Streaming: Você aderiu 100% ao formato? Grande bosta, foda-se

Neill Jameson

Texto original de NEIL JAMESON para o site NOISEY VICE

Eu tenho lido, cada vez mais, ‘matérias para fazer pensar’ que abordam o tema das mídias físicas – em particular o vinil – e como as pessoas estão afirmando terem se livrado delas e usado apenas serviços de streaming. OK, se te ajuda a criar mais espaço para seu pé de tomate da herança ou livros de Bataille que você nunca leu, beleza. Mas vamos analisar essa sua lógica.  Daqui do meu canto, vou te dizer o que há de errado com essa sua generalização e como essa sua postura é tóxica para caralho para os músicos que você diz amar.

Mais recentemente foi um artigo no [site] Metalsucks sobre livrar-se de vinil [que se concentrava demais em CDs para ser um texto sobre vinil] e como os discos são mais um fetiche de colecionadores, antes de tudo. Eu tendo a concordar que a sobressaturação é um grande problema para a indústria musical, e o vinil em particular, porque as grandes gravadoras descobriram que essa merda está na moda de novo e estão enfiando tudo sobre o qual elas ainda possuem direitos em quantidades enormes. Mas eu não posso concordar quando elas basicamente tiram sarro de alguém por seu formato de preferência e suas razões pessoais para tal preferência. Opiniões são como cus, não é pro de qualquer um que vale tocar uma punheta na internet.

O autor fala sobre ainda querer dar apoio ao artista, e assim, usar serviços de streaming como o Spotify, com a afirmação exagerada de que tudo que já foi gravado no mundo está online em algum canto. Tal declaração é baseada na verdade, mas é apenas uma fração ínfima da verdade que até políticos se sentiriam culpados por usá-la. Todo mundo se lembra de “Happy”, de Pharrell Williams, certo? Aquela porra daquela música dominou tudo, e conseguiu 43 milhões de execuções apenas no Pandora. Sabe quanto isso rendeu a Williams? 3 mil dólares. Agora, considerando que virtualmente qualquer outra música que você consiga pensar tem menos consumidores do que ela, quanto dinheiro você acha que sua banda favorita está fazendo com as seis execuções que você solicitou no Spotify? Claro, os serviços de streaming tornam a vida dos fãs convenientes, e há menos culpa do que se você fosse até um site russo e baixasse o álbum deles que vazou e está anunciado em meio à pornografia amadora, mas você não está fazendo lá grande coisa para ajudar as bandas. Quanto a tudo estar disponível em algum canto, você só sustenta seu argumento se está se referindo às pessoas que postam o material em alta qualidade, o que geralmente não corre e dá lugar a versões porcas. E também há de se contar com que o link não ‘morra’ logo, já que ele pode ser tirado do ar por pedido do detentor dos direitos das músicas. Você está contando com que sua conexão – no caso de streaming não-contabilizados ou ilegais como o YouTube, etc.] não emperre na hora do refrão. Toda essa cornucópia de problemas em potencial, apesar de não ser o fim do mundo, é uma porra de uma aporrinhação. Você depende de alguém para achar e postar algo. Você tira todo seu comprometimento pessoal da história.

O Bandcamp tem um modelo legal para vocês que abraçaram o digital inteiramente e querem de fato dar apoio direto às bandas que gostam. Mas isso não é muito mencionado nesses artigos porque há sempre, implicado nas entrelinhas, o desencorajamento em pagar por qualquer coisa. Isso se chama justificar um direito que você atribuiu a si mesmo.

As bandas já se fodem demais na cena independente. De modo a seguir produzindo música para o mundo, há de se entrar em um ciclo interminável de turnês, merchandise, e trabalhar em empregos estressantes para manter a atividade financeira. Eu nunca direi que todas as bandas que existem por aí merecem seu dinheiro apenas porque elas estão se matando em nome de sua arte, em boa parte porque trabalho duro não implica em boa música ou sequer em música com a qual você se identifique. Mas eu peço sim a você que, na próxima vez que quiser contar papo que apoia uma banda ou gravadora, mas ouve streaming ou arquivos piratas, que por favor, apenas pense em calar essa boca. O metano já está matando muito a camada de ozônio sem esse esterco que sai pela sua boca fazer mais um buraco nela.

Todos nós compramos músicas em formatos diferentes por razões diferentes. Eu não vou sentar aqui e te dizer que uma coisa é superior à outra porque, felizmente, eu não tenho que viver a sua vida. Mas declarar por aí que o vinil em si é um desperdício inútil de espaço é insultante e irresponsável. Vai dizer que todo mundo que diz que prefere vinil porque o som é melhor acredita de fato nisso? Vai dizer que todo mundo que compra vinil de fato o ouve? Claro que não, mas não cabe a você castigar as pessoas porque você se sente importante por ter se livrado de sua coleção. A mesma coisa vale para ficar chocado que as pessoas ainda lancem e comprem CDs. Ter um ar besta de superioridade porque as pessoas ainda usam formatos que você já descartou é estupidez.

Livrar-se de algo em sua vida não é nenhum feito, a menos que seja do câncer ou ter removido um cadáver de 180 quilos do seu porão. Ninguém vai te cumprimentar por isso.

Sim, claro, o vinil é sim uma encheção de saco. Você tem que se levantar e tirar sua cara do laptop para virar de lado e eu entendo o quanto isso poderia realmente afetar o seu dia. Mas e quanto às gravadoras que prensam vinil e as lojas que ganham seu sustento e criam uma cultura com esse tipo de venda? O prazo de espera hoje em dia para prensar vinil passou de seis semanas para alguns meses desde que as grandes gravadoras e o Record Store Day aderiram ao movimento. Isso é bastante tempo para ter seu dinheiro preso, se você é de uma gravadora pequena, especialmente se você estiver fazendo isso pelo amor à música e não porque alguém na CNBC disse ‘o vinil voltou! ’

E quanto às lojas independentes? Você entende que, no nível mais básico, elas contribuem com a economia local através da oferta de empregos e pagamento de recursos, certo? Num nível mais profundo? Como um lugar onde as pessoas se encontram e descobrem, através de comunicação verbal, sobre novas bandas e ficam sabendo de shows? A loja independente é uma riqueza por isso, por ela ser tangível. Há uma razão pela qual 100 pessoas responderam que iriam ao seu convite para evento enviado via Facebook, mas somente 35% apareceram. É uma cultura que não se acha em um fórum ou chat. Pode até dar mais certo que o Par Perfeito para alguns de vocês, tipos mais introvertidos.

Fico feliz que você esteja simplificando sua vida. Se te faz feliz, muito bom. Toca aqui. Mas não fica aí e cuspa meias-verdades para tentar acalmar sua consciência. Isso vale para todo mundo que está com a bunda sentada com uma baita xícara de chá de crueldade para escrever algo do tipo. Eu não te desencorajo a fazê-lo, estou desencorajando-o de agir como se você ainda estivesse apoiando artistas e gravadoras, quando você não está fazendo o mínimo esforço para isso.

Ah, e pare de dizer ‘vinis’. Você parece um cretino.

 

 

 

 

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