O rock morreu? Ainda não, mas deveria – para poder ressucitar

Alanniven

Na última semana, dois grandes nomes da indústria previram um futuro pálido para o rock. O ex-empresário do Guns N’ Roses e do Great White, ALAN NIVEN, acha que ambos estão errados, e que o rock prevalecerá. Eis porquê.

[…]

Escolha uma das declarações:

“O Metal ficou grisalho, careca e gordo. E o Metal tinha perigo. Quando você ia a um show de Metal, eram uns trutas jovens no palco. Havia um elemento de perigo naquilo” – Kevin Lyman.

“Está na hora de ir trabalhar na garagem de veículos do tiozão lá no fim da rua. ” – Peter Mensch

Ah… merda… lá vamos nós de novo. Mais duas toras de madeira para a pira do funeral do rock, providas por dois caras que eu levo muito a sério, dois caras que contribuíram imensamente para o meio ao longo dos últimos 30 a 40 ano.

Peter é uma das metades da Q Prime, empresa que cuida da carreira de artistas como o METALLICA e o DEF LEPPARD, apenas para citar dois nomes. Eu os conheço há anos. Ele e seu sócio, CLIF BURNSTEIN, me fizeram um enorme favor nos anos 80, um que fora essencial para as carreiras do Great White, do Guns N’ Roses e para a minha. Eles disseram à [gravadora] Capitol que eu era afiliado da Q Prime. A força daquele apadrinhamento nos deu uma maior credibilidade.

Kevin fundou a turnê Warped e é sócio de John Reese na Mayhem Tour, um super circo do Heavy Metal que perambula pela América todo verão. A Mayhem é talvez a maior turnê de Metal do ano. De acordo com Kevin, os números da Mayhem estão baixos esse ano. As vendas antecipadas de ingressos em Phoenix, para uma casa de 16 mil lugares, foi menor do que 5000.

Eu não estou mais na idade onde me sinto invencível. Muitos de meus colegas e amigos já desligaram seus telefones faz tempo. Eu não tenho tempo de sobra para desperdiçar. Eu estou desperdiçando meu precioso tempo e meus dias cada vez menores dando apoio aos talentos jovens com os quais nos comprometemos? Eu concordo com Kevin e Peter?

Não. Nem por um segundo.

Ninguém tem todas as respostas e eu só posso falar por minha experiência e observação pessoal – mas eu com certeza sei o porquê de eu fazer o que eu faço.

Kevin já se retratou e pediu desculpas ao grupo de talentos que ele atrai e aos fãs que compram seus ingressos. Todos nós dizemos coisas que devíamos ter pensado melhor antes, especialmente quando sob estresse e decepções crescentes. Ainda assim, Kevin deve ter achado que ele tinha um argumento sólido, e Peter tem uma perspectiva altamente bem informada.

A palavra-chave no rompante de Kevin é ‘perigo’. Uma vez Sean Beavan, um dos produtores de ‘Chinese Democracy’, me perguntou, ‘”como é que você conseguiu fazer com que ‘Appetite For Destruction’ soasse tão perigoso? ”. Eu não entendi de fato o que ele estava tentando perguntar. Claro, AFD soava cru comparado aos outros álbuns de rock daquele tempo, feitos pras rádios, ele tinha energia e dinâmica, mas o som mais perigoso que eu posso pensar é o de um cartucho sendo engatilhado após ter sido colocado na câmara de uma escopeta calibre .12. Discos não me soam perigoso

Eles podem, contudo, ter uma postura perigosa. O perigo reside na habilidade que o material tem de desafiar a complacência e a hipocrisia. ‘Jungle’ era um comentário abrasivo às condições urbanas contemporâneas. ‘Out Ta Get Me’ não parece mais paranoica – olhem para a milícia dos impostos que andam em tropas por nossas ruas, chutando portas e atirando em qualquer coisa que se ouse mover. ‘So Easy’ expressava um estresse causado diretamente pelo horizonte de Sunset Strip. Hollywood é onde as mulheres são usadas e abusadas e a lealdade é uma qualidade efêmera. Los Angeles não é nenhuma ‘Paradise City’. AFD expressava uma contemplação saudável dos aspectos de nossa existência urbana, e era um grito de batalha do indivíduo, mais especialmente os de pouca força – mesmo as almas dos vagabundos de rua possuem o mesmo valor da alta roda corporativa de Beverly Hills.

Você quer saber o porquê de AFD ter explodido como um tanque de querosene atingido por um tiro de bazuca? Porque um tsunami de jovens da classe trabalhadora respondeu – ‘Aí sim, porra! Axl é um de nós e ele é a nossa voz’. Eles se reconheceram na postura de Rose, talvez até mais do que na dos amáveis e educados Leppards administrados por Peter. Aqui estava uma gangue de Hatfields, e melhor ainda, ‘they smoked their cigarettes with style’. Eles pareciam ser os verdadeiros McCoy [nota: Niven refere-se à expressão ‘the real McCoy’, que em inglês remete a algo 100% legítimo, mas tem uma etimologia bastante difusa e controversa; o sobrenome Hatfield, por sua vez, é o nome de uma família que travou uma guerra sanguinária – não se sabe exatamente o motivo inicial até hoje – com o clã McCoy durante quase 30 anos nos EUA. Ainda assim, a família McCoy não tem nenhuma ligação com a criação da metáfora].

