A melhor notícia de 1990? O Jornal Nacional anunciar em horário nobre que o Guns N’ Roses faria dois shows na segunda edição do Rock In Rio em janeiro de 1991. Recentemente, o próprio W. Axl Rose, em entrevista ao programa Fantástico, revelou que fora a própria emissora quem havia iniciado os contatos para que o grupo se apresentasse no festival. Falando em Fantástico, Axl era habitué do ‘show da vida’ em 1991, vide:

Em 1991, shows estrangeiros no Brasil ainda eram um grande acontecimento. Qualquer gringo de férias pelo país que tocasse pandeiro na praia ganhava duas páginas no Globo. Um festival com as proporções do Rock In Rio ganhava uma importância que todo o circuito de festivais existente em território nacional hoje não alcança. O festival ocorria nas férias escolares, e depois da primeira fase e antes da segunda etapa dos principais vestibulares de universidades públicas, para que mais pessoas tivessem a oportunidade de ir. Sendo assim, e com menos de 10 canais por assinatura disponíveis no mercado [e mesmo assim somente nas quatro maiores cidades do país], a Rede Globo de Televisão adquiriu os direitos de transmissão do RIR para TV aberta no território nacional – como sempre faz, até hoje, apesar de não admitir que também patrocina pesadamente o festival.

Sem entrar em detalhes sobre a passagem da banda offstage pelo país, a exibição dos dois shows de Axl et al, em especial a do dia 20 de janeiro, expôs a banda a todo o território nacional numa noite de domingo, pouco depois do horário do Fantástico. Foi naquela transmissão que o Guns N’ Roses fundiu em aço sua popularidade no Brasil. Quem não conhecia, ficou conhecendo; quem já conhecia, estava esperando, e quem já gostava, passou a gostar mais; quem não assistiu na época, ou nasceu 10 anos depois do espetáculo, descobriu a banda por esse show no YouTube, e provavelmente sabe o set list de cabeça. Falando de novo em convergência de fatores, o público assistiu a uma banda no auge da carreira se apresentando num país de terceiro mundo, o que era MUITO incomum. E isso foi muito apreciado. A plateia brasileira também era menos acostumada a shows, e, portanto [mesmo sob um calor que dava novo sentido ao termo ‘Equatorial’ – eu estava lá], muito mais agitada e calorosa – o que comoveu a banda.

Na época, o Guns N’ Roses recebeu 500 mil dólares pelas duas apresentações no Maracanã – metade do que a versão 2001 do grupo receberia por um único show no Rock In Rio 3, e um oitavo do que fatura com uma apresentação em 2016. Mas eles poderiam ter tocado de graça e o retorno ainda seria compensador. O grupo voltou para Los Angeles com uma nação de dimensões continentais louca para pôr as mãos em qualquer coisa com o logotipo da banda estampado.

O ‘novo disco do Guns N’ Roses’, dizia-se nos telefones sem fio, sairia ainda naquele semestre. Afinal, se o grupo já tinha apresentado tantas faixas novas nos dois shows cariocas – sete no total, o que se supunha então ser mais da metade do álbum – o processo deveria estar próximo do fim. Até estava, e quando a turnê ‘Get In The Ring Motherfucker’ começou em maio de 1991, a demanda por material novo da banda já era tão grande que os shows – já com repertório tirado do vindouro trabalho – gravados ilegalmente e de maneira amadora eram pirateados e comercializados ao redor do mundo em fita cassete e vinil.

No mesmo mês de maio, a – mais uma vez ela – Bizz trouxe em suas páginas [que a essa altura, já figurando uma meia dúzia de jornalistas da ‘escola’ Rolling Stone/NME -brasileiros de nascença com complexo de londrino e que abominavam qualquer coisa que figurasse no mainstream – escrutinizava a banda em qualquer oportunidade] uma declaração de alguém no campo da banda dizendo que o disco não sairia por enquanto para que fosse mixado novamente, de modo que o som ficasse ‘mais sujo’, e que o lançamento ficaria ‘mais pro final do ano’.

A sensação de fel na boca que o ‘mais para o final do ano’ causou em quem esperava pelo álbum foi dissipada em parte por mais uma incursão do Guns N’ Roses pela sétima arte: ‘You Could Be Mine’, que já era conhecida do público por sua execução no Rock In Rio, era lançada como single e fora incluída na trilha sonora do filme mais aguardado daquele ano: ‘O Exterminador do Futuro 2’.

