Guns N’ Roses: ano a ano, como se deu o lobby para a volta de Slash

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O marco que ocorrerá na noite de amanhã, 5 de janeiro, quando o vocalista W. AXL ROSE for entrevistado pelo apresentador estadunidense JIMMY KIMMEL e confirmar o que o público em geral já sabe há algumas semanas – que o triunvirato de membros remanescentes da última encarnação clássica do GUNS N’ ROSES [Rose, DUFF MCKAGAN e SLASH] voltará a trabalhar juntos – é tão somente um capítulo a mais em uma longa sequência de fatos que começaram a se amontoar desde a virada do século.

O que segue agora é um compêndio, não necessariamente cronológico, que lista diversas – todavia nem todas – etapas de uma das reconciliações mais improváveis, ainda que mais visadas, da história da música desde que Wolfgang Mozart e Antonio Salieri habitavam o planeta.

Começamos após a saída do último integrante da tríade, Duff, em 1997. A partir dali, cada um dos três músicos esteve absorto em realidades completamente paralelas, sobre as quais muito se especulava e nem tudo se sabia. McKagan reformou o 10-Minute Warning, montou o LOADED [em tese, ativo até hoje] e gravou um disco solo, ‘Beautiful Disease’.

Slash, por sua vez, seguia bastante comprometido por seu vício em álcool e drogas e tendo dificuldades para manter uma formação sólida e dedicada ao seu projeto SLASH’S SNAKEPIT, que apesar de um álbum bastante forte em 2000, ‘Ain’t Life Grand’, amparado por uma turnê enorme pelos EUA abrindo para o AC/DC, não conseguiu emplacar. Rose, por sua vez, realizara sua primeira comunicação com o público em 1999 [ano em que os principais nomes do hard rock dos anos 80 voltaram ao foco do público dos Estados Unidos e do mundo como um todo], quando sua versão do Guns N’ Roses colaborou com uma faixa, ‘Oh My God’, para a trilha sonora de ‘Fim dos Dias’, filme estrelado por Arnold Schwarzenegger que fracassou nas bilheterias. Junto com ‘Oh My God’, a banda lançava seu primeiro álbum ao vivo full length, ‘Live Era ´87 – ‘93’; tudo isso fora acompanhado por uma entrevista via telefone de Axl para o então figurão da MTV EUA, KURT LODER, jornalista que sempre gizara de enorme prestígio junto ao grupo desde os anos 80.

Naquela entrevista, Rose anunciava que um novo álbum da marca seria lançado já em 2000. Outra entrevista, publicada na revista Rolling Stone estadunidense em janeiro de 2000, entrava em detalhes sobre o estilo de vida recluso naipe Howard Hughes de Rose, e dava como certo seu ressurgimento gradual dali para frente.

2000 veio, e nenhum álbum foi lançado, mas no dia 25 de outubro, o empresário brasileiro ROBERTO MEDINA anuncia que o Guns N’ Roses faria sua reestreia na terceira edição do Rock In Rio, em janeiro de 2001. Começava ali um pesadelo felliniano para os fãs mais hardcore da banda: eles teriam mesmo que presenciar Axl Rose cometer o acinte, a ousadia de se apresentar como GN’R sem Slash?

Teriam.

E mais: Axl retornaria à ribalta com um show na noite de réveillon no The Joint, em Las Vegas.

Axl, acompanhado por BUCKETHEAD, PAUL HUGE, ROBIN FINCK, DIZZY REED, TOMMY STINSON, CHRIS PITMAN e BRYAN MANTIA, repassa o catálogo da banda – em especial o material de ‘Appetite For Destruction’ – e estreia um punhado de músicas novas, que acabariam por integrar um álbum que ainda levaria oito anos para ser lançado [assim como já faz oito anos que ele foi lançado, sem nenhum sucessor]. Engrenagens rodando, o grupo embarcou para o Rio de Janeiro.

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No dia 14 de janeiro de 2001, após ter sido convencido por sua equipe e uma terapeuta a subir no palco [ele, aos berros, quis cancelar a apresentação], Axl Rose faz, para quase 200 mil pessoas, o que ele descreveria horas depois a nosso amigo EDU ROX entre uma Heineken e outra, como ‘o melhor show de sua vida’. Em meio a um set list bastante longo, o vocalista foi enfático ao apontar que os demais ex-integrantes das lineup clássica não estavam ali ‘porque fizeram de tudo para não estar’, e em vários momentos do show, procurou mostrar seu apreço a todos os membros da banda e da equipe que haviam se mantido leais a ele durante o hiato do GN’R dos holofotes.

