Nü-Metal: De onde veio? Para onde foi? A culpa é do Sepultura?

korn2

A introdução é longa. Quase 50 segundos. Uma banda nova deveria morrer de medo de abrir um disco desse jeito, preocupada se potenciais ouvintes vão ficar aborrecidos com um chimbal aberto acompanhando um acorde feio de guitarra. E com certeza não é algo que um produtor de discernimento jogue nas rádios. E daí vem aquele grunhido – Are you reeeeaaaaaady?! – e você ouve uma revolução musical nascendo…

A qual morreria, menos de uma década depois.

Korn1

Começando com “Blind” do Korn em 1994, e terminando por volta do verão de 2003, quando o Limp Bizkit foi expulso de um palco em Chicago por uma plateia que insistia em jogar lixo neles e gritava ‘Fuck Fred Durst’, o Nü-Metal segue sendo um dos gêneros mais demonizados e desprezados desde o nascimento do rock. Apesar de certas bandas terem aguentado bem a reação adversa – o Korn ainda encabeça festivais; o álbum ‘The Hunting Party’ do Linkin Park estreou em #3 na Billboard ano passado – o legado do nü-metal agora é considerado um desfile de moda, repleto de agressão falsa, composições simplistas e um modo de cantar que poderia ser definido como rap fora do ritmo.

O ódio a ele cresceu o bastante para disseminar uma música pop tirando sarro do gênero, “Rockin’ The Suburbs”, do Ben Folds, e não supreendentemente, a retórica mais voraz veio da comunidade do metal: músicos, chefes de gravadoras e fãs recalcados que viram seu amado gênero ser tanto ofuscado como pervertido. O nü-metal não só roubou a popularidade de seu antecessor, mas também começou a corrompe-lo; os scratches de DJs estavam vindo de dentro da casa.

Esse artigo começou como uma procura para conseguir enxergar o nü-metal sob a perspectiva daqueles que tiveram pelo menos um pé dentro da comunidade metálica normal; aqueles que poderiam nos dizer agora, 20 anos depois, qual foi o verdadeiro impacto dele. Mas eu descobri rapidamente que as opiniões a respeito do nü-metal estão distantes de serem universais, e fora alguns poucos protagonistas, ninguém sabe ao certo o porquê de ele ter se iniciado, como ele ganhou tanta força tão rapidamente, e o que enfiou uma flecha em seu coração.

Para ser honesto, não temos nem certeza de que ele está mesmo morto.

OS PADRINHOS DO NÜ-METAL

Em 1993, o Perl Jam tocou “Rockin In The Free World” com Neil Young no VMA da MTV. Era um tributo a seu pedigree, e Young ainda parece feliz em aceitar essa alcunha de Padrinho do Grunge.

Na maior parte, aqueles que mais influenciaram ao nü-metal são bem menos entusiasmados em admitir isso. É o caso de Page Hamilton, do Helmet, e Mike Patton do Faith No More: as duas bandas são influências diretas do gênero, mas ambos os frontmen têm dispensado tal honraria, como se a ligação manchasse o nome de suas bandas [Mike Bordin, do Faith No More, parece menos preocupado, já que ele ocupou o posto de baterista do Korn ocasionalmente].

Um músico que não tem nenhuma vontade de se distanciar é Charlie Benante, o baterista do Anthrax, que junto com o guitarrista Scott Ian fez o que alguns dizem que é a primeira verdadeira combinação de metal e hip-hop, “Im The Man”, de 1987.

anthrax1

“Alguns de nós na banda começamos a curtir rap e o modo que o RUN DMC se portava; eles eram como astros do rock”, diz Benante, e “I’m The Man” é de fato representativa de tal admiração, incluindo um sample de “King of Rock” do Run DMC junto com Metallica e Beastie Boys. “Todo o meu conceito para a capa de I’m The Man era derivado do Run DMC. A Adidas nos deu um monte de roupas, e quando eu vi o Korn todo vestido de Adidas, eu achei que talvez tivéssemos feito algo. ”

Benante ainda defende que o Korn tinha ‘um som’ quando apareceu na cena, afirmando que ele adorou ‘Blind’ e até fala de sua introdução, e que o Korn começou muito organicamente. Depois, ele diz, “Eu não acho que eles sabiam que estavam abrindo a porta para todas essas bandas de merda entrarem. ”

A VELHA GUARDA DO METAL

“O grunge foi influenciado pesadamente pelo heavy metal, mas nenhum deles admitia, porque não pegava bem. ” Quem diz isso é Brian Slagel, que fundou o selo Metal Blade em 1982 e concordou em lançar a primeira faixa do Metallica antes sequer que eles fossem de fato uma banda. Esse cara tem mais perspectiva do que qualquer pessoa que eu tenha entrevistado, mas todo mundo concorda com seu principal sentimento: nos anos 90, o metal estava totalmente na merda.

Brian1

“Uma vez que o grunge começou a dominar, ao invés de vocês ver o Iron Maiden no Headbangers Ball, você via o Nirvana ou o Pearl Jam”, diz Billy Graziadei do Biohazard. “Estava claro que as coisas estavam mudando para valer. ”

O lançamento de ‘Nevermind’ em 1991 é frequentemente citado como a pedra fundamental da mudança de maré nos derivativos mais populares do metal, preenchendo o vazio deixado por uma cena glam metal impotente, mas a cena que ainda tinha um público no underground ainda estava sentindo o arrocho.

