W. Axl Rose – leia trecho não publicado da biografia do vocalista do Guns N’ Roses

Trecho não-publicado de ‘W.A.R. – The Unauthorized Biography of William Axl Rose’, biografia de Axl Rose de autoria de Mick Wall, publicada em 2007. Traduzido com consentimento do autor.

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Os seis meses finais da turnê mundial de dois anos e meio que o Guns N’ Roses havia iniciado em 1991 foram, sob muitos aspectos, os mais fáceis. Tendo voltado ao Japão, onde sua equipe fixa de 80 pessoas chegou na manhã de 11 de janeiro de 1993 – um dia antes do primeiro de três shows no futurístico Tokyo Dome – até Axl entendia naquela altura que não era prudente emperrar a estrutura da banda. No Japão, os shows – tal como muitas outras coisas – são eventos controlados rigidamente que começam e terminam de modo planejado. Diferentemente do hemisfério ocidental, aonde certo atraso é quase que esperado pelos maiores nomes da elite cultural-liberal, sejam eles da música, moda, cinema ou artes visuais, tal atitude no Japão mal é entendida, quiçá tolerada. Como resultado, o último trecho da turnê mundial começou com um início não-customeiramente organizado, com a banda chegando para a passagem de som às 2 da tarde no dia do show, e Axl pronto para subir ao palco às 06h40min da tarde em ponto. Começando com ‘Welcome to the Jungle’, a banda mandou um set de 18 músicas, o qual eles concluíram educadamente com Axl descendo para perto da platéia para distribuir rosas embaladas separadamente, uma a uma. Apesar dos pesados traumas emocionais pelos quais ele tinha passado em casa com Stephanie, ele ainda parecia contemplar um futuro com ela. Esse trecho final da turnê seria ‘só a nata’, com a banda reduzida a sua formação mais natural de seis pessoas, permitindo a eles que coletassem um baita pagamento depois do outro enquanto eles passavam por aquelas partes do mundo que ainda não tinham cansado deles.

Nos bastidores, contudo, algumas coisas nunca mudam. Axl tinha toda sua equipe de apoio com ele, incluindo áreas especiais da coxia para Suzzy London e Sharon Maynard e suas respectivas tropas de assistentes. “Elas tinham que acompanhá-lo até o Japão para certificá-lo de que as ondas de energia negativa não o pegassem lá,” um incrédulo ex-empregado explicou. Até aquele ponto, Axl tinha solicitado informações detalhadas sobre instalações nucleares no país – e a fonte de energia do Tokyo Dome em específico – antes mesmo de ele ter chegado ao país. Enquanto alguns membros da equipe fossem tolerantes a tais patacoadas esotéricas, outros eram profundamente céticos quando ‘às reais intenções de Maynard’. ‘Se fosse pra algum lugar exótico, maravilhoso ao redor do mundo, ‘as conselheiras’ geralmente tinham que ir a determinado ponto’ um ex-empregado contaria depois à (revista) Rolling Stone. “Mas se fosse pra ir até Kansas City, estava tudo perfeitamente bem.”

O resto do tempo da banda no Japão seguiu um padrão mais convencional, começando com uma grande festa depois do primeiro show no distrito de Reppongi chamado Lexington Queen – um ponto familiar para bandas estrangeiras de passagem pela cidade, freqüentado por modelos do ocidente trabalhando em Tóquio. No segundo show, no dia 14 de Janeiro, até mesmo Axl estava começando a sentir-se mais em casa, atrasando o show por uma hora e dedicando a música ‘Yesterdays’ a seu meio-irmão Stuart. Depois, ele e a banda se juntaram a Ronnie Wood, dos Rolling Stones, que também estava tocando na cidade aquela noite, na festa ‘after-concert’ dele no Lexington Queen. Na noite seguinte, Axl apresentou ‘Live And Let Die’ como ‘Live and Let Stir-Fry’. Wood, ainda circulando com Slash desde a noite anterior, juntou-se a eles no palco para uma extensa versão de ‘Knockin’ On Heaven’s Door’, que fecharia o show.

Duas semanas depois, eles estavam na Austrália, onde o show deles em Melbourne no enorme Calder Park Raceway Stadium no dia 1 de fevereiro bateu recordes nacionais de público. Três dias depois, eles estavam na Nova Zelândia, onde Axl e Duff comemoraram seus aniversários em uma festa de aniversário conjunta num restaurante de luxo com vista para o porto de Auckland. No dia 6 de fevereiro, data do trigésimo – primeiro aniversário de Axl, eles tocaram no Mount Smart Stadium de Auckland. No clímax de ‘November Rain’, uma dúzia ou mais de membros da equipe técnica entraram no palco para entregarem um bolo gigante a seu líder, no que Slash e Duff conduziram a platéia numa versão de ‘Feliz Aniversário’ enquanto Axl tentava parecer surpreso. Quinze dias depois, eles estavam de volta aos EUA prontos para começar o trecho ‘Skin and Bones’ da turnê, como eles o chamavam agora, com um show lotado no Frank Erwin Centre em Austin, Texas. Sem a seção de metais e vocalistas de fundo, o meio do show agora tinha uma seção acústica composta quase que inteiramente do lado dois do [álbum] ‘GN’R Lies’ – menos ‘One In A Million’, que nem mesmo Axl era louco para querer tocar ao vivo.

Claro, a turnê ainda tinha seus inesperados ‘atrasos’ e datas remarcadas nas coxas. Quatro shows coram cancelados logo no começo da turnê devido a ‘condições meteorológicas adversas’. Enquanto no dia 3 de Abril um show em Sacramento foi terminado depois de 90 minutos quando Duff foi atingido na cabeça pelo que Slash disse à platéia que era ‘uma garrafa de mijo’ mas que o [programa] MTV News depois apurou ser uma garrafa plástica de água. Seja lá o que fosse, nocauteou Duff e ele teve que ser levado a um hospital local. Apesar de ter sido Axl quem anunciou que o show teria que ser parado, foiSlash quem foi ao palco e encarou o público quando ficou claro que Duff teria que receber atenção médica. Explicando a situação, ele pediu que todos fossem embora pacificamente, acrescentando: ‘Não tretem com ninguém, não zoem o prédio’. Por uma vez, ninguém o fez.

