Audiofilia: transforme seu HD externo em uma rádio WiFi de FLACs

Artigo original por Panagiotis Karavitis para o site Part Time Audiophile

Alguns meses atrás o laptop da Hewlett-Packard que me servia de media player decidiu eixar este mundo por outro melhor [a lixeira]. Foi no dia 2 de fevereiro, e naquele mesmo dia a Raspberry Foundation anunciou o novo modelo Pi 2 Model B de micro PC, com uma folha de especificações muito melhorada.

E não, eu não sabotei meu próprio laptop apenas para te ruma desculpa para comprar um RPI2.

 Voltando um pouco no tempo

O Raspberry Pi é um computador de placa única do tamanho de um cartão de crédito, cuja primeira edição fora lançada em fevereiro de 2012. Desde então, mais de 5 milhões deles foram vendidos ao redor do mundo. À medida que a tecnologia se desenvolvia, os processadores e chips de memória ficaram mais e mais baratos, então hoje em dia nos deparamos com uma plataforma de hardware bastante decente ao modesto preço de 35 dólares. A última geração inclui um processador Arm Cortez A7 9000Mhz e 16 GB de RAM, melhorando o desempenho em relação à última versão por um fator de 6. O PI2 também tem 4 portas USB 2.0, HDMI e ethernet.

Pode não parecer muito, mas acredite em mim, é mais do que suficiente para tocar arquivos de áudio em alta resolução, incluindo aí as extensões 2xDSD e DXD!

Componentes Necessários

  • Um Raspberry PI2, que pode ser encontrado nas boas casa do ramo;
  • Um cartão de memória MicroSD, um de 8GB é mais do que o suficiente. Um de Class 10 é recomendado [apesar de ele trabalhar com alguns mais lentos também]. Certifique-se de que você tenha um adaptador para o padrão SD do seu PC.
  • Uma fonte de energia [SMPS] que tenha saída de 5volts/2amps. O PI2 recebe energia através de um plugue micro USB, assim como aqueles que carregam o seu celular.
  • Um case/estojo de plástico ou metal para abrigar seu PI. Preços e tipos variam desde alguns tostões por um simples de plástico [pode até ser uma saboneteira] até seja lá o que você achar apropriado e de bom gosto para integrar o seu sistema.

É isso. O custo estimado é de apenas 75 dólares com um case de plástico e a fonte inclusa. As versões mais antigas requerem um dissipador de calor para o processador, mas o PI2 é muito mais rápido do que a versão anterior, então você não precisa de um. Mesmo que você decida comprar um, não lhe custará muito. Você pode querer comprar um adaptador de USB para WiFi, ou ater-se aos cabos de ethernet. Apesar de no meu caso o adaptador de WiFi ter funcionado corretamente, alguns usuários citam bugs com os seus, então confira quais são os com melhor reputação antes de optar por eles, e uma vez comprados, verifique se funcionam em demais dispositivos.

Sendo um típico audiófilo, eu devo admitir que eu tenho alergia a tudo que possa ser chamado de ‘fonte vagabunda de baixo custo’, então eu levei o conceito de streamer dedicado um passo além ao adicionar, além da fonte SMPS, uma alimentação linear com um transformador toroidal de 50VA, com tudo acomodado em um estojo de alumínio preto. Isso tudo ainda abaixo da marca dos 200 dólares! Não sei ao certo se a PSU linear de fato exerce alguma diferença no som, mas, como eu disse, a foto que o Wikipedia usa para ‘audiódilo típico’ é um retrato meu.

Você já notou que está faltando algo? Não tem ventoinha. Não importa o que você queira escolher como fonte de alimentação, você não ouvirá nada vindo da caixa do RPI2; ele é silencioso como um ninja. Isso é uma baita vantagem no meu conceito, já que o PC mais quieto é ainda assim barulhento quando comparado com um Raspberry sem ventoinha.

Quando você tiver tudo comprado em casa, monte o Raspberry PI 2 no estojo, leva um minuto para parafusa-lo e colocar a capa plástica no lugar, apenas por segurança. Estamos quase lá.

Já resolvemos a parte do hardware, mas ainda precisamos de um sistema operacional para usar. Você pode ter notado que quando listamos os componentes, não havia nenhum monitor ou dispositivo de entrada de dados, como um teclado ou um mouse para nosso PI. Na verdade, nosso pequeno streamer funciona muito bem no que se chama de OS ‘sem cabeça’. Não, você não tem que cortar nada; você simplesmente não precisa de um dispositivo dedicado de entrada. Isso porque todos os controles serão executados através de seu outro computador – seu laptop, celular ou tablet.