“Quando as pessoas diziam ‘heavy metal’, eu fazia cara feia porque eu sabia que o termo tinha essa conotação negativa na qual implicava em coisas como Trixter ou Slaughter, algo com o qual eu não me identificava, diz o consultor de bandas Ula Gehret, que trabalhava com o elo Century Media na época. “Havia muita mudança no ar, e todo mundo estava descartando o metal como um estilo válido. ”

Um sinal de sua decadência foi, ironicamente, o fato de ele estar se popularizando. “Toda grande gravadora tinha um artista desse tipo”, diz Slagel, “o que eu acho que ajudou a matar o gênero em primeiro lugar. ”

Monte Conner, ex-Roadrunner, viu do mesmo modo: “Do tempo em que eu comecei em 1988 até 1993, a cena do Death Metal estava ficando supersaturada. Toda banda e suas mães estavam sendo contratadas. Nós olhávamos para aquilo como uma cena de linha de montagem. ”

Mas se o grunge não ocupou o lugar do metal necessariamente, ele certamente desempenhou seu papel na mudança da estética do gênero – do cabelo longo e bem cortado com jaquetas jeans cheias de patches, fazendo com que todos esses clichês visuais da época parecessem teatrais e cafonas.

“O selo Sub Pop estava mais perto do Napalm Death em termos de proposta”, diz Barney Greenway do Napalm Death. “O heavy metal tinha tantos clichês, e a cena do grunge era mais autêntica. ”

rossrobinsonstudio3

Ou, como o produtor Ross Robinson aponta, ‘o heavy metal estava idiótico. ’

A ASCENSÂO DO PLANETA DO NÜ-METAL

Nascido em 1967, Ross Robinson não é nenhum forasteiro no metal, apesar de sua reputação. Ele foi um dedicado guitarrista de thrash nos anos 80 e começo dos 90 em bandas como o Detente [banda com uma vocalista mulher contratada pela Metal Blade], Murdercar e Catalepsy. Você pode ouvi-lo em todas elas no YouTube: metal legítimo, sem viadagens, sem pose. Quando ele se dedicou à produção, gravando seus amigos do Fear Factory em uma demo de 1991, sua intensidade aumentou.

dino2

Ross tinha um certo lance em torno dele”, diz o guitarrista do Fear Factory, Dino Cazares. “Uma pessoa muito motivadora. Ele lhe colocava em um bom estado mental ou em um péssimo estado mental. Ele conseguia lhe inspirar, agindo como um quinto membro. Como um fã que está mandando ver no estúdio com você. ”

Apesar disso, Robinson e a banda não se entenderam e acabaram discordando, o que resultou em uma ação cível que dividiu a propriedade da gravação. E apesar de a demo não ser lançada oficialmente até 2002 [como o álbum ‘Concrete’], Robinson a mostrou para várias outras bandas.

“Ele a tocou para as bandas locais, dizendo ‘Eu posso fazer isso por vocês’”, diz Cazares. “E uma das bandas para as quais ele a mostrara foi o Korn. ”

Cazares até aponta a faixa “Scapegoat”, do álbum de estreia “Soul of a New Machine”, de 1992, tem quase o mesmo riff de abertura de ‘Blind’ do Korn [e inclui os veros ‘You can’t see/too damn blind’].

“Ross desenvolveu o som deles com a produção que ele fizera conosco”, diz o vocalista do Fear Factory Burton C. Bell. “Deixando-a mais groovy, não tão agressiva. Ele a desacelerou e a tornou apenas um pouco mais acessível. ”

“E eu pensei”, Bell pondera rindo, “por que é que não foi conosco? ”

fear_factory-soul_of_a_new_machine-front

Ross Robinson fala com a parcimônia e calma de um surfista ou de um budista. Não como alguém que arremessas as coisas dentro de estúdios de gravação. Não como alguém que exige dos vocalistas até que eles estourem suas gargantas. Não o cara que tentou, propositalmente, destruir a cena na qual ele fora criado.

“O metal estava com umas letras tão idiotas, e não era completamente aberto”, ele diz. “Eu queria trabalhar em algo que fosse profundo e autêntico, algo que você não tivesse como negar. ”

A abordagem metafísica de Robinson à música, especialmente ao metal, apenas deu mais munição a seus críticos, mas ele não tem o menor problema em ampliar o contexto de faixas que ele julgar simples demais. “Pra mim, os riffs vinham em segundo lugar, atrás do feeling da música”, ele diz. “Eu queria que aquela essência invisível que é tão maior do que somos na dianteira da música. E eu sentia que isso era só o que era necessário: aquele espírito na música. ”

maxresdefault (1)

Mais uma vez, esse era um guitarrista de thrash e ele sabia tão bem quanto qualquer um que o riff, a virtude da execução musical, era uma parte fundamental do metal. E ele estava de saco cheio daquilo, a começar com a demo ‘Neidermeyer’s Mind’, do Korn [1993]. “Eu acho que o Korn foi a primeira expressão guiada emocionalmente com sons pesados. É o primeiro caso na história do metal a ser aberto e honesto com quantidades incríveis e sem medo de vulnerabilidade. O metal nunca tinha sido vulnerável. ”

No mundo de hoje, onde a vulnerabilidade se tornou amplamente abraçada e celebrada em muitos círculos do metal, é importante parar e olhar a esse aspecto íntegro do Korn e o que ele significou para a cena. Raiva, desolação, desesperança – tudo foi cantado à exaustão por bandas de metal, mas houve poucas, se é que houve alguma antes do Korn que cantou tão abertamente sobre traumas passados. A despeito do quão autobiográficos sejam algumas das letras do Korn, elas eram explícitas e diretas. As bandas dos primórdios do metal, no máximo, cunhavam letras pessoas como alegoria ou criavam personagens fictícios desolados. Mas ‘Faget’ era abertamente sobre o frontman da banda, Jonathan Davis, sofrer brutalmente com o bullying na escola. Uma história de abuso sexual em ‘Daddy’ termina com Davis chorando incontrolavelmente.

Não há dúvida de que gritar sobre qualquer tema sombrio possa ser convincente e arrebatador, mas o grunge tinha tocado em algo mais pessoal, elevado pelo suicídio de Kurt Cobain, que ocorrera seis meses antes de o Korn ser lançado. E Robinson entendia que o metal era reprimido pela, bem, pela música.