Outro show foi cancelado em Abril – essa vez no Omni em Atlanta, na Geórgia – quando Axl percebeu que era o mesmo lugar onde ele tinha sido preso depois de um embate com um segurança na turnê com o Mötley Crüe em 1987. Com Axl ainda tecnicamente sob condicional depois do processo devido ao tumulto em St. Louis dois anos antes, ele disse a Doug Goldenstein para cancelar o show. “Eu não vou ficar dando mole pra Kojak’, Axl diria depois em um comunicado à imprensa. Ele já estava ‘escaldado demais pela experiência. ’

Os incidentes mais dramáticos da turnê dessa vez decorreram do substituto de Izzy Stradlin, Gilby Clarke, que fraturou seu pulso esquerdo em um acidente de moto no dia 29 de abril, enquanto treinava para uma corrida de celebridades organizada pela TJ Martell Foundation para angariar fundos para pesquisas sobre leucemia, câncer e AIDS, o que resultou nos últimos quatros shows do itinerário da banda nos EUA serem cancelados. A ausência de Gilby também ameaçava o planejado retorno da banda à Europa naquele verão para shows em festivais. Mas Axl apareceu com uma solução de última hora. Ele simplesmente ligou para Izzy e pediu que ele fizesse os shows com eles – em caráter estritamente provisório, claro. Mais inesperadamente ainda, Izzy concordou.

“Izzy e eu crescemos juntos e somos como uma família sob vários aspectos – incluindo termos nossas diferenças,” Axl explicou depois. Quando eu o lembrei dessa declaração depois, Izzy simplesmente sorriu e balançou sua cabeça. “Bem, o que mais ele poderia dizer? Eles estavam sem opção alguma e se eu não tivesse concordado em ajudar, eles poderiam ter perdido todo aquele trecho da turnê.”

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Outro detalhe revelador que emergiu do processo no fórum dizia respeito ao modo no qual a banda original de cinco membros tinha concordado em dividir seus lucros no grupo, isso ainda nos dias antes de terem se tornado tão espetacularmente bem-sucedidos. Depois de deduzirem a comissão do empresário, de 17.5 por cento, Axl descreveu como ele e Slash tinham criado uma fórmula bem peculiar para o rateio do resto do dinheiro. Durante a pré-produção de ‘Appetite’, ele disse, ‘Slash bolou um sistema para deduzir quem escreveu quais partes de uma música ou parte de uma música. Havia quatro categorias, creio eu. Eram letras, melodia, música – guitarras, baixo e bateria – e acompanhamento e arranjos. E nós dividíamos cada uma dessas categorias em vinte e cinco por cento. ’ Ele emendou: ‘Quando tínhamos terminado, eu tinha 41 por cento [dos rendimentos totais], e cada um deles tinha porções diferentes.’

Com o juiz calculando que a ‘porção diferente’ de Steven giraria em volta dos 15 por cento, o caso foi encerrado abruptamente seis semanas adentro dos testemunhos, quando no dia 24 de setembro, Axl instruiu seus advogados a fazerem um acordo fora dos tribunais, concordando eventualmente em fazer um pagamento único em torno de 2.5 milhões de dólares a Steven, além de um acordo que cederia 15 por cento de todos os repasses de royalties relativos ao período no qual ele esteve na banda – ou seja, os dois primeiros discos. Steven agora diz que o cheque foi na verdade de US$ 2.25 milhões. “Não foi um acordo para me comprar. Era o que eles me deviam. E eu consegui meus royalties de volta.”

Apesar do dinheiro, ainda é motivo de grande arrependimento para ele, diz Steven, que a banda original tenha acabado tão mal. “Eu me conheço, eu conheço Slash também, porque nós sempre falávamos sobre como poderíamos ser como o Aerosmith, como os Stones. Cara, eles estão juntos faz trinta, quarenta anos, porra.” Ele ainda disse que “a coisa mais dolorosa” tinha ocorrido ‘ao final do processo, quando todos os jurados me abraçaram e disseram ‘Boa sorte e se cuida’. Eles odiaram os outros membros do Guns N’ Roses. Quando eles estavam na cadeira das testemunhas, perguntavam pra eles, ‘Quantas vezes o senhor já teve uma overdose?’ e a resposta era vinte ou trinta vezes cada um. E ali estavam eles, expulsando esse cara legal que estava sob tratamento? Isso fez com que eles parecessem cuzões ainda maiores do que eram.”

Como já se previa, Axl ficou ultrajado com a decisão, sem conseguir admitir que Steven tivesse tido um papel fundamental na ascensão da banda ao estrelato. “Ele não escreveu nenhuma porra de uma nota em ‘Appetite’, mas ele me chama de fdp egoísta!” ele esbrevajou. “Ele tem conseguido viver daquele dinheiro, comprar uma caçambada de drogas e contratar advogados para me processar.” Ainda amargando até hoje os 15 por cento que o baterista recebe, agora se referindo ao acordo como ‘um dos maiores erros que eu já fiz na vida”, a perspectiva de Axl é que “ao longo do tempo, eu paguei por isso muito arduamente” por ter tido Steven Adler no Guns N’ Roses. Pode-se dizer que Adler também ‘pagou caro’ por estar na banda. Meses depois de seu acordo financeiro, ele teve uma overdose tão séria que desencadeou um derrame, deixando-o parcialmente paralisado. Além de sua banda ocasional, o Adler’s Appetite, com a qual ele toca intermitentemente hoje em dia, ele não tem feito nenhum trabalho sério – tampouco tem sido levado a sério – na indústria musical desde sua demissão em 1990.