É esse senso de gratidão de Axl para com os músicos que o acompanharam em sua visão musical, sua rotina pouco convencional, seus desmandos e temperamento volátil que determinou a permanência de FRANK FERRER à bateria na versão 2016 da banda e a demora para a volta de Duff McKagan ao baixo. Voltaremos a isso em breve.

A banda se recolheu aos EUA de novo, supostamente para acelerar os trabalhos em cima do novo álbum e só foi vista novamente em dezembro daquele ano, quando fez duas apresentações [incluindo outra numa noite de réveillon] em Las Vegas. Dicotomicamente, 31 de dezembro de 2001 marca um recomeço da concepção artística de W. Axl Rose para o GN’R do mesmo modo que é a data na qual o reagrupamento de Slash e Duff com o vocalista começa a ser traçado.

Desde aquele dia, várias versões de que o guitarrista inglês havia sido visto nas imediações do Hard Rock Hotel pipocaram pela web, algumas chegando a afirmar que ele teria tentado entrar no show e fora impedido por seguranças a pedido de Rose. Tudo ficou no terreno do converse até que o próprio Slash, em sua autobiografia, lançada em 2007, ofereceu seu relato. Segundo ele, de fato sua presença até em áreas alheias ao show teria sido proibida via alerta presencial de seguranças que bateram em sua porta. Resignado, ele concordou.  Ainda que afirme que estava ali por ‘curiosidade’, desde sua família até seu empresário sabiam que ele estava ali para tentar ao menos conversar com o antigo colega de banda.

Em 2002, ainda sem data prevista para lançar um novo álbum, o Guns N’ Roses faz uma pífia apresentação no VMA, volta à estrada, e após uma bem-sucedida turnê pela Ásia e Reino Unido, naufraga no mercado dos EUA, a ponto de a produtora cancelar todo o restante do tour após 17 shows. Enquanto isso, Slash, Duff, o baterista MATT SORUM e o guitarrista IZZY STRADLIN se encontram após Slash, Duff e Matt terem tocado com o vocalista do BUCKCHERRY, JOSH TODD, em um show-tributo ao finado baterista de OZZY OSBOURNE e MÖTLEY CRÜE, RANDY CASTILLO.

Prevenido contra-ataques de estrelismo por parte de vocalistas, Izzy sugere que ele, Slash, Duff e Matt montem uma nova banda e saiam logo em turnê com ele e McKagan dividindo os vocais. A ideia vai pelo ralo quando Izzy se entoca novamente, mas 50% da formação que gravou ‘Use Your Illusion’ está junta novamente, e decide procurar por um vocalista, que acaba sendo o agora falecido SCOTT WEILAND [ex-STONE TEMPLE PILOTS]. A empreitada – que acabaria sendo batizada de VELVET REVOLVER – agrega ainda um outro guitarrista, DAVE KUSHNER, e faz sua estreia ao vivo e em EP em 2003.

Do Guns N’ Roses de Axl, só se ouve quando o jogador profissional de beisebol Mike Piazza vai até o programa radiofônico de EDDIE TRUNK e o entrega um CD – o qual Trunk toca no ar – com a faixa ‘IRS’, até então inédita. O grupo não se apresenta ao vivo durante todo o ano.

Em 2004, o Velvet Revolver e o GN’R voltam a convergir: um ‘Greatest Hits’ do Guns N’ Roses é lançado com enorme sucesso [apesar de contrariar a Axl, que vê naquilo mais uma tentativa de a gravadora sabotar seu ‘novo’ GN’R e capitalizar em cima do material antigo], e três meses depois, ‘Contraband’, disco de estreia do Velvet Revolver, estreia em #1 nas paradas da Billboard estadunidense. É o suficiente para que o mercado volte a especular sobre a força que tudo relacionado ao GN’R ainda tem e quão promissora é uma reunião da formação clássica. Ainda assim, qualquer tentativa de reaproximação entre os dois campos é afastada após Duff e Slash processarem Axl sob a alegação de que ele teria desviado mais de um milhão de dólares referentes a pagamentos sobre direito autoral da cota dos dois. Para piorar ainda mais o já atrasado cronograma de Rose, o guitarrista Buckethead deixa a banda, fazendo com que uma apresentação no Rock In Rio Lisboa seja cancelada. É o começo de um novo hiato que perdura ao longo de 2004 e 2005, período durante o qual o Velvet Revolver se mantém em plena atividade.