Antes disso, deixe que eu lhe conte nosso ingrediente secreto. Tal como em toda receita boa, há um ingrediente secreto: o nosso é o MUSIC PLAYER DAEMON [MPD]. O MPD não é um software de reprodução musical comum, não é como o Foobar, J-River ou Audirvana, uma vez que ele não vem com uma interface gráfica user-friendly. O .xlt foi desenhado como aplicação para servidores para reprodução de áudio em sistemas Linux e com os ajustes devidos, pode se tornar um player formidável. O quão formidável? Vou lhe dizer que os melhores aparelhos de streaming como o Aurender X100L e o Auralic Aries dependem pesadamente de MPD [pelo menos de acordo com várias discussões em fóruns da web, já que as empresas não divulgam oficialmente que software elas usam. Seria difícil cobrar certos valores quando os consumidores sabem que o software usado está disponível a custo zero].

O problema é que o montante necessário de ajustes é uma baita de uma tarefa, não são muitos os audiófilos que serão capazes de fazer com que o Daemon funcione apropriadamente. Bem, eu tenho boas novas para você: existem várias soluções do tipo plug-and-play para o Raspberry PI. Dependendo do que você escolher instalar, esses sistemas operacionais exigem mais ou menos conhecimento do usuário final e oferecem vários graus de customização. Eu estou usando atualmente os sistemas operacionais MoOde [pronuncia-se ‘múdi’] e Archphile, sendo que o primeiro é bastante intuitivo [plug & play], e o último é um pouco mais capcioso, desenhado para o usuário iniciante de Linux. Ambos são 100% grátis. Nada de compras de aplicativos ou funcionalidade limitada.

O primeiro passo é baixar um dos sistemas operacionais. Se você é novo a tudo isso, tente o MoOde, já que o Archphile será mais difícil de se entender no começo. Ambos os arquivos são zipados, mas ainda assim, bem grandes, e eu sugiro que você use um aplicativo de gerenciamento de downloads para acelerar o tempo de espera. Quando você terminar, unzipe o conteúdo, e você verá um arquivo .img.

Baixe o Win32diskImager para o Windows ou ao Piwriter para Mac, execute o programa e selecione o arquivo .img que você acabou de ripar. Como destino de saída, escolha o cartão micro SD. Certifique-se de que o cartão esteja vazio e de que nada precioso esteja armazenado dentro dele, porque, uma vez que você criar seu OS bootable, tudo será perdido. Clique em ‘write’ e você terá seu sistema operacional montado no micro SD, pronto para usar.

Agora insira o SD no slot do Raspberry, conecte o cabo de ethernet, seu DAC via USB e ligue tudo na rede elétrica. O procedimento até esse ponto é idêntico, não importa qual sistema operacional você possa escolher.

O MoOde [antes conhecido como TCMODS] é baseado no Debian [um sistema bastante conhecido de distribuição do Linux] e usa uma versão customizada da interface originalmente criada pelos autores do Rune Audio. O mais importante é o menu, que possibilita que você mude as preferências sem digitar nenhuma sequência de código. É tão simples quanto ajustar seu software favorito no Windows ou no Mac. Você pode escolher qual DAC quer usar, o tamanho do buffer durante o playback, suporte a DSD, e por aí vai, e daí conectar um HD ou até mesmo seu NAS e atualizar seu acervo. Só isso. A operação, tal como em todas as soluções Linux, não requer drivers; até agora, eu testei vários DACs bastante conhecidos, incluindo modelos da MARANTZ, PIONEER, AUNE, Ifi, ROCKNA, LH LABS, assim como alguns receivers de menos renome, tudo sem notar um único defeito.

O Archphile, por outro lado, é uma solução para aqueles que já sabem de algumas das coisas mencionadas no artigo ou terão que estudar um pouco. O código por trás desse OS é baseado em Arch Linux, é executado junto com a menos footprint de CPU imaginável [1% de uso da CPU em média! ] e no momento é o único MPD-OS que oferece playback de arquivos de extensão .ISO oriundos de rips de SACDS. De modo a instalá-lo, você terá que usar um cliente SSH como o PuTTY para o Windows ou o aplicativo ‘terminal’ para o Mac OS.

Com o Raspberry alimentado e conectado via ethernet em sua rede local, você simplesmente insere o IP da RPi no cliente SSH que mencionamos, faz o log in como usuário root [a senha é archphile] e você agora pode mudar as configurações. Primeiro, você pode escolher o dispositivo de destino, e então você pode acrescentar uma série de opções de suporte a tipos de arquivo para o MPD, customizar vários aspectos de playback, e por aí vai.

Ambos os sistemas operacionais trabalham com UPNP, Airplay, web rádios e DACs I2S que se conectam diretamente à placa do RPI2, como o Hifiberry e o IGaudio. Eu conduzi várias sessões de audição com o Hifiberry + e devo admitir que, apesar de não ser o máximo em reprodução fonográfica, ele com certeza coloca um sorriso no seu rosto quando se leva em consideração o custo, apenas 30 euros!