“Basicamente, tudo se trata de dinâmica”, ele diz. “O metal ficou tão travado e restrito pela obsessão com a técnica. Quando você está sendo autoindulgente com seus riffs, trata-se do guitarrista e do baterista, e o vocal canta sempre no mesmo tom. O vocal precisa flutuar ao longo da música. ”

As letras podem ter dado ao Korn uma capa de autenticidade, mas o que ganhou de fato o público foi o fato de a música ser bastante fácil de se tocar.

A ALVORADA NO PLANETA DO NÜ-METAL

“Nós salvamos Los Angeles. ”

Dez Farara é tido por muitos como o único músico a ter ganho fama internacional com uma banda de nü-metal, o Coal Chamber, e depois ter sido bem-sucedido ao voltar para um metal mais tradicional com o Devildriver. Mas Fafara é outro veterano do nü-metal que se gaba de seu envolvimento e de ser um dos pioneiros do gênero.

Coal-Chamber

“O Roxy, o Whisky, aquelas casas estavam mortas”, ele diz. “O Korn estava em Huntington Beach colocando as pessoas nos ônibus para que elas fossem a seus shows. As pessoas precisavam de metal, e o único modo de elas o terem seria com um novo estilo. Ninguém ia querer ser o Judas Priest naquela altura. Ninguém queria ser o velho Metallica. ”

Farara viu uma cena que estava vingando porque, ao contrário de seus antecessores, havia gostos abertamente ecléticos.

“Você entra na coxia e você ouve gente tocando Slayer e Public Enemy e Bauhaus e Black Flag”, ele se lembra. “Era uma viagem. ”

E daí as gravadoras chegaram.

“Eu os vi tocando em Los Angeles, e eles eram incríveis”, diz Slagel sobre o Korn do começo. “Era novo e diferente e interessante. Nós adoramos. Daí eu os vejo um mês ou dois depois, e Monte Conner da Roadrunner está ali também. E nós dois nos reunimos com a banda e fizemos ofertas a eles, mas daí eles fizeram outro show de exibição e o burburinho em torno do nome deles começou a se espalhar. Daí todos os caçadores de talentos de todas as gravadoras também estavam lá, e eu me lembro de ter pensado, ‘isso não é bom.’”

deftones1

Conner lembra da história de modo um pouco diferente, tendo visto ao Korn e ao Deftones no mesmo show, e até pago para que o Deftones fosse de avião até NYC com seu empresário para assinar com a Roadrunner,  sobre quem ele diz que nunca sequer tentou assinar com o Korn. “Nós éramos um selo pequeno naquela época, e a Immortal/Epic estava oferecendo 10 vezes mais do que o valor mais alto pelo qual eu já pagara por uma banda. ”

O álbum de estreia do Korn Foi lançado no fim de 1994, e pouco mais de um ano depois, foi a vez do Deftones com ‘Adrenaline’. O nü-metal, como gênero novo e distinto, estava então solidificado, mas o som em si ainda era compartilhado por um pequeno punhado de bandas, e não tinha penetrado no metal tradicional ainda. Mas daí em diante, Conner e a Roadrunner tornaram-se o lar do mais controverso álbum de nü-metal de todos.

O PACIENTE NÚMERO ZERO

cavalera_2

“Essas são as mesmas pessoas que tentaram me categorizar como um Judas. Judas, o nome mais odiado da história da humanidade! Se você acha que já foi xingado, tente lidar com isso. Sim, e pelo quê? Por tocar guitarra? ” – Bob Dylan

A frescura com o fato de “Dylan ter plugado a guitarra” tem sido usada incontáveis vezes desde que ele tocou com uma banda de rock e tornou-se um traidor aos olhos da comunidade folk. Olhando agora, 50 anos depois, não dá para ver o porquê de tanto barulho. Mas, quase 20 anos depois do lançamento de ‘Roots’, do Sepultura, ainda há muita emoção bruta sobre o que aquele disco fez com a música pesada.

“Ele, mais do que qualquer outra pessoa, tem muito a responder, ” diz Greg Whalen, editor assistente da revista Terrorizer, e o ‘ele’ ao qual ele se refere é Max Cavalera, ex-vocalista e guitarrista do Sepultura. Whalen é apenas uma das muitas pessoas que têm fortes opiniões a respeito do álbum de 1996 que levou o nü-metal a infectar uma comunidade que – até então – tinha permanecido imune.

“Eu amava ao Sepultura”, Gehret diz. “E quando ouvi Roots, foi como se alguém tivesse pego um peixe e me dado um tapa na cara com ele. Era a coisa mais abjeta do mundo. Eles conseguiam compor aqueles riffs e partes técnicas maravilhosas, e eles rebaixaram o mínimo denominador comum. Aquilo quase que me machucou fisicamente. ”

Cavalera ficara impressionado com o disco de estreia do Korn, e com a produção de Robinson. Robinson também era alguém que, no começo das negociações, dissera que ‘queria erguer uma pirâmide: algo que as pessoas pudessem ver muito depois que eles tivessem morrido. ” Mas até a gravadora do Sepultura não via a viabilidade da banda mudar tão radicalmente.

“Eles me mandaram uma demo de ‘Roots Bloody Roots’ e ‘Dusted’, com Max cantando a letra em um estilo scatting, diz Conner. “E eu me lembro de ouvir aquilo, e não soava como o Sepultura que eu conhecia. Eu não sabia o que pensar. Eu liguei para Max e disse, ‘Cara, o que é que você está fazendo? ’, eu perguntei, ‘Você está cometendo suicídio comercial. ’”

A elaboração de Conner é compreensível: isso era um baita murro na cara dos puristas do metal, alguns dos quais já tinham ficado decepcionados com o fato de o Sepultura de distanciar do thrash em seu disco anterior, ‘Chaos AD’. A crescente popularidade do Korn pode ter preocupado a alguns desses puristas, mas Roots era como se Nero fizesse um downtuning enquanto Roma pegava fogo.