Mas se Axl estava tendo seus problemas, para o resto do Guns N’ Roses, dois meses depois de a turnê mundial ter finalmente acabado, estava de volta ao batente, como se costume, com Slash, em particular, agora trabalhando em músicas novas. Também havia o lançamento iminente de um novo álbum, intitulado ‘The Spaghetti Incident?’’, que chegaria às lojas em Novembro – uma incongruente e mal-recebida coleção de ostensivos covers de bandas punk que visava estabelecer as raízes da banda além de suas óbvias conexões com o heavy metal, mas que teve o efeito oposto, fazendo com que o grupo parecesse ainda mais fora de sintonia com a época do que seus similares do nascimento do grunge, agora chegando ao zênite com o então recente lançamento do novo e brutalmente descomprometido álbum do Nirvana, ‘In Utero’. Comparando, ‘The Spaghetti Incident?’ era uma compilação insatisfatória e confusa, desde seu título obscuro até a capa do disco – um close de um prato de espaguete enlatado. Tal como a [revista estadunidense] Rolling Stone apontou em sua resenha do trabalho, ‘o punk rock é às vezes melhor interpretado como um grito vigoroso de protesto contra a própria falta de poder, mas Axl não se conecta muito bem ao material punk rock em Spaghetti a não ser como um meio de pura agressão. Ele nem consegue xingar direito.‘

Covers díspares de bandas óbvias como o The Damned [‘New Rose’] e dos Dead Boys [‘Ain’t It Fun’] com covers de grupos que não tinham nada a ver com o punk como o Nazareth [‘Hair of the Dog’] e, pra acabar, do The Skyliners [cujo sucesso de 1958, ‘Since I Don’t Have You’ se tornaria o próximo single da banda], enquanto não erraram o alvo por completo, demonstravam uma banda forçando demais a barra. Isso fica mais óbvio quando ele adota um sotaque cockney de fazer chorar ao estilo de Dick Van Dike para uma versão do clássico demente ‘Down On The Farm’ do UK Subs, mas ainda mais desastrosamente com a faixa final do disco original, uma versão de ‘Look at Your Game, Girl’, escrita originalmente pelo psicótico Charles Manson.

Acompanhado por seu jardineiro, Carlos Booy, no violão, ‘Look At Your Game, Girl’, era algo que Axl tinha gravado sozinho tarde da noite sem contar ao resto da banda. Encaixando-a no fim do disco como uma faixa bônus ‘escondida’ e não inclusa na lista impressa na parte de trás do encarte, ela era, na verdade, uma mensagem pessoal para Stephanie Seymour, com quem ele tinha rompido oficialmente enquanto os toques finais estavam sendo dados à mixagem em setembro de 1993, chegando ao ponto de retirá-la dos créditos dados a ‘parentes próximos’ no disco – apesar dele manter o nome do filho dela, Dylan. “A separação teve um enorme efeito sobre Axl,” um amigo comentaria depois. “Aquela foi a primeira vez na vida dele que ele teve estabilidade. E daí ele ficou sem nada.”

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Stephanie, entretanto, tinha suas próprias ideia sobre como lidar com Axl, e em meados de 1994, ela deu entrada num processo cível contra ele, visando compensação pela violência doméstica da qual ela tinha sido vítima. Axl ficou horrorizado com essa reviravolta nos acontecimentos. No coração dele, ele nunca tinha perdido a esperança de ter algum tipo de reconciliação com Stephanie. Esse processo mostrou a ele que era em vão. Para aumentar a pressão sob a qual ele se encontrava agora, quando Erin Everly se viu intimada a testemunhar no processo de Stephanie, ela decidiu entrar com sua própria ação legal, acusando seu ex-marido de agressão e abuso sexual.

De repente, tudo começou a ficar bem pesado para o vocalista. Uma coisa era ser humilhado por um ex-colega de banda, como ele se sentia em relação a Steven, e num grau menor, em relação à Izzy. Mas ter os detalhes mais sórdidos de sua vida pessoal discutidos abertamente era simplesmente muito pra ele. Especialmente quanto tais detalhes incluíam coisas como a ex-colega de apartamento de Erin, Meegan Hodges-Knight, testemunhando sob juramento sobre a ocasião na qual ela acordou à noite para ouvir Erin implorar a Axl, “Pare, por favor. Não me machuque, não me machuque,” enquanto Axl gritava impropérios para ela. “E de repente ele vinha e quebrava todas as antiguidades caras dela, e ela dizia, ‘por favor, não quebra isso, por favor’, e tentava tirá-las das mãos dele. E ele a empurrava e quebrava tudo que conseguia alcançar. Eu me lembro de dormir e acordar com cristal voando sobre minha cabeça, despedaçando-se no chão.”

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Hodges-Knight, que estava namorando com Slash na época, lembrava-se de “pedir a Slash que fizesse algo, ou eu faria. Eu disse, ‘Eu tenho que fazer alguma coisa’ ou algo do tipo. E Slash dizia, ‘Não, você vai piorar as coisas’.” Ela também lembrou, em seu testemunho juramentado de como ela tinha testemunhado Axl chutar Everly e a arrastar pelo chão puxando-a pelos cabelos numa noite enquanto ela trajava top e calcinha transparentes. Ele em seguida jogou um aparelho de televisão contra ela, ela disse, que por sorte, não a atingiu, e depois cuspiu nela. “Aquele porco,” Meegan bradou. “Ele cuspiu nela.”

Em seu próprio testemunho, Erin afirmou que Axl abusou sexualmente dela, descrevendo em detalhes chocantes, uma ocasião quando ele primeiramente a mandou tirar um maiô que ela estava usando, amarrou as mãos dela aos tornozelos, por trás, colocou fita adesiva sobre sua boca e uma venda sobre seus olhos, e depois a levou, nua, em um armário onde ele a deixou imobilizada por horas. Ela disse que a certa altura ela conseguia ouvir Axl em outro cômodo conversando com um amigo em comum, alheio a seu sofrimento.