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Lançada nas rádios no dia 18 de junho [o filme chegaria ao Brasil em agosto], a faixa e o filme, em mais uma martelada certeira do destino em dois pregos ao mesmo tempo, promoveram um ao outro. A capa do single tinha Arnold Schwarzenegger caracterizado como o modelo cibernético T-800, e o vídeo promocional da canção contava com o ator em uma participação inusitada, com todo um contexto do enredo do filme inserido numa apresentação do grupo.

Originalmente, o clipe de ‘You Could Be Mine’ fora concebido e gravado sem visar a inclusão da música no filme de James Cameron, e uma versão ‘Director’s Cut’ da edição fundamental do diretor MARK RACCO veio à tona há pouco, confira no vídeo abaixo:

Lembremos que na época, Schwarzenegger era o ator mais conhecido do globo, e qualquer banda pagaria qualquer coisa para tê-lo em seu set.

Voltemos ao Brasil. Cerca de três semanas antes do lançamento de ‘Use Your Illusion’, o Globo Repórter dedicou uma edição inteira a ‘Terminator 2’, ressaltando as revolucionárias técnicas de efeitos especiais do filme, o estrelato do imigrante austríaco que tinha se tornado o ator mais bem pago do cinema de ação, e claro, vários trechos de ‘You Could Be Mine’ ao longo do programa, expondo o Guns N’ Roses mais uma vez ao país todo em horário nobre.

Cerca de uma semana antes do lançamento do disco, ‘Don’t Cry’, uma faixa que a banda não tinha tocado no Rock In Rio e que só era conhecida por quem tivesse ‘descolado’ uma fita cassete bootleg de shows antigos da banda de idos de 1985 até 1987 [há uma versão excelente da música sendo executada pela banda no finado The Marquee de Londres nos notórios shows de Junho de 1987] ou de algum outro ocorrido naqueles longos seis meses antecedendo a seu lançamento oficial, chegava às rádios nacionais, e de cara, chegava ao topo das paradas do Brasil. Dado surreal: por ‘paradas’, entenda-se ‘o que tocava na [pasmem! ] Jovem Pan e/ou Transamérica’. Isso mesmo, em 1991, a Jovem Pan tocava Guns N’ Roses. A revista Veja [na época em que a revista tinha a relevância de quarto poder] entregue às bancas no domingo anterior a 17 de setembro deu duas páginas de destaque aos ‘Use Your Illusion, revelando que seriam de fato dois discos, e que a experiência fonográfica ultrapassava 3 horas de audição. E não, a resenha da revista não era lá muito favorável aos compêndios.

O dado mais importante da matéria da Veja: uma data definitiva, 17 de setembro, terça-feira, menos de 48 horas depois deu ter lido a revista.

Claro, as horas seguintes passaram muito devagar para mim, por mais de um motivo: 1 – eu mal podia me aguentar de ansiedade, e 2 – se eu tivesse que comprar dois discos ao invés de um, minha regulada mesada de estudante aos 17 anos vivendo em uma república em Ribeirão Preto seria seriamente desfalcada com essa extravagância. Na verdade, eu não teria dinheiro suficiente para comprar dois vinis ‘zero’ naquela terça.

Na segunda-feira à noite, contudo, liguei a cobrar de um orelhão [não existia telefonia celular no país] para meus pais em GO, e surpreendentemente, meu pai, antenado como nunca – ou como sempre – me disse que sabia do lançamento dos discos, e que quando eu soubesse do preço deles, que o avisasse, e que ele depositaria o dinheiro de presente para mim. Daí então, ao invés das horas passarem mais rapidamente, elas começaram a ficar mais longas.

Voltei para casa e assistindo ao Jornal Da Globo – que na época era apresentado por William Bonner e Fátima Bernardes – ouço antes de uma chamada para o intervalo: ‘E depois dos comerciais, o tumulto nas lojas americanas pelo novo disco do Guns N’ Roses’. Eu já não sei que horas da madrugada eram quando a matéria foi exibida, mas todo aquele furdunço que podemos ver pela internet hoje em dia estava ali, sendo transmitido pelos escritórios da Globo em Nova Iorque, mas com imagens da Tower Records de Sunset Strip [Los Angeles], que havia aberto as portas às 0h [e fecharia às 2 da manhã] para vender o disco, que em CD, custava 15 dólares cada volume.