O próprio Cavalera, contudo, vê a coisa de modo bem diferente. “Fizemos o que quisemos, e o que achávamos que era correto, sem medo”, ele diz. “Não víamos a finalidade de gravar a Chaos AD 2. Fizemos um disco totalmente novo com ideias totalmente novas, e ficou matador. ‘Roots Bloody Roots’ é uma de minhas músicas favoritas em toda minha carreira. E nós nos demos conta de que poderíamos ter uma música muito poderosa que não precisava ser rápida. Por mais que eu ame a Arise, Roots é tão forte quanto e sem ser rápida. ”

E fora a produção de Robinson, aparições de Mike Patton e dois membros do Korn, e a participação de DJ Lethal, Cavalera não ouve muitas semelhanças. “Nós viemos do mundo do thrash e não soamos como o Korn. A música está a milhares de milhas de distância do Korn. Não queríamos soar como o Korn. ”

disco1

Zombe dessa última frase o quanto quiser, mas seja lá qual tenha sido a sonoridade final de Roots, ele foi tudo, menos um suicídio comercial. Conner declara que ele logo aceitou a mudança da banda, e logo depois, quase todas as outras gravadoras entenderam: Roots vendeu mais de dois milhões de cópias.

EU SONHO COM SUCESSO O DIA INTEIRO

“Eu senti que alguém havia acionado uma chave interruptora, e de repente, havia um mar de bandas de nü-metal, e todas elas eram enormes”, diz Gordon Conrad, que já trabalhou com os selos Earache, Relapse e agora com o Season of Mist. Ele também foi administrador do selo Escape Artist, que lançou os discos de estreia de bandas como Sisis e KEN mode.

adidas

A Escape Artist foi fundada em 1997, o ano em que o nü-metal de fato estourou. O segundo disco do Korn, ‘Life Is Peachy’, saiu no fim de 1996, mas eles apareceram na capa da sagrada revista estadunidense Metal Maniacs ao lado de Marilyn Manson em fevereiro, e lançaram o primeiro grande single, “A.D.I.D.A.S.” em março. O autointitulado disco de estreia do Coal Chamber chegou em seguida, e o Deftones lançaria “Around The Fur” no outono seguinte [com Max Cavalera na faixa mais nü-metal do disco, “Headup”. O Snot lançou seu primeiro CD, assim como o Sevendust. O único LP do Human Waste Project saiu em 1997, e o disco independente de estreia do Powerman 5000 fora relançado por uma grande gravadora. Tal como Brian Slagel dissera, toda gravadora precisava de uma banda desse estilo.

maxdef

A banda que acabaria tipificando ao nü-metal mais até do que o Korn, contudo, também lançaria sua estreia no verão de 1997.

“Eu me lembro de Monte me telefonar e dizer, ‘Hey, tem essa banda, o Limp Bizkit”, diz Gehret, “e eles têm um disco, “Three dólar Bill Y’All”. E eu me lembro de rir muito do nome. Ele disse que eles seriam muito famosos e eu pensei, pro meu bem, que esperava que não. ”

limp1

“Eu posso entender, se você for muito jovem e não tiver uma banda que tenha lhe introduzido à música e você ouvir ao Limp Bizkit – daí isso faz sentido”, diz Conrad, mas o fato permanece que o nü-metal “abafou tudo. O Ozzfest era a maior turnê de todas, para onde todo mundo olhava. E estava abarrotada de nü-metal. ”

O jornalista da revista Decibel Kevin Stewart-Panko lembra de quando o Coal Chamber tocou no Canadá aquele ano para promover seu disco com um show gratuito e com um caminhão de sorvetes dando casquinhas de graça. “Eu me lembro de bastante gente dizendo alto, “Cara, é bastante patético que esse seja o evento de metal na cidade de Toronto esse verão. ’”

Em 1997, o nü-metal havia se tornado um braço funcional da comunidade do metal. 1997 pode ser resumido como o ano de crescimento do nü-metal. Alheio a qualquer influência externa e atirando em uma direção independente. ‘Roots’ pode ter sido um sucesso para o Sepultura, mas aquele era um espécime isolado.

Mas essas entrevistas, esse artigo, uma visão histórica do nü-metal sob todos os prismas não seriam necessários se não fosse pelo pior ano na música extrema desde que ela surgira.

HEAVY METAL, 1970-1998

“O fim dos anos 90 foi um dos períodos musicais mais improdutivos da minha vida”, diz Gehret. “Como fã de metal, para mim, tudo que poderia dar errado, deu. ”

Poucos poderiam olhar para o que ocorreu em 1998 e não o classifica como o ano que marcou o óbito do metal. Mas por onde começar?

limp-bizkit-005-01

Eis alguns exemplos do domínio do nü-metal:

_ “Faith”, do Limp Bizkit, se torna um sucesso arrebatador

_ O Limp Bizkit se junta ao Coal Chamber, Sevendust, Incubus, Snot e Ultraspank no Ozzfest

_ O System Of A Down, que também está no Ozzfest, lança seu disco de estreia

_ Kid Rock lança “Devil Without A Cause”

vanilla-ice-1_090825397483

_ Vanilla Ice lança seu terceiro álbum, “Hard To Swallow”, produzido por Ross Robinson, que traz o cantor mandando raps ao longo de um LP inteiro de riffs típicos do nü-metal

_ O Slipknot assina um contrato de sete discos com a Roadrunner por 500 mil dólares

_ A primeira turnê Family Values começa com o Korn, Limp Bizkit, Ice Cube, e depois com o Incubus {e também com o Orgy e Rammstein]

_ E o maior feito musical do gênero naquele ano: o Korn lança ‘Follow The Leader”, que estreia direto em #1 na parada da Billboard e emplaca os enormes sucessos “Got The Life” e “Freak On A Leash”

Mas mesmo que tudo isso pudesse ter sido evitado, a cena do metal estava apodrecendo de dentro para fora, e ninguém sabia de fato o que aconteceria a seguir.