Quando Axl finalmente permitiu que Erin saísse do closet, ela disse, ele a pegou e pressionou-a de barriga para baixo numa cama. E ele então, ‘sodomizou-a arduamente. Muito arduamente.”

“Você estava gritando?” ela foi questionada.

“Sim.”

“Quanto tempo durou isso?”

“Eu não lembro”

“O que aconteceu quando terminou?”

“Ele tirou e enfiou na minha boca.”

Erin também afirmou que Axl acreditava que ela e Seymour tinham sido irmãs em uma vida passada e que agora estavam tentando matá-lo. Axl também havia dito a ela que “em uma vida passada nós éramos índios e que eu matei nossos filhos, e por isso ele era tão mau comigo nessa vida.” Ainda mais insolitamente, Erin disse que Axl havia dito que “Ele estava possuído” pelo espírito de “John Bonham”, o notoriamente louco baterista do Led Zeppelin que morreu durante o sono em 1980 após beber até desmaiar. Ela também disse que Axl em certa vez tirou todas as portas do apartamento de modo a observá-la onde quer que ela fosse.

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“Como vocês sabem, Gilby foi despedido pelo menos três vezes pela banda no último mês e foi re-contratado pelo menos duas vezes,” escreveu Light no dia 14 de Abril em uma carta para a então advogada da banda, Laurie Soriano. Em junho, quando o disco solo de Gilby, ‘Pawnshop Guitars’ foi lançado, a posição dele ficou clara: ele estava oficialmente fora da folha de pagamento do GN’R, apesar do fato de Axl – junto com Slash e Duff – fazer uma aparição no disco de Gilby como convidado. Quando os royalties de ‘Spaghetti Incident?’ pararam de chegar periodicamente, Gilby instruiu a Light que processasse a banda. Mais uma vez, Axl lutou contra a ação inicialmente antes de eventualmente chegar a um acordo fora do tribunal com um pagamento não-revelado feito para o guitarrista;

Assistindo a tais acontecimentos de longe, Slash temia pelo pior. “Logo que eu voltei pra casa, eu montei esse estudiozinho invocado e me divertia. Eu não tinha nada em minha mente sobre sair da banda, era a banda que não estava funcionando. Matt ainda estava lá, mas Gilby tinha sido demitido, e Axl estava… por aí em algum canto.”

Quanto ao paradeiro de Axl, quando ele não estava consultando advogados a respeito à última ação em que ele tinha sido enrolado, ele estava obcecado com isso também. Ferido pela maciça rejeição do grunge aos preceitos que ele tinha como muito queridos – zoado por seus vídeos ‘conceituais’, ridicularizado por lançar dois discos duplos simultaneamente, desprezado por elementos de homofobia, racismo e machismo que poluíam suas letras, ainda que atribuídos artisticamente – ele foi esperto o bastante para perceber o quando fora de época o Guns N’ Roses repentinamente pareceu estar diante da força da mídia. Mais preocupado do que nunca com os danos feitos a sua imagem pelos processos de Erin e Stephanie, sem contar suas próprias arengas públicas com Steven, Izzy, Gilby e seu ex-empresário Alan Niven, pela primeira vez desde que ele tinha chegado a Los Angeles de Lafayette, Axl se viu perdido, puto com todo mundo, ainda que inseguro sobre como lidar com isso. Além de despedir Gilby, ele mandou embargar uma biografia da banda na qual Del James tinha estado trabalhando, ‘Shattered Illusion’, que deveria ter sido publicada pela «editora» Bantam/Doubleday em junho de 1995, e ele se retirou pra dentro do mesmo círculo de baba-ovos e assistentes pagos que tinham dado assistência a ele na turnê – James, seus irmãos Stuart e Amy, sua governanta Beta, o guarda-costas Earl, e o corpo de vozes de apoio, e Suzzy London e Sharon Maynard – fazendo soca em sua mansão em Malibu enquanto ele bolava sua próxima jogada. “A raiva de Axl quadruplicou da pessoa que eu costumava sair,” lembra Michelle Young, que se encontrou com ele por volta dessa época.

De acordo com Slash, foi ao que Axl começou a pensar em fazer seu próprio disco solo. Recém-obcecado com o som eletrônico do Nine Inch Nails – ele disse a amigos que ele adoraria ouvir o Nine Inch Nails fazer um cover de ‘Estranged’ – ele planejava escrever e gravar com um ‘time dos sonhos’ composto do líder do NIN, Trent Reznor, o guitarrista do Jane’s Addiction, Dave Navarro e o baterista do Nirvana, Dave Grohl. “Daí ele mudou de idéia,” diz Slash, ‘ e pensou, por que fazer um disco solo se ele poderia fazê-lo com o Guns N’ Roses… ’

Enquanto isso, a obsessão de Axl por música eletrônica continuava a crescer. O baterista do Metallica, Lars Ulrich se lembra dele elogiar o Nine Inch Nails antes de outros o fazerem. “Ele ficava dizendo, ‘Essa é a coisa mais legal que eu já ouvi’. E nós todos ficávamos lá dizendo, ‘do que caralho você tá falando? ’ Ele botou o Nine Inch Nails para abrir pro Guns N’ Roses na Europa e eu me lembro de ouvir sobre como eles foram vaiados até saírem do palco. Mas ele estava lá conosco quanto estávamos ouvindo Judas Priest.”