Um interlúdio sobre a Tower Records: a relação da marca GN’R com a filial de Sunset Strip é longa e poética. Slash foi pego furtando cassetes quando adolescente por funcionários da loja, Rose chegou a dormir na parte de trás do estacionamento, e tanto um como o outro chegaram a trabalhar na subfilial especializada em vídeo, do outro lado da rua. A rede Tower não existe mais – sucumbiu ao compartilhamento de arquivos em 2006 – e manteve-se ativa apenas no Japão, onde sua loja ocupa uma torre [sem trocadilhos] de mais de 10 andares no coração de Tóquio. Poeticamente, foi na mesma Tower de Sunset Strip que os ingressos para a apresentação da volta de Duff & Slash ao lineup da banda no último 8 de abril.

Voltemos ao dia que não acabou.

Gente saindo com os CDs em long box [quantos de vocês já tiveram um CD em embalagem long box nas mãos? ] gritando e acenando para as câmeras. Estações de rádio tinham montado acampamento em lojas ao redor do país para registrar o fato. Pôsteres gigantes com as capas dos dois discos cobrindo as vitrines do teto ao chão.

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E assim eu perdi definitivamente meu sono, na expectativa de que, caso eu matasse aula, poderia adquirir os álbuns ainda pela manhã e começar a ouvi-los antes do almoço. Mas claro que eu não podia, o que eu diria a meus pais?

Minutos depois de a matéria ter sido exibida, meu irmão adentra o apartamento e antes que eu pudesse informá-lo do que eu tinha acabado de ver, ele me diz, sem muito entusiasmo: ‘Você viu os discos do Guns? Eu vi lá no Carrefour do shopping hoje. São dois discos duplos, né? ’. Meu mundo caiu. Então o disco já tinha sido lançado no Brasil, chegado ao interior paulista e eu parado em casa? Mal sabia eu, é praxe que discos sejam lançados em certos países um dia antes dos EUA.

Eu fui à aula naquela terça, ainda que minha mente não tenha se focado por momento algum no que seis qualificados professores tenham explicado das 7h às 12h30min.  Quando eu saí da escola, também não me interessava almoçar. Liguei de um orelhão [com fichas de chumbo, não com cartão de papel] para uma loja razoavelmente careira do centro da cidade, e informei o preço a minha mãe em seguida. Ela conseguiu fazer o depósito para minha conta só ligando para o gerente do banco e meu irmão, munido do cartão do Bradesco Instantâneo, rumou para o Carrefour num ônibus, encarregado de trazer as quatro bolachas.

Se não me engano, ele deve ter chegado de volta pouco antes das 4 horas da tarde, e começamos a ouvir da primeira faixa, em ordem cronológica, e sem parar. E assim fomos, eu, ele e nosso outro colega de república, de ‘Right Next Door to Hell’ até ‘My World’. Acabamos por volta de 8 horas da noite, e eu confesso: não ‘entendi’ aquele disco de cara. Era diversificado demais, longo demais, adulto demais, complexo demais. Pois bem, jantamos e o ouvimos de novo, dessa vez pulando as faixas que não nos agradavam tanto.

Naquela semana, o que houve de publicidade para a banda no Brasil nunca se viu e nunca mais vai ser visto. No mesmo domingo em que li a tal edição da Veja, uma banda cover do Guns N’ Roses se apresentou no Domingão do Faustão, com direito a Slash e Axl de peruca tocando ‘You Could Be Mine’. No decorrer da semana, as Lojas Americanas anunciavam em um comercial confeccionado somente para a oferta, que ‘ninguém vendia o novo disco do Guns N’ Roses tão barato’. Na [já finada loja de departamentos] Mesbla, você encontrava até camisetas para crianças de 4 anos com o logotipo do grupo. Mesma coisa no igualmente liquidado magazine Mappin. Foi o começo da superpopularização do grupo, assim como a alvorada de sua saturação.

Use Your Illusion I estreou em #2 na parada da [revista estadunidense] Billboard, vendendo 685 mil cópias em sua primeira semana de lançamento, menos do que “Use Your Illusion II, que chegou as 770 mil cópias em 7 dias e, portanto, arrebatou o primeiro posto da tabela.

Cada um dos Illusion venderia mais de 14 milhões de cópias mundo afora.

Atualmente, o modo mais fiel de ouvir aos dois volumes da obra é em SHM-CD [categoria de CD acrescida de 1.2mm de resina plástica de policarbonato que melhora a transparência do lado inferior do disco, provendo uma melhor leitura, e, portanto, melhor reprodução] nos relançamentos japoneses de toda a discografia do GN’R já de maio de 2016. Tais prensagens são vendidas em embalagem ‘mini LP’ e reproduzem fidedignamente o encarte do LP de vinil da época.