“Eu nunca vou esquecer da edição da [revista] Rock Hard”, diz Slagel, “que tinha uma lápide na capa com as datas do heavy metal, e eu pensei, ‘Porra, até a Rock Hard está dizendo que pode ser que tenha tudo acabado. ’”

1998 foi o ano em que o Fear Factory colocou alguém de nome DJ Zodiac fazendo scratching em “Edgecrusher” do álbum “Obsolete”. Aquele foi o ano em que o Sepultura lançou seu primeiro disco sem Max Cavalera, ‘Against’, mostrando que sem ele, eles não tinham interesse em voltar a seu som clássico. O próprio Cavalera lançou seu disco de estreia com o Soulfly, que, quando se estabelece que ‘Roots’ era um flerte com o nü-metal, esse era um casamento de papel passado, contando até com Fred Durst na faixa ‘Bleed’.

A comunidade do metal vinha tentando juntar os cacos deixados por ‘Load’ e ‘Reload’ do Metallica, e também pelo desprovido de thrash ‘Cryptic Writings’ do Megadeth. O Anthrax estava, de acordo com Benante, preso em um redemoinho causado pelo nü-metal e passou por ‘muitas, muitas, muitas’ reuniões com sua gravadora para discutir uma mudança em seu som. O fiel ao metal “Volume 8: The Threat Is Real” foi uma cagada comercial e de crítica, ainda assim, deixando tudo na mão de apenas um dos Big 4 do thrash para vir e mostrar a todo mundo que o metal ainda estava vivo e pulsante em 1998.

Mas ao invés disso, o Slayer lançou “Diabolus In Musica”.

slayerh

“Esse foi o nosso ‘Turbo’”, disse Kerry King a respeito do disco no canal VH1, tendo como referência o disco de 1986 do Judas Priest, que substituiu o metal tradicional do antecessor ‘Defenders Of The Faith’ com sintetizadores e elementos glam em faixas constrangedoras como ‘Turbo Lover’. O Metallica ter cortado o cabelo e tocando rock pode ter parecido traição, mas não pode se dizer que eles estavam tentando se encaixar em alguma moda nova, e o trabalho anterior a tudo isso, o ‘Black Album’, já acenava para o rumo que eles seguiriam. O fato de o Slayer ter abraçado o nü-metal representava, mais do que qualquer outra coisa, que o padrão de metal tinha decaído.

Tal como Gehret diz, “Eu acho que alguns dos melhores discos, o material que é de fato o mais interessante, e feito quando uma banda está tocando apenas um pouco acima de sua habilidade. E o problema com o nü-metal é que não há nada ali q1ue seja acima da capacidade de ninguém. ”

Até o selo Relapse, que, de acordo com Conrad, era de ‘metal independente’ na época – ‘O que fazíamos era nota de rodapé na maioria das revistas de metal’ – viu o gênero dominar uma banda estabelecida. “Lançamos o último disco do Mindrot, ” ele diz. “Eles eram uma banda de Orange county, e tudo no quintal deles era nü-metal. Eles passaram de um lance gótico death metal para algo certamente nü-metal. Na época, aquilo nos chocou, mas olhando agora, eu sei que eles foram apenas vítimas de sua própria cena. ”

Conras extrapola nessa mentalidade ‘vítima de sua cena’ ao descrever o que ele vê como a vida de uma banda estabelecida durante uma dessas mudanças de maré de gêneros. “Você ouve isso 40 vezes nas coletivas de imprensa de 100 bandas diferentes”, ele diz, “as pessoas falando sobre essa grande banda nova, o Korn. Eu tenho que achar que isso vai acabar entrando na sua mente. Eu não posso falar com certeza que alguém tenha sentado e dito, ‘OK, precisamos fazer um disco de nü-metal’, mas as bandas que estão trabalhando muito duro, elas todas estão tentando fazer a mesma coisa: crescer. E quando todo mundo no topo e no meio está saturado com nü-metal, eu sinto que a coisa vai acabar sufocando tudo a menos que você bata o pé e imponha respeito. ”

“É duro estar em uma banda em um tempo como aquele e não ser pego por um movimento assim”, entende Conner. “Se uma cena estiver acontecendo, ninguém quer ficar para trás. Olhe para a moda da discothéque. Você tinha bandas lendárias gravando babas disco como o Rolling Stones e o Kiss. É meio que como ter uma amante. Você fica cansado da sua esposa e quer algo novo, mas você descarrega aquilo e acaba voltando para sua mulher. ”

kiss

E, tal como uma amante, o nü-metal prometia duas coisas que as bandas de metal estavam vendo desaparecer: fãs e vendas de discos.

“Quando Roots saiu, os festivais eram incríveis”, diz Cavalera. “Tínhamos umas cem mil pessoas pulando para cima e para baixo. Era de outro mundo. ” E ele tem um enorme orgulho do quão bem o disco de estreia do Soulfly vendeu, dizendo que foi seu primeiro disco na época a chegar a disco de ouro nos EUA. O Slayer e o Mindrot e Vanilla Ice podem ter dado com os burros n’água, mas o nü-metal simbolizava oportunidade.

Você fica frustrado quando sua música só está disponível para pequenos grupos de pessoas baseados no tipo de música ao qual ela pertence, e isso te algema como artista”, diz Kelly Shaefer. Ele fala por experiência própria, tendo sido um membro fundador da criticamente aclamada e comercialmente ignorada banda Atheist, formada em 1984. Progressiva, pioneira e incrivelmente complexa, a banda atingiu um novo patamar de reconhecimento na última década, mas depois de seu terceiro álbum, ‘Elements’, de 1993, ter fracassado, Shaefer fundou ao Neurotica, uma banda de rock que virou nü-metal e existiu durante oito anos da moda, lançando três discos e tocando no Ozzfest de 2002. “Como músico, você quer uma oportunidade para sair e tocar para 50 mil pessoas”, ele admite. “E é aí que as pessoas querem mudar. Não necessariamente para se encaixarem, mas você quer estar na frente do maior número possível de pessoas. E quando sua música só atrai 150 pessoas, então você fica tipo, ‘Vai tomar no cu. Como é que podemos ir lá e receber mais atenção?’”