As ramificações da saída de Slash, entretanto, seriam devastadoras. Como Duff diz agora, tudo começou a ruir violentamente depois que “Slash virou as costas e disse, ‘Que se foda’. Ele e Axl não se falavam mais. Tinha se tornado algo irracional”.Em retrospecto, Duff diz, era apenas uma questão de tempo até que Slash saísse porta afora. Os dois sempre tinham sido próximos. Quando Duff se separou de sua primeira esposa Mandy em meados do Natal de 1989, foi Slash quem o amparou, permitindo que ele ficasse em sua casa, mudando seus planos de Natal para ficar com Duff. Com o passar do tempo, todavia, Duff sentiu-se cada vez mais como um intermediário na disputa de Slash com Axl, “aquele a quem ambos recorriam, e eu fiquei com a impressão de estar sendo manipulado por crianças”.Quando Slash saiu, no começo Duff resignou-se à vida na banda sem seu velho amigo. Quando, um ano depois, Axl decidiu que Matt Sorum seria o próximo a tomar a bota, Duff soube que era o fim pra ele também.

De acordo com Matt, ele saiu depois de uma acalorada discussão com Axl – sobre Slash. Eles tinham conversado no estúdio quando Paul Huge comentou que tinha visto Slash tocar com sua banda, a Snakepit, no «programa televisivo» David Letterman Show na noite anterior e que tudo “soava como uma merda e parecia uma merda”.Matt diz agora: “Ele estava falando merda do Slash. Eu disse, ‘Escuta filho da puta, quando eu estiver na mesma sala, eu gostaria que você não falasse porra nenhuma do Slash. Ele ainda é meu amigo. Você não serve pra amarrar o sapato daquele cara. Ele tem mais talento no dedinho do pé do que você, filho da puta, cala a boca!’ E daí Axl pulou na minha cara. Eu disse, ‘Quer saber, Axl, mano? Você está fumando pedra se acha que essa banda é o GN’R sem o Slash. Você vai tocar ‘Sweet Child O’ Mine com a porra do Paul Huge? Sinto muito, cara, não vai ficar bom. A porra de ‘Welcome to the Jungle’ sem Slash? E Axl diz, ‘Eu sou o Guns N’ Roses – eu não preciso de Slash’. Eu disse, ‘Quer saber? Não, você não é.’ E a gente ficou nessa xanice; ficou aquela cutucação por uns 20 minutos. E daí ele finalmente disse, ‘Bem você vai pedir as contas/’ Eu disse, ‘Não, eu não peço a porra da conta;’ E ele disse, ‘Bem, então você ta despedido, caralho.’

“Paul Huge saiu correndo atrás de mim no estacionamento e disse, ‘Porra cara? Volta lá e pede desculpas’! Eu disse, ‘Vai tomar no cu, Yoko! Tô fora!’ e foi isso. Eu fui pra meu palácio de seis andares de rock star com dois elevadores e meu Porsche. Eu estava produzindo uma banda chamada Candlebox na época, eles estavam morando na minha casa. E eu disse, ‘eu acabo de ser despedido’. Eles disseram, ‘Ah, que nada, ele vai te chamar de volta’, e eu disse, ‘Não, não dessa vez’. Porque ele já tinha me despedido antes, mas ele sempre me ligava de volta. Eu disse, ‘Não, acho que não’. E cerca de um mês depois, eu recebi a carta dos advogados.”

 

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De acordo com um agitador cultural de Los Angeles daquela época conhecido como Vaginal Creme Davis, foi por volta desse momento que Axl começou a usar ‘aqueles disfarces tipo os do Michael Jackson – bigodes falsos e jaquetas de nylon; ’ Apesar de raramente ser visto à luz do dia, ele pedia a Beta ou o filho dela, Fernando, que o levassem de carro até a praia, ou mais frequentemente, ao cinema. Mesmo quando ele era visto ocasionalmente em shows – nos bastidores com Dave Navarro num show do Red Hot Chili Peppers, aparecendo do nada para ver Radiohead – a aparência de Axl tinha mudado tão drasticamente [ele estava mais robusto do que no auge, e tendia a vestir-se em jeans e camisas xadrez] que uma testemunha afirma ter visto a segurança revistá-lo porque não o havia reconhecido. De acordo com Moby, “Se você estivesse andando na rua e Axl passasse por você, você nunca notaria. Ele parece um cara normal, decente.”

Quando não estava obcecado com montar a nova banda a seu ritmo no estúdio, ou arrancando seus cabelos para escrever letras, Axl passava a maior parte de seu tempo por trás de seus portões automáticos em sua reservada casa em Latigo Canyon. Com Beta fazendo todas suas compras e dirigindo pra ele, Axl passava quase todos seus dias ou malhando – ultimamente, ele tinha desenvolvido um apreço pelo kickboxe – ou fuçando em uma impressionante coleção de computadores de última geração que ele também tinha montado, ou simplesmente jogando fliperama. Ele também começou a ter aulas deguitarra pela primeira vez. Na verdade, ele se envolveu tanto com o trabalho que ele estava fazendo com o seu professor, o ex-membro do Circus of Power, Gary Sunshine, que ele o convidou para participar de algumas das sessões no estúdio.

Uma vez por ano ele convidava amigos e suas famílias para uma festa a fantasia especial de Halloween. Decorando a piscina com Zé – lanternas e teias de aranha falsas penduradas nas palmeiras, ele também construía labirintos especiais. Os convidados nessas festas depois descreveriam-no como estando quase tão animado quanto todas as crianças presentes, enquanto ele transitava, se divertindo. Dave Quakenbush, vocalista da banda punk de LA The Vandals, e um convidado da festa de Halloween de 1999, lembra-se de Axl “vestindo uma fantasia de dinossauro. Quando alguns garotos chegaram perto dele e perguntaram se ele era Barney, o Dinossauro, ele disse, ‘Nah! Barney é uma bichona! E daí pensou e disse, ‘Oh, huh, quero dizer, o Barney é um frouxo’”.

À medida que os anos passaram e os filhos de seus amigos crescerem, as festas de Halloween ficaram menores, simbolizando, como um convidado diria depois, o ‘universo encolhedor de Axl’. Todos os empregados ainda eram obrigados a assinar acordos de confidencialidade contendo severas penas legais e financeiras se quebrados. Também se tornou costumeiro que todos os empregados entregassem uma foto de si próprios, as quais Axl levaria a Yoda para ‘inspeção psíquica’, para revelar seus verdadeiros intentos; forças e fraquezas. Que tipo de energia eles emitiam. Até fotografias dos filhos dos empregados foram exigidas em uma ocasião.

Até mesmo velhos amigos começaram a sentir os dedos gelados da paranóia de Axl apertando-se claustrofobicamente ao redor deles. “Eu tinha me mudado de volta pra Los Angeles e estava dando um rolê um dia e pensei, porra, vou lá na casa dele,” Izzy lembra. “Filho da puta, ele mora lá em cima do morro, ele tem uma baita duma casa, eu vou lá ver o que ele está fazendo, manja? E eu vou lá e ele tem portões de segurança, câmeras, muros, e toda essa merda, você sabe. Então eu estou tocando no interfone e lá pelas tantas alguém vem e me deixa entrar e lá está ele. E ele manda, ‘Hey, cara! Que legal te ver! Me dá um forte abraço e me mostra a casa. Foi ótimo. ‘Daí, eu não sei, acho que um mês depois, uma noite ele me liga e a gente conversa sobre eu ter saído do Guns N’ Roses. Eu disse a ele como era pra mim. Eu disse exatamente como eu me sentia em relação a isso e o porquê eu saí.” De repente, a conversa virou monólogo. “Digo, ele tinha uma porra dum bloquinho. Eu conseguia ouvir ele virando as páginas e dizendo, ‘Bem, ah, você disse em 1982… blá blá blá… ’ e eu penso, que caralho – 1982? Ele estava revirando umas coisas muito velhas. E eu disse, que seja, mano.”

 

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Em um desenrolar ainda mais estranho, o que ninguém sabia ainda era que Axl tinha passado uma parte significante dos meses anteriores regravando todas as músicas de ‘Appetite’ com sua nova banda, com a bizarra intenção de substituir todas as futuras cópias do disco com a nova versão, e assim privando a banda original de quaisquer royalties que eles teriam direito, e metaforicamente, tirando seus nomes da história da banda. Felizmente, a Interscope bateu o pé e simplesmente recusou-se a compactuar com isso, temendo que tal delírio destruísse o último pedaço restante de credibilidade de um disco que ainda vendia 10 mil cópias por semana nos EUA. Como um sinal de comprometimento, entretanto, eles permitiram que a ‘nova’ versão de ‘Sweet Child O’ Mine’ fosse usada nos créditos finais do filme de 1999 de Adam Sandler, ‘O Paizão’.

A essa altura, contudo, toda a promessa de atividade no ano anterior, com Beavan se infiltrando mais dentro do caos criativo fora seguida por outra prolongada ausência do estúdio. A rotina de trabalho de Axl agora se tornara tão irregular que ele raramente dava as caras no estúdio, apesar de manter todos os músicos e engenheiros sob salário mensal, que se dizia ser em torno de 250 mil dólares ao todo (incluindo mais de 55 mil em horas de estúdio, uma folha de pagamento para os sete membros da banda de aproximadamente 65 mil dólares, mais técnicos de guitarra a seis mil por mês, um engenheiro fonográfico a 14 mil por mês e um ‘engenheiro de software’ a 14 mil dólares mensais).. Foi nesse ponto que o engenheiro Billy Howerdel, e o então baterista Josh Freese – que deixaria a banda logo depois – acharam tempo para fundarem sua própria banda, A Perfect Circle, gravando o disco Mer de Noms, que acabou vendendo 1.7 milhões de cópias nos EUA. O guitarrista Robin Finck também logo sairia da banda, supostamente para voltar ao Nine Inch Nails, mas na verdade pelas mesmas razões pelas quais Slash e Izzy tinham jogado a toalha antes. Ele simplesmente tinha se cansado de esperar por Axl.

Beavan logo desistiria também. De repente, depois de aproximadamente cinco anos de tentativas, Axl e seu ‘novo’ Guns N’ Roses tinham voltado à estaca zero. A Interscope estava compreensivelmente furiosa. De modo a tentar reconquistar alguma credibilidade com a empresa, Goldstein sugeriu um disco ao vivo da banda original. Ansiosa para recuperar algum dinheiro de seu já enorme investimento, a Interscope concordou. Doug disse a eles que Axl agora estava disposto a deixar que uma parte do novo material no qual ele tinha estado trabalhando viesse a público, permitindo que uma das faixas, uma letra fictícia com o portentoso título de ‘Oh My God’, fosse usada como parte do teaser do novo filme de Arnold Schwarzenegger, ‘End of Days’.

Tendo petulantemente apagado as partes de Finck da faixa e substituindo-as com gravações de Dave Navarro e Gary Sunshine, para acompanhar o lançamento da faixa no dia 22 de setembro, Axl emitiu sua primeira declaração oficial para a imprensa em mais de cinco anos: uma carta que se mostrava tanto amarga (referindo-se a Matt Sorum como ‘um ex-empregado’) e surpreendentemente sarcástica (terminando com a frase: ‘Poder para o povo, paz pra todos e culpem o Canadá’). A maioria dela era marcada pelo tipo de falácia psicótica que se pode esperar de alguém que tinha estado em terapia por quase uma década. Descrevendo ‘Oh My God’ como “uma música que lidava ‘com a repressão social de emoções profundas e frequentemente agonizantes – algumas das quais podem ser aceitas de boa vontade por uma razão ou outra – a expressão apropriada desta «sendo que uma delas promove um efeito positivo libertador e de cura» é por muitas vezes desencorajada e muitas vezes negada” tal epístola acabou deixando os fãs mais sem entender nada do que eles já estavam. Antes de fechar: “A expressão e veículo apropriados para tais emoções e conceitos não é algo a se ignorar.” Bem, com certeza.