Agora, os problemas com a turnê Mayhem são problemas específicos da turnê Mayhem, até onde eu consigo entender – você não tem como pegar tantas bandas assim e leva-las pelos mesmos mercados ano após ano e não esperar que haja um exercício de retorno diminuto – não importa o quão bem você organize e administre a turnê.

Não obstante, quanto ao tamanho do elenco de um festival, considere a máxima de que a expansão causa complexidade e a complexidade se torna declínio. Todos os impérios eventualmente caem. Eu seu despertar, eles deixam as glórias de outrora no passado, e pra mim, o passado é ter que ver ao Lemmy DE NOVO. O [festival] Coachella, a propósito, fechou com a câmara de vereadores da cidade de Indio até 2030. Talvez eles cheguem lá e talvez sejam engolidos inteiros pela euforia artificial da Tomorrowland e sua mirrada EDM.

Os problemas do rock são duplos – primeiro há a relevância, e em seguida, há o subterfúgio.

A relevância é marginalizada pela era da tecnologia afluente – as porras de telefones celulares que todo mundo e suas mães se tornaram ligados umbilicalmente. A relevância social agora é determinada pelo Facebook e quantas porras de ‘Curtidas’ a selfie que você tirou no banheiro tem – não o fato de que você comprou o novo álbum dos Wailers. A conexão social é definida pelo número de ‘amigos’ que você tem na sua tela de 3 polegadas. Se todos nós ainda nos encontrássemos em lojas de discos, nem diríamos ‘oi’ uns para os outros – estaríamos ocupados demais checando nossos e-mails para notar aos outros ali.

Ainda assim, quando 16 mil pessoas estão preparadas para ir a um show e suportar altas temperaturas na casa dos 40 graus e pagar caro por uma cerveja para limpar poeira da goela, então eu não temo que o apetite pelo rock e a comunidade do rock tenham desaparecido. O que eu vejo de fato é que atualmente, não há ninguém carismático o suficiente personificando as raivas e frustrações de nossas vidas. O que eu vejo é todo mundo pronto para vender tudo a qualquer momento. O patrocínio é o Rei Midas e o espírito do rock está andando de marcha ré.

Há muito do que se ter raiva. Anualmente, contribuímos redistribuição de riquezas – nós pagamos nossos impostos – para o benefício do Pentágono e de interesses corporativos que são donos de nosso governo. A Boeing, General Electric e a Verizon estão entre as muitas corporações que não pagam impostos federais. A milícia dos impostos [eu parei de chamá-los de ‘polícia’] transita por nossas ruas com superávit bélico e matam pessoas acuadas. 1984? É aqui, amigo, mais enraizado e mais persuasivo do que Orwell jamais poderia imaginar.  Assista tudo no canal da Central Televisiva da China.

E os poderes não gostam de dissidentes. Consequentemente, eles permitiram uma organização texana ganhar um mata-leão monopolista sobre a rádio terrestre dos EUA – a Clear Channel centraliza e sufoca a programação. Não haverá outro 1968. Não haverá uma ‘Street Fighting Man’ para encorajar protestos. O Imposto de Rena mudou suas leis no meio dos anos 90 para impedir que as gravadoras deduzissem gastos com suas especulações perdidas com talentos em potencial. “Você tem um Bob Dylan no seu porão gravado fitas? Bem, ele pode ficar lá. ” O antigo negócio da música foi desmantelado ou segmentado.

Mas isso pode não ser de todo mal. Incêndios em florestas regeneram a flora. J.G. Ballard apontou que mesmo a catástrofe pode ser vista como o portal da reinvenção e da renovação. Talvez o rock precise sair rastejando dos destroços de vez em quando.

Quanto à perda de vendas de discos, havia várias vozes poderosas no rock muito antes da explosão das vendas de discos nos anos 70.

Ballard também acredita que quanto menor, melhor. Você não tem que ter todas as bandas no elenco do seu festival e você não precisa tocar em todo lugar. Você não tem que se vender para patrocinadores corporativos.

Agora não há mais gravadoras provendo apoio às turnês, promovendo faixas nas rádios abertas e lhe emprestando dinheiro para gravar clipes. As três grandes gravadoras que sobraram não estão interessadas em ‘desenvolvimento de artistas’, não mais.  Música pop é menos cara de se comercializar e se ajusta à consciência da total comercialização da era do celular. E daí? Sempre houve um mercado pop predominante, e o rock sempre foi o primo bastardo da indústria do entretenimento.

Diferencie ‘animadores’ de ‘artistas’. Preste atenção ao underground.

Sim, o rock está em um período de escassez. Há ritmos para todos os gostos. Ken Berry, que viria a comandar a EMI mundialmente, me disse em 1980 que o ramo estava moribundo e ‘que somente ‘The Wall’ estava vendendo’. Já estivemos nessa situação antes.

Finalmente, se o rock está morto, por que é que há um bando de moleques de 14 anos em minha casa me dizendo ‘Iron Maiden é do caralho! ’ e me perguntando ‘podemos pegar suas stratocasters emprestadas’? Meu filho mais novo e seus amigos estão em uma idade onde eu deveria ser rejeitado, com escárnio, como é a praxe. Eles deveriam estar pirados com o novo jogo do X Box, ‘Kill’em All’. Ao invés disso, eles querem saber quem é Jason Becker. Eles querem saber o que é o Banco Central. Esse tipo de profundidade de curiosidade denota inteligência e paixão.

Esse tipo de paixão em um rapaz de catorze anos de Indiana teve consequências.

[…]

 

Texto original para a revista CLASSIC ROCK, julho de 2015.

 

 

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