Por outro lado, os selos tradicionais de metal tinham encontrado razões concretas para lançar álbuns de nü-metal junto com empreitadas mais underground.

“Foi uma síndrome de adapte-se ou morra”, diz Gehret a respeito de sua época na Century Media, um selo cujo disco de maior vendagem por vários anos fora ‘Rising’ [1988] do Stuck Mojo, um compêndio de rap metal que vendeu mais de três milhões de cópias. “Há uma engrenagem rolando, e você precisa seguir passando graxa nela. Eu acho que quando um selo chega a 10 empregados, você tem que começar a fazer concessões. Você quer continuar a fazer o que você ama fazer, mas você precisa pagar a conta de energia. Sendo assim, concentre-se em bandas que possam te levar para o futuro, mas ainda com os objetivos que você tinha em mente no começo. ”

Se a popularidade de ‘Rising’ permitiu que a Century Media lançasse a ‘Whisper Supremacy’, do Cryptopsy no mesmo ano, ceder assim parece justificável. Em 1998, o nü-metal vendia muito, e em uma cena que ralava para se manter, ele tornara-se um mal necessário.

Mas esse mal logo se tornaria bem menos necessário.

ESTÀ TUDO FUDIDO, TODO MUNDO É UMA MERDA

“Significant Other” vendeu demais. Muito mesmo. Em 1999, o segundo disco do Limp Bizkit faria deles superastros internacionais, vendendo mais do que “Follow The Leader”, principalmente graças à apresentação da banda no festival de Woodstock com aquela que pode ser chamada de a maior faixa da história do nü-metal: “Break Stuff”. O show de Kid Rock em Woodstock, chegando de casaco de pele na frente de 200 mil pessoas para mandar ‘Bawitdaba’, foi o outro lado da moeda, trazendo o nü-metal para a CNN e gerando discussões no New York Times.

kid

Mas tudo isso, quando visto hoje em dia, foi bom para o metal. É exatamente o que todo mundo precisava.

“Havia uma falta de senso de comunidade, uma falta de camaradagem”, diz Conrad, apontando para uma coisa da qual um gênero precisa para sobreviver. “Como gênero, as pessoas não se identificaram com o nü-metal do modo que elas achavam, ‘Isso fala diretamente a mim, isso sou eu, isso é como serei para sempre’”. E uma vez que as bandas como o Limp Bizkit e Kid Rock ficaram finalmente fortes para se desvencilharem da comunidade que os inspirara a princípio, as rodas do nü-metal começaram a descarrilhar. Ele virou música para atletas, para os valentões da escola que chamam os outros de bichonas. “Issues”, do Korn, uma tentativa de direcionar o gênero novamente para o metal, provou ser o começo do declínio de suas vendas e a ponte entre dois mundos se evaporando.

Outro exemplo é o terceiro disco do Machine Head, “The Burning Red”, outro disco com Ross Robinson no comando que mostrava como o gênero havia virado uma paródia de si mesmo. Ao mesmo tempo em que ele vendeu bem, a transformação do frontman Robb Flynn, tanto vocalmente como visualmente, foi radical demais para se levar a sério. Seu cabelo espetado, macacões espalhafatosos e o lance do rap em uma rave não era Roots ou Diabolus In Musica, mas a escancarada rendição de uma banda a uma moda do mainstream.

Machine+Head

 

mh-fromthisday

A explosão do Slipknot, começando em 1999, é amplamente irrelevante para o movimento como um todo. O grupo de Iowa tem simplesmente conseguido criar uma aura de culto em torno de si; aquele elo de ligação que o nü-metal não conseguiu sustentar. Atar o sucesso do Slipknot com qualquer moda musical é como tentar associar o sucesso do Insane Clown Posse ao status do hip-hop.

Além desses dois, os representantes do segundo e do terceiro escalão lotaram 1999. Havia o Kittie e oi Static-X, e o Ozzfest estava vendo o poço secar, colocando bandas desconhecidas como Shuvel e Flashpoint no palco. O ano acabou com a estreia em dezembro do Methods of Mayhem [projeto de rap metal do baterista do Mötley Crüe, Tommy Lee]. Não só o primeiro single, ‘Get Naked’ [claro, com participação de Fred Durst] fazia com que o disco de Vanilla Ice parecesse autêntico, mas representava também o fim de um milênio – um ex-ícone do glam metal agora embarcando em outra moda que logo estaria condenada.

Tommymayhem

OLHE PARA O CAVALO AMARELO, E O NOME DE QUEM SENTOU NELE ERA MORTE

deftones__the_white_pony_by_ink2paper916-d42sjp0

Se um disco matou o nü-metal, foi “White Pony”, lançado pelo Deftones em junho de 2000. Era um completo desligamento do som que eles haviam sido co-pioneiros, o disco fora visto por muitos como um sinal de que estava na hora de seguir em frente, ou pelo menos desconectar o nü-metal de seu irmão mais velho. ‘Hybrid Theory’, o megassucesso comercial do Linkin Park falou alto com o público do hard rock em seus momentos mais pesados, assim como o bem-sucedido e ainda enervantemente intitulado ‘Chocolate Starfish And The Hot Dog Flavored Water’, do Limp Bizkit [não ajudou muito a obter crédito com a tacanha comunidade do metal quando Durst fez um dueto com Christina Aguilera no VMA]. Ainda assim o Ozzfest, acima de qualquer outra coisa, foi a melhor ilustração do quão irrelevante o gênero havia se tornado: Apartment 25, Primer 55, Deadlights e Slaves On Dope eram algumas das bandas de nü-metal que a turnê tentara promover – e falhado completamente na empreitada.

