Discofilia: conheça o homem que prensa LPs que custam R$10 mil

Por KILLIAN FOX para o jornal THE GUARDIAN

Quatro anos atrás, PETE HUTCHISON se deu conta de que seu hábito de colecionar discos estava ficando fora de controle. Desde tenra idade, ele vinha comprando música de vários gêneros – folk, rock, punk, jazz, house e Techno – mas recentemente, ele tinha se tornado fã de música clássica, e isso, para um amante de vinis raros, é uma manobra ousada. A música clássica tende a alcançar preços muito mais altos no mercado de colecionadores do que os outros gêneros. “Em um único ano”, ele diz, “eu gastei mais de 40 mil libras [cerca de 180 mil reais] apenas em música clássica, sem contar os outros tipos de música que eu estava comprando”. Em uma compra naquele ano, um box set raro de gravações de Mozart de 1956, custou a ele 7 mil libras [por volta de 30 mil reais].

Procurando solucionar o problema, Hutchison decidiu cuidar da situação com suas próprias mãos. Desde 1991 ele vinha administrando o Peacefrog, um selo independente que tem obtido considerável sucesso nos últimos anos com artistas como José Gonzalez e Little Dragon. O distribuidor de seu selo era a EMI, que tinha os direitos de uma formidável coleção de gravações eruditas. Através de seus contatos lá, Hutchison obteve permissão para refazer 80 célebres gravações da assim chamada “era dourada” dos anos 1950-60 e relança-las através de seu novo selo, o Electric Recording Company.

As primeiras reprensagens em edição limitada, três cobiçados LPs de sonatas de Bach tocados pela violinista húngara Johanna Martzy, foram lançadas em Novembro passado, com preço de 300 libras [1350 reais] cada. O segundo relançamento foi o raro box set de Mozart. Uma coleção do compositor e seu trabalho parisiense, em sete discos, dirigidos por Fernand Oubradous, e limitada a 300 cópias, lhe custará 2495 Libras [11300 reais].

Mozart

Esses não são um relançamento qualquer. O purismo de Hutchison como colecionador, como de se esperar, se desdobrara em perfeccionismo n o estúdio. Muitos relançamentos em vinil são produzidos de maneira barata e rápida em maquinário contemporâneo. Hutchison insistiu em fazer tudo como teria sido feito meio século atrás, mas com perfeição acrescida. “Eu quero ter os discos com a melhor qualidade de som do mundo”, ele diz.

Naturalmente, isso não sairia barato. “O primeiro desafio”, ele me diz quando eu o visito em seu estúdio em Notting Hill, Londres, “foi achar e restaurar o equipamento”. Um homem esbelto de cabelo comprido e uma barba bem espessa, Hutchison é exatamente aquele tipo de audiófilo obcecado e agora ele tem máquinas que o acompanham. O gravador de fita de rolo da MEU em um lado da sala, que teve que ser totalmente restaurado, teria sido usado no Abbey Road para gravar os Beatles e os Stones.

A ilha de masterização ao centro, também construída pela EMI, veio da Nigéria – mas o real achado, ele me diz, foi o par de estrovengas à nossa direita: um gravador de fita valvulado do tamanho de um fogão à lenha antigo e a máquina de cortar vinil, ambos manufaturados pela empresa dinamarquesa Lyrec em 1965. Hutchison achou as duas máquinas “naufragadas” em uma garagem pública em Cheshunt, comprou-as por 10 mil libras e passou três anos e “10 vezes” o valor da compra reconstruindo-as com a ajuda dos veteranos engenheiros de áudio Sean Davies e Duncan Crimmins, guiados pelos manuais de instrução que Davies tinha desde os anos 70.

A tecnologia de válvulas desapareceu completamente na metade dos anos 70, quando os estúdios migraram para transistores mais baratos – uma farsa, na visão de Hutchison, excedida somente pela subsequente transição do analógico para o digital. “O problema com transistores é que eles soavam um pouco duros e vidrosos”, ele explica. “Eles não tinham a textura e o som de ponta aberta da válvula” Agora ele está trazendo tal textura perdida de volta à vida. “Estas, acreditamos nós, são as únicas máquinas do mundo capazes de produzir uma gravação em estéreo totalmente à válvula.” Quando eles lançarem o primeiro disco em estéreo em julho [os de Bach e Mozart são em mono], eles serão, afirma, o primeiro disco em estéreo completamente valvulado em quase meio século.

Tendo dado tanta atenção a como esse produto soaria, Hutchison não queria desleixar da aparência. “A capa e a arte gráfica e a fabricação tinham que ser feitas como eram nos anos 50”, ele decidiu. Na zona leste de Londres, ele achou um gráfico artesão com uma prensa Heidelberg de 1959 e o colocou para trabalhar. Tudo tinha que ser autêntico, até as letras douradas e os mesmos fios de seda, e nada poderia ser escaneado: até as imagens tinham que vir das fotografias originais, o que significava ir atrás dos fotógrafos, ou seus filhos, para pedir permissão. O libreto de 50 páginas que acompanha o box de Mozart levou um ano para ser feito.

Quando Hutchison coloca o produto de 11300 reais no meu colo, me dizendo que é provavelmente o disco mais caro já feito em termos de custo de fabricação, eu o abro com nervosismo e dou uma olhadela lá dentro. É uma peça linda, e a atenção dada aos detalhes é embasbacante. Mas esse esforço todo valeu a pena?

Financeiramente, talvez NÃO. Apesar de ele dizer que recuperou 50% dos custos de manufatura dos dois primeiros discos desde Novembro [eles ainda estão saindo para as lojas, espaçadamente], recuperar o investimento vai demorar muito mais. “Talvez meus filhos recuperem”, ele diz, rindo. Dinheiro, pelo jeito, não é a questão aqui. Hutchison me diz, com óbvio orgulho, que quando um colaborador da revista estadunidense Stereophile colocou as mãos no box de Mozart, “ele disse que era o disco mais caro que ele tinha, mas de longe o melhor. E isso foi um grande prêmio: o sucesso pra mim gira mais em torno de ter o respeito de pessoas como essa do que o lado financeiro.”

Também gira em torno de chamar atenção para tecnologias superiores que foram negligenciadas no processo para tornar tudo mais barato e mais conveniente. Seria fácil ler o projeto como uma crítica à era digital, e de fato, Hutchison o represente abertamente de tal modo. “Não se trata apenas do vinil”, ele diz a certa altura. “Se trata de toda uma filosofia: é a estética, é o som, é tudo.”

Em termos de experiência auditiva, o digital, ele afirma, “é o grande cambalacho. Eles disseram que os CDs eram indestrutíveis, mas eles não eram. Eles disseram que o som seria melhor, mas com o MP3 estamos provavelmente no ponto mais baixo da história do som. É um arquivo comprimido. Se você tentar tocar uma orquestra através de um sistema de som apropriado alimentado por um MP3, é simplesmente um lixo.”

Hutchison tem mais críticas a tecer sobre a cultura digital – nós nos tornamos escravos de nossa tecnologia, das distrações dos celulares e redes sociais, isso ameaça a criatividade – mas eu penso, esse projeto é de fato o melhor meio de transmitir tais argumentos? O quão eficiente pode ser uma filosofia exposta ao povo se ela custa centenas, até milhares de Libras para ser comprada?

Hutchison reconhece que a exclusividade é um problema. “Recebemos alguns comentários de pessoas dizendo, ‘eu queria poder comprar esses discos, por que é que eles têm que ser tão elitistas?’ O motivo é simplesmente o quanto custa para se fazer essas coisas – é meio que como a Aston Martin fabricando carros sem lucro nos anos 60. Mas eu acho que agora que a tecnologia se estabeleceu, podemos vislumbrar fazer algumas coisas que sejam mais acessíveis a algumas pessoas.”

Em julho, a Electric Recording Company lançará seu terceiro compêndio, uma gravação estéreo de 1959 de Leonid Kogan tocando Beethoven ao violino em concerto, conduzido por Constantin Silvestri. Mais para frente, Hutchison planeja passar além do erudito para o rock, jazz e outros gêneros com maior apelo, o que ajudaria a abaixar os preços de algum modo. “Eles venderiam mais, então poderíamos prensar mais e talvez deixá-los na marca das 100 libras [455 reais]”, ele diz.

Ainda não totalmente convencido, eu pergunto a Hutchison se seus produtos são para audiófilos e ninguém mais, ou se o ouvinte comum conseguiria notar a diferença em qualidade de som. “Qualquer um conseguiria”, afirma. Para provar, ele coloca um dos LPs de Bach em um toca-discos e abaixa a agulha. Preenchendo um espaço de mais de meio século, o violino de Johanna Martzy começa a tocar. Não é só a música que é extraordinária: o som é quente, texturizado, com lindas nuances. Nós todos ficamos sentados, em silêncio, por alguns momentos, maravilhados com a nitidez. Exceto por alguns estalos aqui e ali, é perfeito.

 

 

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