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Os números de catálogo para quem quiser encomendar ambos via lojista/internet são:

  • Use Your Illusion I UICY-94336
  • Use Your Illusion II UICY-94337

 

 

 

Mötley Crüe: Vince Neil abre shows solo com monólogo de ‘Pulp Fiction’

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O vocalista do MÖTLEY CRÜE – banda que encerrou oficialmente suas atividades como unidade de turnês musicais – fez seu segundo show solo desde o fim do grupo, no réveillon passado.

Após ter tocado em um show particular fechado promovido pela gigante CISCO no Havaí semana passada, VINCE NEIL fez um show na casa Wolf’s Den, no complexo Mohegan Sun [Uncasville, Connecticut] na noite de sábado.

“Obrigado aos fãs que vieram noite passada até o #mohegansun. Me diverti muito” – tweetou Neil depois do recital. “O Wolf’s Den estava pegando fogo!!”

A banda de Vince ainda consiste da mesma formação que se apresentou com o cantor no Brasil em 2010: DANA STRUM e JEFF BLANDO [ambos do SLAUGHTER] e o incrível baterista ZOLTAN CHANEY. Neil seguirá em turnê solo ao longo de 2016.

Alguns vídeos fan-made do show podem ser vistos mais abaixo.

Note que a abertura do show, logo antes de “Dr. Feelgood”, é feita com a execução de uma gravação com a voz do ator estadunidense SAMUEL L. JACKSON no papel de Jules Winnfield declamando um trecho da Bíblia [mais exatamente Ezequiel 25:17] tal qual em cena do filme ‘Pulp Fiction – Tempo De Violência’, dirigido por Quentin Tarantino.

 

 

 

Mötley Crüe: Há 28 anos, Nikki Sixx descia à mansão dos mortos

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Há 28 anos, no dia 23 de dezembro de 1987, o baixista do MÖTLEY CRÜE, NIKKI SIXX, era declarado morto após uma parada cardíaca causada por uma overdose de heroína em Los Angeles, Califórnia. O músico foi reanimado por duas injeções de adrenalina administradas por dois paramédicos [um dos quais fã do Crüe], e em seguida foi levado ao hospital, do qual escapou. Após chegar seminu em casa, ele usou mais heroína.

Tal episódio, contudo, inspirou um dos hinos da banda, ‘Kickstart My Heart’, e levou Nikki a se desintoxicar, para eventualmente compor o álbum ‘Dr. Feelgood’ [1989], maior sucesso comercial do grupo até hoje, além de único trabalho do Mötley a chegar ao topo das paradas dos EUA.

 

 

Use Your Illusion: 24 anos atrás, o GN’R dava um mata-leão na indústria

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17 de setembro de 1991.

Se você tem por volta de 30 anos ou mais, deve ter lembranças vívidas do que foi aquele dia [ou aquela noite]. E tal como eu, não deve ter referência nenhuma de comoção tão grande em cima de uma banda nem antes, nem depois.

Há exatos 20 anos, o GUNS N’ ROSES simplesmente tomou de assalto a indústria fonográfica da civilização ocidental por uma noite, e só não o fez também com a oriental porque o sol já havia nascido por lá.

Numa manobra inédita, ousada e megalômana, o grupo lançava dois discos duplos – o vinil ainda servia de referência em muitos mercados – simultaneamente, sendo que já excursionava para promovê-los fazia quase seis meses.

Eu não temo pagar minha língua depois ao afirmar que jamais haverá uma convergência de preparo, potencial, oportunidade, sincronia e momentum para uma banda como houve naquele ano, em torno do tão aguardado ‘novo disco do Guns N’ Roses’. Mas aquela supernova começara a explodir muito antes.

Lembro que em 1989, ao jornal Folha de São Paulo, em uma edição dominical, anunciava que o ‘mercado heavy’ queria o recorde de Michael Jackson, fazendo uma referência à prensagem inicial de ‘Bad’, do falecido cantor, que havia sido lançado nas lojas dos EUA com 3,7 milhões de cópias. O ‘mercado heavy’ do qual a Folha falava era o então futuro lançamento de ‘Dr. Feelgood’ do MÖTLEY CRÜE, que teria 3 milhões de unidades despachadas no dia 23 de setembro daquele ano. O mesmo artigo dizia que o recorde deveria ser arrebatado pelo novo disco do Guns N’ Roses, previsto para 1990 e que deveria sair do prelo com 4 milhões de cópias prontas.