 

“Quando pessoas suficientes pulam em um trem, o trem começa a desacelerar”, diz Shaefer. “E gente demais pulou nesse trem, e ele acabou parando. ”

Stewart-Panko descreve a coisa de modo mais cínico. “Uma ou duas bandas criam um novo som, ficam famosas, e algumas outras centenas de pretendentes chegam junto e limpam a carteira de todo mundo, assim como a paciência do povo com sua merda abaixo da crítica. E considerando a merda que a maioria do nü-metal é/era pra começo de conversa, isso é uma merda bastante abaixo da crítica. ”

A decisão do Fear Factory de carregar a mão no nü-metal, incluindo o vocalista B-Real do Cypress Hill, é o que levou a banda a começar a se desmanchar. “Quando estávamos trabalhando em cima de Digimortal em 2000”, diz Cazares, “a gravadora estava nos forçando a escrever mais material pras rádios, e os membros da banda queriam coisas mais na pegada do hip-hop. E isso foi o que me levou a ser chutado da banda. Minha opinião era, essa moda está morrendo. ”

Mesmo com veteranos lutando para retificar suas relações com o nü-metal, toda uma nova leva de jovens indo do zero para o estrelato nunca constitui uma cena artisticamente rica. Tal como Gehret diz, “Quem diabos é você, e por que você se sente capaz de fazer isso? Mesmo se Robb Flynn tenha se vestido de palhaço, pelo menos ele ralou por cinco anos antes disso. ”

E apesar de ele ter ajudado a contribuir para muitos de momentos determinantes da cena, Robinson vê claramente como as coisas começaram a cair. “Havia dinheiro demais em todo canto”, ele diz. “Os empresários que deveriam estar tomando conta de Paula Abdul estão com o Slipknot. Caras andando pelo estúdio com pilhas de dinheiro para gastar em qualquer coisa que eles quiserem. Então onde é que fica a gana? O metal extremo gira em torno de descarregar raiva, então se ficar tudo um mar de rosas e você começar a pensar em como vai manter suas riquezas ao invés de ‘eu preciso comer’, é uma enorme diferença. ”

Olhando agora para o começo do nü-metal, Robinson tem até uma anedota sobre como tudo se resolveu.

“Eu lembro dos ensaios do segundo disco do Korn, e Gene Hoglan [Death, Testament, Strapping Young Lad] estava no estúdio ao lado, ensaiando totalmente sozinho, sem nenhuma banda, apenas praticando no bumbo duplo. E estávamos vindo de um disco de estreia que tinha chegado a Platina, e era um saco ouvir aquilo. Era um tipo de reflexo daquele mundo, que estava em hibernação. Mas o cara não parou, e está muito bem agora. ”

O TEMPO É UM CÍRCULO CHATO

“Eu lembro de um suspiro coletivo de alívio quando as pessoas começaram a se cansar daquilo”, diz Conner. “As pessoas começaram a procurar por algo novo mais uma vez, e algo veio, na forma do Killswitch Engage, Shadows Fall. Essa foi a cena que veio depois e era vista como algo mais autêntico e mais tradicional do que o nü-metal. ”

O que pode ser chamado de New Wave of American Heavy Metal é praticamente tudo que não seja nü-metal: quase todas as bandas que tenham construído uma base de fãs e possam ser consideradas como ‘pesadas’ são bem-vindas à barraca. O que isso diz de fato é que, enquanto bandas como o Killswitch Engage, Lamb Of God, Unearth e seja lá quem mais tenha chegado a níveis de popularidade que lotem casas grandes e possam ser considerados a linha de frente, essa onda foi apenas uma volta ao meio. A onipresença cada vez maior da internet permitiu uma educação musical muito maior, e os computadores estavam se adaptando à demanda pelo compartilhamento de arquivos quando o Napster morreu. Em outras palavras, o metal era ‘cool’ de novo.

Os últimos dois anos do nü-metal exibiram os mesmos espasmos agonizantes de qualquer moda corporativa: o Korn lançou seu disco ‘Untouchables’ em 2002 tentando ganhar ar com o single “Here To Stay”, vendendo um terço das cópias que conseguiram comercializar com “Follow The Leader”. O Ozzfest começou a misturar bandadas da NWOAHM junto com o povo do nü-metal, com o Killswitch tendo claramente mais poder de permanência do que Unloco, Endo, Twisted Method, Motorgrater e Depswa.

ozzfest2002uktkt

Então, em 2003, alguns meses depois de aquela plateia ter escorraçado Fred Durst em um show em Chicago, o Limp Bizkit lançou ‘Results May Vary’, um álbum quase que universalmente praguejado que vendeu 7.5 milhões de cópias a menos do que seu antecessor, que saíra apenas 3 anos antes. E tal como Durst canta na última faixa do disco, ‘Drown’, “Disaster takes its toll/and now I’m left with only me. ”

NÜ-NÜ-METAL

“O nü-metal saiu de cena totalmente? ”

Farara, que estava em turnê com um Coal Chamber reformado quando nos falamos, promovendo o primeiro disco da banda em 13 anos, acredita piamente que o gênero não só sobreviveu com as bandas que conseguiram superar o desaparecimento da cena, mas é uma influência integral em bandas como suicide Silence, Emmure e Five Finger Death Punch. “Algumas das bandas maios jovens que apontam o dedo para aquele movimento, eu adoraria mostrar a elas como as bandas que elas gostam são influenciadas pelo nü-metal. ”

Outros são mais céticos. Conrad vê aquilo como um momento no tempo e nada mais.