Seria fora de propósito que esse artigo para iniciantes entrasse em detalhes, já que ambos os sistemas operacionais recebem um enorme serviço de apoio por parte de seus respectivos criadores, Michael, também conhecido como ‘Tux’ no fórum dedicado ‘Archphile’ e Tim Curtis no Audiokarma e no DIYAudio. Para o mais elaborado Archphile, Michael tem uma seção muito bem escrita, a Tips & Tricks, que eu mesmo achei bem útil.

Controlando o Daemon

Como eu já mencionei antes, o que você tem em suas mãos é um minicomputador ‘burro’, como se dizia antigamente; no nosso caso, construído para uma única proposta, que é o stream de músicas. Mas e como você controla a máquina? Na verdade, há uma vasta gama de opções desde que você tenha seu RPI2 conectado à sua rede.

Seu computador principal serve. É bem simples, na verdade; você pode usar o programa de acesso à web embutido em cada sistema operacional ou um programa separado. No navegador [Firefox, Chrome, IE, Opera, etc.], digite http://archphille para o Archphile e http://moode para o MoOde e a interface do usuário irá aparecer automaticamente [usuários de Windows devem instalar ao Bonjour, que é default do Mac]. Você também pode digitar diretamente em seu navegador o IP designado pelo roteador para seu Raspberry [por exemplo, 192.168.1.X]. Isso abrirá a interface de usuário da qual você poderá navegar por sua coleção de arquivos, criar uma playlist, pausar, pular músicas, e tudo mais que há a se fazer.  Há vários aplicativos individuais que também funcionam, eu uso o GMPC no Windows, que, apesar de ser bem feio, funciona muito bem mesmo com coleções enormes como as minhas. Ele lhe dará algumas funções adicionais, caso você as queira, como as letras e a biografia do artista. A lista de clientes é bastante longa.

Para aqueles que não querem usar seus computadores, qualquer smartphone serve muito bem. O app para web no navegador dos celulares também funciona, mas alguns aplicativos são ainda melhores. O Mupeace é o melhor dentre minhas preferências para Android, mas nada chega nem perto da experiência propiciada pelo Mpod/Mpad, disponível para iPhone [de graça] e para iPad [US$ 2.99]. Isso está muito próximo [talvez perto demais] da experiência do Aurender, que é provavelmente a interface comercialmente disponível de maior qualidade. Olhe para a foto da tela, você repara em alguma semelhança?

O Som de um Daemon

Assim como em toda receita, tudo gira em torno de uma questão, no sabor final, e no nosso caso, o som final.

Essa é uma situação bastante controversa porque, em teoria, bits e bits e todos os players afirmam que reproduções bem-feitas soam todas iguais. Infelizmente, estamos no território ‘audiófilo’ e nem tudo é igual. O Raspberry PI2 – MPD soa diferente de tudo. Na verdade, não soa igual a nada.

Isso porque ele se destaca como o player mais transparente que eu já usei. Ele não acrescenta nada e remove quase a mesma coisa. Você é familiarizado com o jargão de audiófilo, ‘caiu um véu’? É isso. A primeira vez que eu ouvi essa combinação, eu achei que estava ouvindo a outro DAC. Esse ‘milagre’ se manifestará com todos os tipos de música, mas é mais fácil de se perceber especialmente com instrumentos acústicos, vozes e grandes orquestras.

Você não tem que acreditar em minha palavra quanto a isso. Na verdade, eu tinha sérias dúvidas sobre as diferenças entre software para reprodução musical. Mas a evidência estava toda ali. O Foobar soava diferente do Jriver. O Audirvana também era diferente. Eu não estou querendo dizer que um é melhor do que o outro, apenas afirmando que cada um parece fazer a mesma coisa de um jeito diferente. Eu duvido que haja diferenças mensuráveis, mas eu8 ainda prefiro o som do meu streamer RPI2-MPD. Então deixe que eu lhe pergunte algo. Quanto é que você gastou em aparelhos de áudio ao longo dos anos? Gaste US$ 75 em um streamer como o descrito aqui e me diga o que você acha.

Se seguir esse pequeno guia ou enroscar quatro parafusos parece demais para você, e você pode gastar alguns milhares de dólares com seu player, então eu sugiro que você compre algo da Auralic Aries ou um dos modelos Aurender. Eles vêm em gabinetes lindos, tem suporte completo automatizado com atualizações do firmware e resolvem várias questões que possam surgir no futuro sem que você tenha que levantar um dedo. Em termos de hardware, eles são muito similares, mas não idênticos, já que eles vêm equipados com relógios de jitter para a conexão I2S, telas de LCD, saídas adicionais dependendo do modelo e uma qualidade de construção no geral que faz meu pequeno PI parecer que foi feito por…. bem, por mim.

Tendo dito isso, eu nunca ganhei tanto em com um investimento tão baixo.

Minha recomendação é que você sente no seu sofá, pegue seu tablete, e vasculhe suas pastas e aproveite.

NOTA:

Desde a confecção deste artigo o MoOde atualizou o GUI com a playlist agora incorporada na janela de playback para proporcionar uma experiência mais intuitiva e fácil.

 

 

 

 

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