Mesmo com toda essa atividade – ou talvez por causa dela mesma – começava a fissurar a camaradagem entre Scott Weiland e o restante do Velvet Revolver: um Slash embriagado tocou o interfone da mansão de Axl Rose em Latigo Canyon no meio da madrugada querendo falar com o vocalista [foi recebido por Beta Lebeis] e bradando que Weiland era uma ‘fraude’ como vocalista e que Duff ‘não tinha boca pra nada’. Tanto Axl como Slash confirmariam o episódio, que foi o estopim de uma longa desintegração da banda.

Já 2006 assiste ao reverso desse quadro: o GN’R excursiona incessantemente de maio a dezembro, enquanto o VR basicamente se mantém em estúdio. O giro mundial da banda teve início com quatro shows lotados no Hammerstein Ballroom de Nova Iorque, que contaram com a participação de Izzy Stradlin, finalmente acatando uma regra CABAL estabelecida por Axl e que perdura até hoje: quando Izzy quiser participar de um show, basta que ele apareça, com ou sem sua guitarra, e avise. Ele será não somente incluso na performance, mas também receberá um cachê de membro da banda.

É por essa regra que veremos Izzy participando ocasionalmente de sets da nova formação ao longo de 2016 e 2017.

Apesar do sucesso da turnê de Rose ao longo do ano, a relação com seus empresários da Merck Mercuriadis começa a azedar, abrindo a porta para o começo de uma série e manobras sorrateiras por parte de IRVING AZOFF para que a formação clássica do grupo se reunisse, o que acabou afetando por tabela, ao cronograma de lançamento de ‘Chinese Democracy’. Em 2007, tanto o GN’R como o Velvet Revolver voltam à estrada, com o chamado ‘supergrupo’ divulgando seu segundo CD, ‘Libertad’ – tocando inclusive no Brasil abrindo para o AEROSMITH.

No ano seguinte, a raposa entra no galinheiro: Irving Azoff e seu sócio, Andy Gould, tornam-se empresários de Rose, e dão início a uma série de devaneios visando a dissolução da versão de Axl para o Guns N’ Roses, a volta de Duff e Slash [surpresa: também clientes de Azoff e Gould!]. Azoff chega a tentar vender uma turnê conjunta com o VAN HALEN liderado por DAVID LEE ROTH e a formação original do Guns N’ Roses, uma joint venture que em tese, renderia somas muito altas, mas pouco viável na prática. Isso irritou muito a Rose, cuja lista de aborrecimentos seria aumentada quando ‘Chinese Democracy’ finalmente foi lançado no circuito comercial, e apesar de vendas consideráveis, não repercutiu do modo esperado, agrura que ele atribuiu a Azoff e seu ardil para sabotar qualquer iniciativa de Axl que não fosse no sentido de reunir-se com Slash e Duff. Tudo isso ficou muito mais claro quando o grupo sequer saiu em turnê para divulgar um álbum aguardado por mais de uma década, e a única entrevista concedida pelo vocalista foi conduzida por meio de um fórum de mensagens com os fãs. Não coincidentemente, a essa altura, Scott Weiland já deixara o VR para retornar ao STP [sem deixar saudades…] e tanto Duff como Slash parecem pouco empenhados em achar um substituto.

Em dezembro de 2009, agora com DJ ASHBA a bordo, o Guns N’ Roses uma turnê pela Ásia tocando shows de quase quatro horas. É desse mesmo um ano uma troca de e-mails entre Rose e o substituto de Buckethead, RON ‘BUMBLEFOOT’ THAL, sobre a vontade de Duff McKagan de voltar à banda. Tal correspondência, junto com vários outros documentos, vazaram ao público em 2011, em episódio noticiado por este site.

Ao longo de 2010, o GN’R de Axl Rose varre o planeta, se apresentando de JANEIRO A DEZEMBRO, passando pelo Canadá, América do Sul, América Central, Europa Oceania e Emirados Árabes. A inviabilidade de organizar uma longa turnê pelos EUA para divulgar ‘Chinese Democracy’ como ele acha que o CD merecia é causa de frustração para Rose. Foi durante um show da passagem pela banda pela Inglaterra nesta turnê que os e-mails entre ele e Duff começam a surtir efeito: o baixista sobre ao palco da O2 Arena em Londres para tocar ‘You Could Be Mine’ com o resto da banda. A essa altura, Irving Azoff já foi demitido – e processado – pelo vocalista, e até seu substituto, DOC MCGHEE, também já foi dispensado.

 

 

McKagan reestabeleceria seus laços com Axl em definitivo em 2011, quando sua banda, Loaded, abriu alguns shows do GN’R no Canadá e EUA. Em um desses shows, Duff voltou a tocar com o grupo.