Estreando durante o MTV VMA de 1999, Axl tinha feito um baita carnaval em relação ao preciosismo da música e um grupo de técnicos de estúdio foi forçado a trabalhar noite adentro para ajustar a mixagem final. Todos seus esforços foram em vão, todavia, enquanto os críticos se fartaram, fazendo piada com a pretensão de toda a coisa, comparando a faixa, desfavoravelmente, a clássicos da era de ouro como ‘Paradise City’ e ‘Welcome to the Jungle’.

O disco ao vivo, um CD duplo intitulado ‘Live Era ’87 – ‘93’ chegou depois, em novembro, e apesar de ser um documento fiel dos clássicos shows da banda, não foi recebido de maneira muito melhor pela crítica. Mesmo com uma compilação mediana do Guns N’ Roses como ‘The Spaghetti Incident?’ conseguindo vender milhões, ‘Live Era’ entrou nas paradas dos EUA na posição #45 e não fez muito barulho das semanas seguintes. Quatro meses depois de seu lançamento, o disco ainda não tinha vendido cópias suficientes – mais de 500 mil – nos EUA até para chegar ao disco de ouro. Ao mesmo tempo, a trilha sonora de ‘End of Days’ que incluía ‘Oh My God’ mal entrou no Top 40 dos EUA tampouco. Enquanto a faixa em si não foi ouvida na maioria das estações especializadas em rock dos EUA.

Axl consolou-se pelo fato de que ele tinha tido quase nada a ver com a produção do disco, deixando boa parte do trabalho para Slash. O guitarrista, que tinha trabalhado arduamente nele, também filosofou. Ele me disse: “Eu achei que seria lançado de qualquer maneira, então que ficasse do melhor patamar possível.” Quanto o disco vendeu “não era mais problema meu.” Ele e Axl nem chegaram a conversar sobre o álbum diretamente, ele disse, comunicando-se somente através de seus respectivos empresários, Goldstein e Tom Maher. “De repente tem um monte de faxes e ligações, todo mundo se evitando.”

Como era cada vez mais de costume com Axl, ele simplesmente recebia os CDs pelo correio. Com a ajuda do ex-produtor do Faith No More, Andy Wallace, Slash remixou as fitas ao vivo “da maneira que eu achava que deveriam ser. Eu trabalhei lado a lado com Andy, daí Duff veio, e no fim só arrumamos algumas partes onde a bateria sumia, e tivemos que sangrar os microfones.” E o que Axl achou da nova mixagem? “Eu não sei. Eu não perguntei e ninguém me disse nada.”

Quando Matt Sorum viu uma prova do encarte do disco, seu coração afundou: ele foi listado como um mero ‘músico adicional’. “Aquilo doeu,” ele diz. “Foi o maior golpe que ele jamais me deu. Mas Axl disse que ele não lançaria o disco se mudassem aquilo. Pra você ver como ele ficou pirracento. Eu não digo isso com maldade. Eu tenho dó dele.”

A fixação de Axl em reescrever a história estava começando a rivalizar com a de Stalin. A sua postura não se suavizava. Ou você estava com ele ou contra ele. Tal como Robin Finck e Josh Freese descobriram quando saíram da banda. No lugar deles, Axl agora tinha contratado dois novos músicos: o guitarrista Buckethead – um virtuoso que vestia uma máscara parecida com um manequim de loja e um balde do KFC de cabeça pra baixo em sua cabeça, e só conversava através de um fantoche de mão – e o baterista Brian ‘Brain’ Mantia, um californiano de 35 anos nascido na cidade balneário de Cupertino, e que era conhecido por seus trabalhos anteriores com Tom Waits, Praxis, Godflesh e mais recentemente, o Primus, e que tinha sido trazido a bordo através de uma sugestão de Buckethead, em cujos discos solo ele também havia tocado.

Buckethead (nome de batismo: Brian Caroll) era um enigma de 31 anos que tinha crescido num subúrbio do sul da Califórnia bem perto de sua amada Disneylândia. Um garoto tímido, nerd, obcecado por histórias em quadrinhos, vídeo-games, filmes de Kung Fu e de terror que também estudou teoria musical na faculdade, a marca registrada de Carroll era uma predileção por incorporar influências clássicas em seu estilo ‘esmerilhador’ de guitarra. Desconfortável no palco, ele desenvolveu o personagem Buckethead, depois de comer um balde de KFC em uma noite. “Eu coloquei a máscara e coloquei o balde na minha cabeça. Eu fui pro espelho. Eu simplesmente disse, ‘Buckethead’. Esse aí é o Buckethead’.” E daí ele desenvolveu seu fetiche absurdamente detalhado por galinhas – afirmando em entrevistas que ele tinha sido criado por galinhas, e que sua ambição a longo prazo era alertar o mundo do corrente holocausto de galináceos em lanchonetes ao redor do mundo.

Antes de aceitar ser o ultimo substituto de Axl para Slash, Buckethead tinha gravado como artista solo por quase uma década, indo do ‘post-metal psycho – esmerilho’ de seu disco de 1999, ‘Monsters and Robots’ até a ambiência suave de seu lançamento seguinte, ‘Electric Tears’. Ele também gravou sob o pseudônimo Death Cube X. A única razão pela qual ele entrou para o Guns N’ Roses, disse ele, foi que Axl o convidou a sua casa para lhe dar uma edição rara para colecionadores do personagem Leatherface, o que ele tomou como um bom sinal, decidindo que Axl ‘deve me entender de algum modo. ’

Em novembro de 1999, Axl deu sua primeira entrevista formal em seis anos para Kurt Loder, da MTV, com quem ele tinha concordado em falar, rapidamente, por telefone. Em uma sessão claramente revisionista de seu pensamento, Axl começou explicando que ele originalmente tinha visado fazer um disco que ‘remetesse ao lance de Appetite ou algo parecido, porque teria sido muito mais fácil de fazê-lo’. Ele então culpou Slash por seu fracasso em tal empreitada. ‘Estávamos tentando fazer as coisas funcionarem com Slash por muito, muito tempo… cerca de três anos e meio.’ Ele também insistiu que o disco Live Era não era um tapa-buracos, mas ‘algo que nós queríamos dar ao público como um modo de dizer adeus.’

Axl e Loder em 2002

Quando perguntado por que ele tinha estado regravando as músicas de Appetite, ele respondeu que ‘haviam muitas técnicas de gravação e estilos e viradas de baterias e coisas do tipo que era muito características dos anos 80 que poderiam sutilmente ser melhoradas. ’

Quando perguntado sobre as razões por detrás das saídas de Slash e Duff, ele insistiu, “que foi escolha deles sair Todo mundo que saiu o fez por escolha própria. Matt foi despedido, mas Matt chegou tentando ser despedido e disse isso a muitas pessoas naquela noite. Então é como se todos tivessem saído por vontade própria.” Ele sugeriu que se alguém ficou decepcionado, foi ele. “Eles não queriam me ajudar a fazer um disco. Todo mundo meio que queria fazer o que eles faziam individualmente ao invés do que era do interesse comum do grupo.” Ele disse que a “grande diferença entre eu e Slash e Duff” era que “eu não odiava tudo que saía de novo. Eu realmente curtia o movimento de Seattle. Eu gostava de White Zombie. Eu gosto de Nine Inch Nails e eu gosto de Hip Hop…”

Ele disse que àquela época havia por volta de 70 novas músicas em vários estágios de produção, e que ele já tinha gravado “pelo menos dois álbuns” de material. Algumas delas eram “avançadas demais” para que os fãs gostassem. “É tipo, ‘Hmm, eu tipo que manter a expectativa um pouco mais. Vamos dar tempo ao tempo. ’”

E concluindo, Axl disse que ele comparava o que ele estava tentando fazer com sua nova banda como algo parecido com “escutar Queen. Eles tinham todo tipo de músicas de diferentes estilos em seus discos, e isso é algo que eu curto. Porque eu ouço muitas coisas, e eu não gosto de ser estereotipado a esse ponto, e isso é algo que o Guns N’ Roses parece compartilhar com o Queen um pouco. Com Appetite, apesar de parecer ter sempre o mesmo som, se você puxar, você consegue pesar umas partes pequenas de influências diferentes.”

Quando perguntado por que ele era tão raramente visto em público, ele respondeu gaguejando, “Sabe como é… eu sou reservado e é isso… Eu só, entenda, eu só trabalho nesse disco e é só isso. Eu não sou entendido em computadores ou uma pessoa do tipo técnico, ainda que eu esteja envolvido com isso todo dia, então demora pra eu conseguir.”

Ouça a entrevista de Axl concedida a Kurt Loder – em inglês:

 

 

[…]

E finalmente, respondendo a porque ele tinha decidido chamar o álbum de ‘Chinese Democracy’, ele confessou: “Bem, há muitos movimentos por democracia na China, e é algo muito discutido, e é algo que será bom de se ver. Pode ser também apenas uma ironia, eu não sei, eu apenas curto o nome.”

Quando a (revista) Rolling Stone teve acesso ao estúdio para conduzir uma entrevista cara a cara com ele apenas algumas semanas depois, eles acharam um Axl que “parecia um pouco mais velho e mais encorpado do que o esbelto deus do rock dos dias de ‘Sweet Child O’ Mine’ vestido em roupas da Abercrombie & Fitch” com seu cabelo ruivo intacto e cortado à la Príncipe Valente.

Eles também descobriram um Axl menos galudo do que seus amigos mais chegados e empregados estavam acostumados a ver. Ao falar da nova banda que ele havia montado, ele admitiu que originalmente “isso não era o Guns N’ Roses, mas agora é.”

Quando, entretanto, ele foi perguntado se tinha considerado continuar com uma carreira solo, ele rebateu: “Eu pensei em largar tudo, mas não me pareceu certo. Eu não sou do tipo que escolhe acabar com algo e fugir.”

Ao ouvir algumas das novas músicas – que a revista descreveu como ‘Physical Graffiti’ do Led Zeppelin remixado por Beck e Trent Reznor – incluindo a primeira execução de ‘Catcher in the Rye’, ‘IRS’, ‘The Blues’, ‘TWAT’ (abreviação de ‘There Was a Time’) e a faixa mais ‘grunge’ do disco, e a que mais chamava a atenção, ainda que estivesse apenas em sua forma instrumental, algo chamado ‘Oklahoma’, a qual Axl disse ser inspirada em suas audiências no fórum com Erin. “Eu estava sentado em meu litígio com minha ex-esposa, e foi um dia depois do atentado terrorista em Oklahoma”, lembra Axl. “É muito irônico que estejamos sentados aqui e essa pessoa está cuspindo tudo quanto é coisa e 168 pessoas acabaram de ser assassinadas. E essa pessoa com a qual estou sentado aqui não se importa. Me fuder é a meta deles.”

Ele também falou publicamente pela primeira vez sobre seu desejo de que o filho de Stephanie Seymour, Dylan, ouvisse o novo disco um dia. “Eu espero que ele o ouça quando crescer, se ele eventualmente quiser conhecer a história, ouvir a verdade,” ele sussurrou.

Quanto à sua reputação de recluso, ele se esquivou da pergunta. Ele simplesmente “não achava que fosse interessante pra ele ficar rodando por aí.” Ele estava “construindo algo lentamente”, ele disse, em casa e no estúdio. “Se você está trabalhando com questões que te deprimiram pra cacete, como você expressa isso? Na época, você fica meio tipo, ‘a vida é uma merda’. Daí depois você se controla e você expressa ‘A Vida è Uma Merda’, mas de um modo bonito.”

O quão lindo – ou não – isso era ainda demoraria anos até que o resto do mundo fosse permitido a descobrir, contudo.

 

 

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