Para quem já era fã do grupo ou conhecia a banda de Axl, Slash, Duff, Izzy e Steven, 1990 foi o mais longo dos anos. Tudo que ficamos sabendo – através das pouquíssimas fontes de informação que tínhamos no país na época – foi do lançamento do cover de “Knockin’ On Heaven’s Door” na trilha sonora de ‘Dias de Trovão’ [iniciando uma série de inteligentes parcerias da banda com o cinema – ignorem ‘Dirty Harry na Lista Negra’, com Jim Carrey cantando ‘Welcome to the Jungle’] e da demissão de Steven Adler [seguindo uma performance sofrível dele no FARM AID organizado pelo músico country WILLIE NELSON], assim como de sua substituição pelo ‘baterista do The Cult’, que é como a maioria de referia ao ilustre desconhecido do qual ninguém tinha foto [aonde, em 1990, você procuraria por uma foto de Matt Sorum?].

A MTV chegou ao Brasil no final daquele ano e até ali, só restava aos fãs da banda comprar a [revista] Bizz todo mês e ler quatro linhas que fossem que em sumo, diziam que ‘Axl afirmou que as gravações do novo disco estão quase terminadas’ e/ou comprar a Rock Brigade, que só falava em Guns N’ Roses em caso de escândalo e quase sempre em tom jocoso. A melhor notícia de 1990? O Jornal Nacional anunciar em horário nobre que o Guns N’ Roses faria dois shows na segunda edição do Rock In Rio em janeiro de 1991.

Em 1991, shows estrangeiros no Brasil ainda eram um grande acontecimento. Qualquer gringo de férias pelo país que tocasse pandeiro na praia ganhava duas páginas no Globo. Um festival com as proporções do Rock In Rio ganhava uma importância que todo o circuito de festivais existente em território nacional hoje não alcança. O festival ocorria nas férias escolares, e depois da primeira fase e antes da segunda etapa dos principais vestibulares de universidades públicas, para que mais pessoas tivessem a oportunidade de ir. Sendo assim, e com menos de 10 canais por assinatura disponíveis no mercado [e mesmo assim somente nas quatro maiores cidades do país], a Rede Globo de Televisão adquiriu os direitos de transmissão do RIR para TV aberta no território nacional – como sempre faz, até hoje, apesar de não admitir que também patrocina pesadamente o festival.

Sem entrar em detalhes sobre a passagem da banda offstage pelo país, a exibição dos dois shows de Axl et al, em especial a do dia 20 de janeiro, expôs a banda a todo o território nacional numa noite de domingo, pouco depois do horário do Fantástico. Foi naquela transmissão que o Guns N’ Roses fundiu em aço sua popularidade no Brasil. Quem não conhecia, ficou conhecendo; quem já conhecia, estava esperando, e quem já gostava, passou a gostar mais; quem não assistiu na época, ou nasceu 10 anos depois do espetáculo, descobriu a banda por esse show no YouTube, e provavelmente sabe o set list de cabeça. Falando de novo em convergência de fatores, o público assistiu a uma banda no auge da carreira se apresentando num país de terceiro mundo, o que era MUITO incomum. E isso foi muito apreciado. A plateia brasileira também era menos acostumada a shows, e, portanto [mesmo sob um calor que dava novo sentido ao termo ‘Equatorial’ – eu estava lá], muito mais agitada e calorosa – o que comoveu a banda.

Na época, o Guns N’ Roses recebeu 500 mil dólares pelas duas apresentações no Maracanã – metade do que a versão 2001 do grupo receberia por um único show no Rock In Rio 3. Mas eles poderiam ter tocado de graça e o retorno ainda seria compensador. O grupo voltou para Los Angeles com uma nação de dimensões continentais louca para pôr as mãos em qualquer coisa com o logotipo da banda estampado.

O ‘novo disco do Guns N’ Roses’, dizia-se nos telefones sem fio, sairia ainda naquele semestre. Afinal, se o grupo já tinha apresentado tantas faixas novas nos dois shows cariocas – sete no total, o que se supunha então ser mais da metade do álbum – o processo deveria estar próximo do fim. Até estava, e quando a turnê ‘Get In The Ring Motherfucker’ começou em maio de 1991, a demanda por material novo da banda já era tão grande que os shows – já com repertório tirado do vindouro trabalho – gravados ilegalmente e de maneira amadora eram pirateados e comercializados ao redor do mundo em fita cassete e vinil.