Em 2012, um aparente revés: Axl, tal como Izzy, se recusa a participar da comenda do Rock And Roll Hall Of Fame ao grupo, jogando uma pá de cal na vontade que os fãs tinham de poder ver o grupo reunido ao menos por um curto set em uma ocasião tão representativa. Duff, Steven Adler, Matt e Slash comparecem, e durante a jam, MYLES KENNEDY canta.

 

 

Após um roteiro não muito diferente em 2013, 2014 vê, pela primeira vez, um membro da formação clássica excursionar efetivamente como parte do casting: Duff McKagan é escolhido para substituir a Tommy Stinson durante algumas datas de uma longa turnê pela América do Sul e também por um show de uma nova temporada em Vegas. Stinson optara por fazer alguns shows de reunião com sua banda anterior, THE REPLACEMENTS.

A ausência de Stinson, aliada a um episódio durante o qual ele destratou um membro da equipe ao fim de um show por um problema no sinal de seu baixo teriam adocicado a presença de Duff de volta na banda aos olhos de Axl. O espírito conciliador de McKagan – de longe o mais articulado membro de todos os integrantes que já passaram pelo GN’R – desde a época em que Rose e Slash começaram a agravar suas diferenças começou a entrar de fato em ação quando, ao fim daquela temporada em Vegas, ele já fora comunicado por Axl que faria parte da próxima encarnação da banda. A janela para a volta de Slash veio quando em julho de 2015, tanto DJ Ashba como Ron Thal anunciaram suas demissões em comunicados pela internet.

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Na vaga de dois dos atuais três postos de guitarrista que o GN’R oferece, faz todo o sentido que Duff fizesse lobby por Slash: Axl não teria que demitir ninguém, e ainda haveria a opção de um fã de longa data da banda, Dave Kushner, com quem Slash e Duff já trabalharam no VR e se davam bem, além do óbvio entrosamento musical.

‘E por que não trazer de volta Adler ou Matt Sorum?’, podem perguntar.

Se nem Slash, de quem Adler é amigo de infância e diretamente influenciado [foi Steven quem sugeriu que Slash aprendesse guitarra na adolescência] o quer como membro permanente de sua banda, por que motivo o GN’R tem que trazê-lo? Com certeza há algum elemento em sua reputação que impede sua reintegração. Dentre os fatores musicais, o mais óbvio: ele nunca compôs nada com a banda, e tocou em uma pequena parte da discografia do grupo.

Matt Sorum poderia ser uma opção menos arriscada, mas daí entramos no possível – e cabível – dilema moral de Axl: por que demitir a Frank Ferrer, que está trabalhando perfeitamente bem, sem crises de estrelismo, não antagonizando ninguém no grupo, conhece o repertório desde AFD até CD e trazer de volta quem provocou sua própria demissão e chegou a ameaçar Axl fisicamente durante um show na Alemanha? E possivelmente pagando o dobro de salário? Seria pouco inteligente.

Quanto a Dizzy e Pitman, sejamos pragmáticos: um tem 25 anos de banda, e o outro caminha para 2 décadas ininterruptas. Nenhum outro músico esteve na posição deles nem antes nem depois. O papel que Pitman desempenha em shows pode ser medido em importância por quem segue o GN’R de perto e prestou atenção a alguns bootlegs vazados diretamente do canal da mesa de som que faz o by-pass do monitor in-ear de Axl [há um do Japão em 2009 onde isso é explicitado]; a presença de Chris no palco, em especial para as músicas de ‘Chinese Democracy’ é fundamental – se não ele, quem programaria sequenciadores e samplers?

E por que isso só será anunciado agora? Business as usual. Lembre-se que Slash estava se divorciando, e uma vez que qualquer contrato fosse firmado – ainda que verbal – sua ex-esposa teria direito a 50% de todo e qualquer vencimento que ele ganhasse até a data da homologação do divórcio. Junte isso a todas as confabulações, DRs, concessões, planejamento, trâmite entre advogados, empresários, produtores de shows, diferentes gravadoras, agentes, fabricantes de merchandise, direitos de imagem, etc., e chegará à conclusão que a coisa até que está andando rápido.

 

 

 

3 pensamentos sobre “Guns N’ Roses: ano a ano, como se deu o lobby para a volta de Slash

  1. Parabéns pelo texto! Muito boa narrativa. O estilo Nacho de escrever fica bem melhor assim, mais polido e menos ‘Hermes e Renato’. Bem menos ruído na mensagem, bem mais agradável a leitura; tudo mais dinâmico. Quanto mais textos assim, melhor! Entendo que deve ser divertido irritar os pirigóticos do Whiplash, mas tenta focar em escrever pra galera que pensa, não pros tontos. É aí que tá seu nicho. Abraços!

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