Guns N’ Roses: Existe mesmo uma faixa ‘perdida’ de 1991 até hoje?

As pessoas falam sobre como Nova Iorque era perigosa nos anos 70, mas alguém aí se lembra de como era Los Angeles nos anos 80? Depois de se comportar para o breve triunfo dos Jogos Olímpicos de 1984, a cidade pareceu passar por um espasmo de psicose que duraria uma década: tiroteios em rodovias, o Assassino da Noite, a epidemia de crack, o L.A. Raiders, os assassinatos na família Menendez, o sombrio reinado de Daryl Gates como chefe de polícia da cidade, jovens em vermelho ou azul se matando nas quebradas. Tudo culminou no começo da década seguinte com o grande espetáculo de saques, agressões e incêndios que foi a revolta pela liberação dos agressores de Rodney King em 1992.

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Quem melhor para prover a trilha sonora a esse filme de Mad Max da vida real que duas bandas com enormes problemas próprios vindas de lados distintos da I-10? Por um tempo, ninguém retratava melhor a proibitiva cena noturna de Los Angeles do que um grupo de heavy metal da Sunset Strip e um quinteto de rappers do bairro de Compton.

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O GUNS N’ ROSES e o N.W.A. ambos surgiram das cinzas de grupos que eram bem mais glamorosos: s encarnações anteriores do Guns N’ Roses eram grupelhos de hair metal como o Hollywood Rose, o LA Guns e o Roadcrew. Andre “Dr. Dre” Young do N.W.A e Antoine “DJ Yella” Carraby vinham do electrofunk do World Class Wreckin’ Cru. Ambas as bandas cresceram a partir do núcleo de amizades de longa data. Dr. Dre e Eric “Eazy E” Wright eram amigos de infância. O vocalista do GN’R, William “Axl Rose” Bailey e o guitarrista-base Jeffrey “Izzy Stradlin” Isbell cursaram o ensino médio juntos em Lafayette, Indiana, antes de mudarem para Los Angeles, enquanto o guitarrista Saul “Slash” Hudson e o baterista Steven Adler se conheciam de uma escola de Hollywood. Ambas as agremiações tinham frontmen voláteis que estavam à margem da lei mesmo antes de serem famosos. O visionário chefe do N.W.A, Eazy E, faturou os 250 mil dólares necessários para fundar sua gravadora, a Ruthless Records, trabalhando como traficante de maconha. Axl Rose teve que dormir no sofá de amigos por um tempo porque a polícia de Los Angeles achava que ele fosse um traficante.

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Volatilidade e confronto definiam essas duas bandas, mas o N.W.A. vinha de um lugar onde o risco era maior [3 mil assassinatos relacionados a gangues entre 1980 e 1989] do que onde viviam um bando de garotos brancos farristas de calças de couro e boinas militares [um volante dos primórdios do GN’R bradava “They’re living fast and they’ll die Young! – o que teria sido mais apropriado para uma banda cujo nome completo era “Niggaz With Attitudes”]. Os sons, personalidade e visões de mundo dos dois grupos se originavam de traumas. Eazy-E e os outros membros do N.W.A. perderam amigos e familiares durante as guerras do crack dos anos 80. Fora suas criações disfuncionais de seus colegas de banda, Axl Rose tivera uma infância particularmente sombria; seu pai biológico, a quem Rose acusava de tê-lo molestado quando ele tinha 2 anos de idade, foi assassinado em 1984.

Ambos os grupos gostavam de escrutinizar outros artistas abertamente. Durante os anos em que o GN’R tocou em casas noturnas, Axl Rose dedicava o cover “Nice Boys Don’t Play Rock N’ Roll” ao Poison. O letrista do N.W.A., O’Shea “Ice Cube” Jackson dissera em uma entrevista com o jornal L.A. Weekly que os politicamente engajados rappers de NYC Public Enemy só usavam armas de plástico no palco. Tanto Rose como Eazy-E não pensavam duas vezes antes de serem desagradáveis em público. E ambos demonstravam visões inquietantemente honestas em suas letras quando falavam de morte, drogas, homossexualismo, policiais, raça e ‘bitches’.

Appetite For Destruction e Straight Outta Compton eram tão cheios de impiedade, de postura franca, que eles ofuscavam as sensibilidades pop de ambos os grupos, sendo que nenhum fazia questão de esconder que queria ser famoso e receber muito dinheiro no processo. Quando não estavam tentando ser agudos e sinistros, o N.W.A. era até bem engraçado. A voz pequena e irritante de Eazy-E soava positivamente vaudevilliana mandando versos como “I’m the type of nigga that’s built to last/If you fuck with me, I’ll put my foot in your ass. ” A diplomacia inerente de Dr. Dre fazia faixas animadoras como “Express Yourself”, com sua letra sobre camaradagem e referências ao Budismo, parecer com uma miragem no deserto logo na metade do álbum.

O mesmo se aplica ao GN’R. Quando eles não estavam falando sobre heroína em “Mr. Browntstone” ou decadência [“Welcome To The Jungle”, “Nightrain”], o grupo revelava um lado melódico e contemplativo, visto nos clássicos “Paradise City” e “Sweet Child O’ Mine”. Em ambos os discos, Slash e Dr. Dre revelariam seus toques de Midas. A guitarra de Slash podia soar como um tridente e cortar a pele, e a dupla de guitarras ao fundo da música da banda ainda trucida tímpanos com suas botas. O talento de Dre e de DJ Yella para produzir misturava batidas afiadas com samples de soul dos anos setenta [James Brown, Funkadelic, Marvin Gaye], instrumentos ao vivo, e uma sensibilidade para criar uma sonoridade ambiente que floresceria ainda mais durante a carreira solo de Dre, tanto como artista como produtor de renome.

É no mínimo esclarecedor ouvir a ambos os discos hoje em dia, e pensar, “Wow, isso era ousado para a época. ”

Lançados com um ano de lacuna entre um e outro, “Straight Outta Compton” e “Appetite For Destruction” constituem-se como complementos um do outro e falam a habitantes diferentes de uma mesma cidade e uma mesma época e ajudam a quem tem menos de 35 anos a perceber como eram os EUA pré-internet e politicamente correto.

As duas bandas virariam cinza em questão de poucos anos após seu apogeu, não sem antes colaborarem em uma faixa: reza a lenda – reforçada pela entrevista de Eazy-E em vídeo mais abaixo – que em 1991, mesmo ano em que os álbuns “Efil4zaggin” [ou “Niggaz4Life”, que, não coincidentemente tem uma faixa chamada “Appetite For Destruction] e “Use Your Illusion” foram lançados, Eazy-E e o GN’R gravaram uma música juntos.

 

“The Yellow Road Of Compton”, segundo consta do repertório de versões disseminadas muito mais por fãs de rap do que do hard rock [natural, dada a mentalidade tacanha dos fãs de rock no geral e sua aversão a colaborações com quaisquer outros gêneros] fora gravada, mas nunca lançada em razão da luta do rapper com a AIDS, à qual sucumbiria em 1995, aos 31 anos.

 

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Os familiares e a curadoria do espólio de Eazy-E nunca se pronunciou oficialmente sobre o registro, e ninguém sabe ao certo se a música de fato existe ou se será lançada um dia.

 

 

 

 

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