No mesmo mês de maio, a – mais uma vez ela – Bizz trouxe em suas páginas [que a essa altura, já figurando uma meia dúzia de jornalistas da ‘escola’ Rolling Stone/NME -brasileiros de nascença com complexo de Londrino e que abominavam qualquer coisa que figurasse no mainstream – escrutinizava a banda em qualquer oportunidade] uma declaração de alguém no campo da banda dizendo que o disco não sairia por enquanto para que fosse mixado novamente, de modo que o som ficasse ‘mais sujo’, e que o lançamento ficaria ‘mais pro final do ano’.

A sensação de fel na boca que o ‘mais para o final do ano’ causou em quem esperava pelo álbum foi dissipada em parte por mais uma incursão do Guns N’ Roses pela sétima arte: ‘You Could Be Mine’, que já era conhecida do público por sua execução no Rock In Rio, era lançada como single e fora incluída na trilha sonora do filme mais aguardado daquele ano: ‘O Exterminador do Futuro 2’.

Lançada nas rádios no dia 18 de junho [o filme chegaria ao Brasil em agosto], a faixa e o filme, em mais uma martelada certeira do destino em dois pregos ao mesmo tempo, promoveram um ao outro. A capa do single tinha Arnold Schwarzenegger caracterizado como o modelo cibernético T-800, e o vídeo promocional da canção contava com o ator em uma participação inusitada, com todo um contexto do enredo do filme inserido numa apresentação do grupo.

Originalmente, o clipe de ‘You Could Be Mine’ fora concebido e gravado sem visar a inclusão da música no filme de James Cameron, e uma versão ‘Director’s Cut’ da edição fundamental do diretor MARK RACCO veio à tona há pouco, confira no vídeo abaixo:

 

 

Lembremos que na época, Schwarzenegger era o ator mais conhecido do globo, e qualquer banda pagaria qualquer coisa para tê-lo em seu set.

Voltemos ao Brasil. Cerca de três semanas antes do lançamento de ‘Use Your Illusion’, o Globo Repórter dedicou uma edição inteira a ‘Terminator 2’, ressaltando as revolucionárias técnicas de efeitos especiais do filme, o estrelato do imigrante austríaco que tinha se tornado o ator mais bem pago do cinema de ação, e claro, vários trechos de ‘You Could Be Mine’ ao longo do programa, expondo o Guns N’ Roses mais uma vez ao país todo em horário nobre.

Cerca de uma semana antes do lançamento do disco, ‘Don’t Cry’, uma faixa que a banda não tinha tocado no Rock In Rio e que só era conhecida por quem tivesse ‘descolado’ uma fita cassete bootleg de shows antigos da banda de idos de 1985 até 1987 [há uma versão excelente da música sendo executada pela banda no finado The Marquee de Londres nos notórios shows de Junho de 1987] ou de algum outro ocorrido naqueles longos seis meses antecedendo a seu lançamento oficial, chegava às rádios nacionais, e de cara, chegava ao topo das paradas do Brasil. Dado surreal: por ‘paradas’, entenda-se ‘o que tocava na [pasmem! ] Jovem Pan e/ou Transamérica’. Isso mesmo, em 1991, a Jovem Pan tocava Guns N’ Roses. A revista Veja [na época em que a revista tinha a relevância de quarto poder] entregue às bancas no domingo anterior a 17 de setembro deu duas páginas de destaque aos ‘Use Your Illusion, revelando que seriam de fato dois discos, e que a experiência fonográfica ultrapassava 3 horas de audição. E não, a resenha da revista não era lá muito favorável aos compêndios.

O dado mais importante da matéria da Veja: uma data definitiva, 17 de setembro, terça-feira, menos de 48 horas depois deu ter lido a revista.

Claro, as horas seguintes passaram muito devagar para mim, por mais de um motivo: 1 – eu mal podia me aguentar de ansiedade, e 2 – se eu tivesse que comprar dois discos ao invés de um, minha regulada mesada de estudante aos 17 anos vivendo em uma república em Ribeirão Preto seria seriamente desfalcada com essa extravagância. Na verdade, eu não teria dinheiro suficiente para comprar dois vinis ‘zero’ naquela terça.

Na segunda-feira à noite, contudo, liguei a cobrar de um orelhão [não existia telefonia celular no país] para meus pais em GO, e surpreendentemente, meu pai, antenado como nunca – ou como sempre – me disse que sabia do lançamento dos discos, e que quando eu soubesse do preço deles, que o avisasse, e que ele depositaria o dinheiro de presente para mim. Daí então, ao invés das horas passarem mais rapidamente, elas começaram a ficar mais longas.

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Voltei para casa e assistindo ao Jornal Da Globo – que na época era apresentado por William Bonner e Fátima Bernardes – ouço antes de uma chamada para o intervalo: ‘E depois dos comerciais, o tumulto nas lojas americanas pelo novo disco do Guns N’ Roses’. Eu já não sei que horas da madrugada eram quando a matéria foi exibida, mas todo aquele furdunço que podemos ver pela internet hoje em dia estava ali, sendo transmitido pelos escritórios da Globo em Nova Iorque, mas com imagens da Tower Records de Sunset Strip [Los Angeles], que havia aberto as portas às 00h00 min para vender o disco. Gente saindo com os CDs em long box [quantos de vocês já tiveram um CD em embalagem long box nas mãos? ] gritando e acenando para as câmeras. Estações de rádio tinham montado acampamento em lojas ao redor do país para registrar o fato. Pôsteres gigantes com as capas dos dois discos cobrindo as vitrines do teto ao chão.

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E assim eu perdi definitivamente meu sono, na expectativa de que, caso eu matasse aula, poderia adquirir os álbuns ainda pela manhã e começar a ouvi-los antes do almoço. Mas claro que eu não podia, o que eu diria a meus pais?

Minutos depois de a matéria ter sido exibida, meu irmão adentra o apartamento e antes que eu pudesse informá-lo do que eu tinha acabado de ver, ele me diz, sem muito entusiasmo: ‘Você viu os discos do Guns? Eu vi lá no Carrefour do shopping hoje. São dois discos duplos, né? ’. Meu mundo caiu. Então o disco já tinha sido lançado no Brasil, chegado ao interior paulista e eu parado em casa? Mal sabia eu, é praxe que discos sejam lançados em certos países um dia antes dos EUA.

Eu fui à aula naquela terça, ainda que minha mente não tenha se focado por momento algum no que seis qualificados professores tenham explicado das 7h às 12h30min. Quando eu saí da escola, também não me interessava almoçar. Liguei de um orelhão [com fichas de chumbo, não com cartão de papel] para uma loja razoavelmente careira do centro da cidade, e informei o preço a minha mãe em seguida. Ela conseguiu fazer o depósito para minha conta só ligando para o gerente do banco e meu irmão, munido do cartão do Bradesco Instantâneo, rumou para o Carrefour num ônibus, encarregado de trazer as quatro bolachas.

Se não me engano, ele deve ter chegado de volta pouco antes das 4 horas da tarde, e começamos a ouvir da primeira faixa, em ordem cronológica, e sem parar. E assim fomos, eu, ele e nosso outro colega de república, de ‘Right Next Door to Hell’ até ‘My World’. Acabamos por volta de 8 horas da noite, e eu confesso: não ‘entendi’ aquele disco de cara. Era diversificado demais, longo demais, adulto demais, complexo demais. Pois bem, jantamos e o ouvimos de novo, dessa vez pulando as faixas que não nos agradavam tanto.

Naquela semana, o que houve de publicidade para a banda no Brasil nunca se viu e nunca mais vai ser visto. No mesmo domingo em que li a tal edição da Veja, uma banda cover do Guns N’ Roses se apresentou no Domingão do Faustão, com direito a Slash e Axl de peruca tocando ‘You Could Be Mine’. No decorrer da semana, as Lojas Americanas anunciavam em um comercial confeccionado somente para a oferta, que ‘ninguém vendia o novo disco do Guns N’ Roses tão barato’. Na [já finada loja de departamentos] Mesbla, você encontrava até camisetas para crianças de 4 anos com o logotipo do grupo. Mesma coisa no igualmente liquidado magazine Mappin. Foi o começo da superpopularização do grupo, assim como a alvorada de sua saturação.

Use Your Illusion I estreou em #2 na parada da [revista estadunidense] Billboard, vendendo 685 mil cópias em sua primeira semana de lançamento, menos do que “Use Your Illusion II, que chegou as 770 mil cópias em 7 dias e, portanto, arrebatou o primeiro posto da tabela.

Cada um dos Illusion venderia mais de 14 milhões de cópias mundo afora.

Há 26 anos: Izzy apanhava e Axl arregava para Vince Neil, do Mötley Crüe

O VMA – cerimônia de premiação anual promovida pelo canal MTV – de 1989 tem um episódio de pugilato em seus registros que marca uma forte analogia com a cena musical da época.

Foi à ocasião que o vocalista do MÖTLEY CRÜE, VINCE NEIL, mandou um pombo sem asa no então guitarrista da então banda GUNS N’ ROSES, IZZY STRADLIN.

O vídeo de ‘Sweet Child O’ Mine’ concorria em duas categorias, e acabou ganhando apenas no quesito ‘Melhor Vídeo de Metal’, e curiosamente, quem entregou o troféu foi o Mötley Crüe, e recebido por apenas dois integrantes do GN’R: DUFF MCKAGAN e um STEVEN ADLER mais louco que o Lobão 1986. Enquanto três dos membros do Crüe eram só afagos com os amigos do GN’R [lembremos que Adler estava presente à overdose que quase matara a NIKKI SIXX alguns meses antes], Neil amargava fel na língua.

Algumas semanas antes, sua esposa SHARISE havia sido agredida verbal e fisicamente por Izzy Stradlin em uma casa noturna de Los Angeles, o Cathouse Club, quando ele estava em turnê promovendo o CD ‘Dr. Feelgood’ com a banda. Ela, claro, contou tudo para o marido pelo fone, o que desencadeou a casa de caboclo armada por Neil no VMA.

Neil avistou a Stradlin na coxia e ordenou a seu segurança que mandasse sua limusine o esperar de motor ligado na porta lateral do teatro onde se realizava o evento, e dirigiu-se até o guitarrista, tudo isso enquanto o músico assistia a seu colega de banda, W. AXL ROSE, cantar ‘Free Fallin’ com TOM PETTY. Ao se aproximar, Neil, mandou a fita:

‘Você bateu na minha mulher! ’

‘ E daí? ’, respondeu Izzy, antes de tomar um trampesco na cara e cair ao chão. Vince foi então interpelado por seu segurança e pelo vocalista do SKID ROW, SEBASTIAN BACH, que tentou devolver-lhe uma pulseira de ouro que havia caído com o golpe. Logo depois, Axl Rose correu em direção a Neil, que já era arrastado pela segurança para fora da casa antes que a polícia chegasse [Vince tem uma looonga capivara…], e a cena se desfez com brados de Rose dizendo ‘Vamos lá, filho da puta, eu vou te matar’.

Depois disso, nos meses seguintes, Axl atacaria a Neil na mídia em toda a oportunidade que pudesse, intimando-o para um tipo de duelo, que, segundo Vince, foi aceito, mas Axl nunca apareceu.

Na autobiografia do grupo, ‘The Dirt’, de 2001, Vince afirma: ‘A oferta ainda está de pé. ’

 

Mötley Crüe: Banda quis mudar de nome nos anos 90 e foi vetada

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O vocalista JOHN CORABI [THE SCREAM, MÖTLEY CRÜE, UNION, DEAD DAISIES] insiste que o autointitulado álbum de 1994 do Crüe teria sido um enorme sucesso caso tivesse sido lançado sob um nome diferente para o grupo.

Ele disse que eles seguiram a maus conselhos ao não ouvirem seus próprios instintos. E eles corroboraram com o erro ao fazer o primeiro lançamento sem o vocalista original, VINCE NEIL, logo com um trabalho autointitulado [haveria um EP, ‘Quaternary’, que no Japão é um full length].

Corabi disse ao jornalista canadense Mitch Lafon no podcast One On One With Mitch Lafon: “Aquele álbum teria sido um enorme sucesso caso tivesse sido lançado por outro nome que não Mötley Crüe. A banda queria mudar de nome. Estávamos pensando em NC, iniciais de ‘New Crüe’. Ficamos discutindo nomes. NIKKI SIXX sempre quis chamar uma de suas bandas de Christmas.

“Todas as pessoas envolvidas com a banda – a gravadora, advogados, agentes, empresários – todo mundo que estava recebendo comissão via que caso o Mötley mudasse de nome, não poderia pedir 300 mil dólares por noite. Eles teriam que voltar à Terra e começar provavelmente em teatros e auditórios por bem menos dinheiro. ”

Ele continua: “Todo mundo viu suas comissões se esvaírem, e foram essas pessoas que nos convenceram. ‘Vocês são o Mötley Crüe, vocês não podem fazer isso, vocês acabaram de assinar um grande contrato’. Eles nos demoveram da ideia. ”

Seguindo os 6 milhões de discos vendidos somente nos EUA do antecessor, “Dr. Feelgood’, ‘Mötley Crüe’ mal bateu na marca de disco de ouro nos EUA [500 mil cópias] e o jogo da culpa começou.

Corabi reflete: “O que não funcionou tinha duas partes. ‘O que era diferente? O vocalista, então é obviamente culpa dele – e vocês não deveriam ter chamado isso de ‘Mötley Crüe’.

“Pra começo de conversa, nós não queríamos chamar de ‘Mötley Crüe’! ”

 

 

 

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