“Eu não vejo nenhuma dessas bandas pegando esses discos que fizeram e que tinham enorme influência do nü-metal e dizendo, ‘Eu tenho muito orgulho desse disco’, ele diz. “E eu só acho que simplesmente aconteceu e as pessoas ou acharam seu rumo e aprumaram o barco ou o afundaram. ”

“Eu acho que o tempo curará isso”, diz Robinson. “Mas para alguém como um cara do black metal decidir tocar aquilo, eu não acho que chegará a esse nível. E eu não sei se voltará àquela coisa suja e faminta. ”

Whalen tem a opinião mais impiedosa a respe4ito de uma possível ressurgência do nü-metal. “Só se for do mesmo modo que o glam de LA voltou: um cadáver reanimado com nostalgia e turnês de várias bandas em conjunto. Pau no cu disso. ”

Pode-se dizer que o nü-metal vive em bandas mais explícitas como o Issues, com seu DJ e momentos de rap, mas até ouvir meia faixa trai as bandas genéricas de screamo determinadas a se encaixar em tantos gêneros quanto possível. O Issues pode beber na fonte do nü-metal, mas a música deles não é estruturada em sua inclusão à salada – o grosso da produção deles ainda cai no atual paradigma de paradinhas, refrões emo e elementos de Techno. Essas não são bandas que se apoiam no gênero, e elas com certeza não vão trazer de volta nenhum elemento da cultura do nü-metal. Elas estão felizes em jogar um trecho de rap em uma música, mas ainda escolhem se vestir como galãzinhos hardcore. Até as modas mais ridículas de hoje estão correndo de roupas da Adidas e de calçonas jeans largas como o diabo corre da cruz.

Mas se isso ainda existe ou não ou se voltará a existir, não temos poder para fazer nada quanto a isso – tal como em 1994, quando não estávamos prontos praquilo tudo.

ENCÔMIO

Annex-Welles-Orson-Citizen-Kane_03

“_ O que você tem feito esse tempo todo?

_ Brincado com um quebra-cabeças. “

 “Cidadão Kane”, filme de 1941.

“Todo mundo tem sua vez, e o nü-metal teve a sua. ”

Phil Anselmo teve um álbum em número 1 das paradas em 1994, no mesmo ano em que o disco de estreia do Korn fora lançado. ‘Far Beyond Driven’, do Pantera, foi o primeiro disco de metal extremo a alcançar tal patamar de popularidade, e, talvez em um mundo mais perfeito, isso teria aberto as portas para que outras bandas extremas tivessem privilégios semelhantes. Eyehategod, Crowbar – as bandas divulgadas em camisetas no vídeo de “I’m Broken” – desfrutaram do status de relevantes, mas obviamente nunca se tornaram um Korn ou um Limp Bizkit ou um Coal Chamber. Ainda assim, mais de 20 anos depois, o matador de modas parece bem mais imparcial em relação às bandas que ameaçaram o tipo de música que ele tanto ama. “Eu não posso realmente condenar qualquer banda por suas escolhas ou pela direção que elas seguiram. Eu sei disso por mim, eu escolhi meu lado faz muito tempo. ”

pantera_im_broken_thumb

Enquanto o Pantera claramente tinha aversão com o estado da cena musical, Anselmo lembra de tudo de modo diferente, ou tem outra perspectiva proporcionada pela passagem do tempo. “Nos anos 90, estar no ramo do heavy metal, com todas as formas e estilos, a modinha do dia, só o que eu podia fazer era ser eu mesmo. Talvez eu tenha tentado desesperadamente ignorar as coisas. Pra mim, era uma época de se esquivar das roubadas. Mas sempre é. Está acontecendo agora mesmo, vai acontecer de novo, e é assim que a porra da bola quica. ”

E ele fica feliz em apontar para o que ele vê como hipocrisia da parte daqueles de nós que acham lindo menosprezar o nü-metal como uma música feita por preguiçosos ou uma moda. “O nü-metal não era a forma mais bonita ou pura de música do mundo para muita gente, mas eu posso olhar de hoje e apontar para uma centena de bandas diferentes que querem ser Black Sabbath ou cem bandas diferentes que querem ser Sodom, e elas são reverenciadas, apesar de essas músicas terem sido escritas uma porra de uns 40 anos atrás. ”

Anselmo admite que uma vez ele perguntou a Kerry King por que é que o Slayer não toca mais partes como as de ‘Hell Awaits’ e king respondeu, ‘Ah, aquilo é chato. ’

Quando bandas falam de crescer, amadurecer, tentar algo novo, elas geralmente tomam pedrada. E geralmente, tal como vimos aqui, com justiça – geralmente é uma péssima ideia. Mas talvez, acima de tudo, o nü-metal tenha sido um daqueles deslocamentos tectônicos onde as bandas, tanto antigas como novas, tiveram que ser sacrificadas para seguirem em frente. Do mesmo modo que um enorme desastre ou envenenamento em massa acaba salvando uma população. Uma queimada semicontrolada para salvar uma floresta. Reciclar o que sabemos de fato que é bom e está além das modas pode ser aceitável, e até louvado, mas também é incrivelmente seguro.

Nos anos 70 e 80, o metal extremo parecia maligno demais, pesado demais para pessoas comuns. Não tinha como ele se tornar popular. E quando ele começou a ficar popular, quando o Metallica perdeu aquele Grammy para o Jethro Tull e virou parte da conversa, daí chegara a hora do contraste.

Ele precisava de algo para lutar contra: o nü-metal era o vilão perfeito, uma entidade de tudo que era arrogante e rico e perfeito. Foi o que fez a comunidade se unir de novo após uma longa batalha, ferida e ensanguentada, sentindo-se mais forte e pronta para seguir seu rumo.

Ou talvez a resposta seja um pouco mais simples.

slagelking

“Eu estava no Hard Rock Café em Tampa”, diz Brian Slagel. “E eles tinham essa guitarra na parede e diziam que era de Kerry King. Não parecia nem um pouco com uma de suas guitarras, tinha várias cores diferentes, e era muito estranha. Eu tirei uma foto e mandei por mensagem para ele e disse, ‘Essa é mesmo uma guitarra sua? Que porra é essa? ’”

E ele respondeu: “Os anos 90 foram estranhos. ”

Numetal1

 

Baseado em texto de Shane Meling para a edição de outubro de 2015 da revista especializada DECIBEL e disponibilizado gratuitamente pela própria na web.

PARA ADQUIRIR A EDIÇÃO ORIGINAL DA REVISTA IMPRESSA, VISITE AQUI O SITE OFICIAL DA DECIBEL MAGAZINE

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: