CD vs Vinil: não diga que o som do vinil é melhor – porque ele não é

Por NICK SOUTHALL para o site SICK MOUTHY

Vejam só esse cara, que ensinou a seu filho de 13 anos a “enorme alegria de se ouvir a discos de vinil” por meio do festival de nostalgia da mitologia do rock pintado de rosa de Cameron Crowe, “Quase Famosos”.

A cena particular em que o papai nostalgia divaga sobre – “Quando o jovem aspirante a jornalista musical tem sua mente libertada por sua irmã mais velha, que lhe deixa sua coleção de LPs debaixo de sua cama quando ela deixa a casa” – não ´é exatamente sobre o vinil; é sobre música, e a adolescência, e a família, e sentir falta de alguém, e um milhão de outras coisas. O fato que a música esteja no vinil é um acidente cronológico porque o filme se passa nos anos 70 e é tão importante para o impacto emocional como o fato de que a colcha da cama é feita de poliéster.

Eu poderia ficar bravo e xingar ao papai nostalgia – por descrever a Miles Davis e Art Blakey como “trutas”, por ensinar a seu filho que as experiências adolescentes de seu pai são mais válidas do que sair e formar suas próprias; por fazer seu filho ouvir a Dire Straits e a ‘Dark Side Of The Moon’; por confundir mitologia e besteirol com significância e realidade vivida – mas eu já escrevi um artigo sobre todo o lado mitológico do debate vinil vs. CD, e então eu, ao invés disso, vou coletar algumas evidências concretas e tecer um argumento fundamentado com frases de apoio de pessoas que entendem muito mais de vinil e CD como formatos do que eu entendo. Porque você pode citar Henry Rollins e sua idiopatia sobre bolachões e sobre “o sublime estado de solidão”, ou você pode citar o cara do Pere Ubu dizendo que a distorção do vinil “NÃO é o que queríamos” e postar um link para ele explicando exatamente o porquê.

Porque, francamente, tem havido uma caçambada de postagens em blogs, artigos e listinhas de merda esse ano me dizendo o quão ótimo é o vinil, e nenhum deles continha qualquer evidência além de pontificação quase egocêntrica. “O vinil é demais! Tem um som quente! Você pode manuseá-lo! A arte é enorme! Tem como você enrolar um baseado em cima dele!” Isso é texto pós-blog da pior qualidade, o tipo de mentalidade tacanha frente à qual estamos em risco de confundir como jornalismo [e pior, substituí-lo com tal coisa], onde só o que você precisa é uma opinião e um sentimento e algumas pessoas para darem “Curtir” ou “Compartilhar” para dar àquela opinião uma validação instantânea, mesmo que ela não seja baseada em absolutamente nada.

Peguem o artigo do Buzzfeed [Me desculpe, Matt; eu sei que é seu trabalho e entendo completamente o porquê de textos como esse terem que conviver com coisas legítimas]; metade do que ele aponta como sendo qualidades do vinil são elementos horrendos que eu odeio [ruído de superfície; vasculhar caixas em lojas de usados; nomes super-específicos de gêneros nas lojas independentes que agem como guardiões ofuscantes dos portais ao invés de auxílios para se buscar algo], e a outra metade é completamente incidental e não pode ser ‘desfrutada’ com CDs [um fabuloso par de caixas; colocar coleções em ordem alfabética; dar apoio a lojas independentes de discos; conhecer uma menina bonita enquanto procura]. Nem o papai nostalgia nem o hipster fetichista substancia qualquer uma dessas proclamações com provas, pesquisa ou fato; eles só fazem afirmações e alusões vagas e pressupõem que o peso da mitologia do rock as sustente. Bem, eu odeio mitologia do rock e sempre odiei.

Belo contexto.

Alguns meses atrás, eu dei a ideia de uma matéria para a [revista inglesa] NME sobre os méritos relativos do vinil e do CD, com focos específicos nos efeitos colaterais negativos que o atual ressurgimento do vinil em vendas está causando. Dan Stubs, editor da NME, disse sim, e solicitou 600 palavras sobre o tema a mim, as quais foram publicadas alguns meses depois. Infelizmente, Dan e a NME têm estilo e prazos e leitores e anunciantes para levarem em consideração, e 600 palavras não foram o suficiente para explorar esse tema enorme, divisor e cheio de disse-me-disse, e eu tinha muitos, muitos pensamentos, citações e evidências sobrando, então vou usá-los todos aqui.

Um dos principais tópicos abordados no meu artigo para a NME fora essencialmente que a demanda por vinil está superando a oferta, fábricas com prensas de vinil não dando conta de prensar vinil tão rapidamente quanto conseguiam no passado, já que nenhuma nova máquina de prensar vinil foi fabricada desde 1981; logo, a indústria está dependendo de maquinário velho. Tecnologia defasada + demanda crescente = qualidade decadente. O vinil é usado como ferramenta de propaganda, e tem se tornado um símbolo de produto Premium, prometendo a você MAIS do que o CDF; a experiência alusiva da qual tão poucas pessoas parecem poder qualificar ou quantificar apropriadamente.

Ele tem preço, embalagem e é vendido de acordo com isso, mas muitas vezes não cumpre a proposta que deve, já que deveria ser Premium. Lembre-se que o anverso redentor de um disco é reproduzir música, não ficar bonito em uma estante.

Então eis aqui o que [o renomado produtor estadunidense] Steve Albini tem a dizer sobre os méritos e deméritos do vinil transparente, preto e colorido no site The Quietus; desça até a penúltima pergunta, que começa com: “Há um argumento teórico aí, de que o cloreto de polivinil é incolor, então se você acrescentar algo para o colorir, você está mudando um pouco aquela química, e isso tem potencial para fazê-lo soar não tão bom com tais inclusões.” A conclusão? Vinil colorido novo provavelmente soa como merda a maior parte do tempo, e é um gracejo, uma peça de ‘valor agregado’ feita para fazer com que você compre um disco em um formato ao invés de em outro [tipo, comprar qualquer um, ao invés de baixar]. Discos para se olhar, e não para se ouvir.

Mas Albini não tem nada conta o vinil como formato, desde que produzido apropriadamente, e tudo bem. Algumas pessoas são diferentes. Eis o que David Thomas do Pere Ubu tem a dizer sobre mitos técnicos a respeito do vinil em seu website: “A ‘quentura’ putativa do vinil é outros desses alaridos de histeria em massa aos quais a raça humana é pré-disposta. ‘Quentura do Vinil’ não é nenhum fenômeno indefinível semimístico. Há de fato um termo técnico usado pelos engenheiros de áudio para o que você está ouvindo – se chama distorção. Não passa de distorção. Claro, a distorção é uma ferramenta de valor no áudio, e uma das favoritas o Ubu, mas só quando a distorção é a distorção que nós escolhemos. Você pode até gostar do fenômeno, mas isso NÃO é o que queríamos, e NÃO é o que ouvimos no estúdio.”

O que parece contradizer o que algumas pessoas afirmam em relação ao vinil ser mais fidedigno em som à fita master do que o CD o é. David Thomas não é o único a pensar desse modo; eis o que David Brewis, da Field Music me disse via Twitter dia desses: “Quando estamos confeccionando um disco, eu tenho que me abstrair das deficiências inerentes às prensagens em vinil, apesar de eu gostar dessas mesmas deficiências nos discos de outras pessoas – especialmente quando combinadas com o elemento ‘sente e ouça’. “Então o vinil é deficiente, não é o som que as pessoas ouvem nos estúdios de gravação, e não é necessariamente como elas querem que você ouça seus discos, mesmo que seja algo divertido.

Michael Jones, um pôster adorado do site ILX que trabalha com mídia digital em algum lugar, e que foi co-engenheiro do disco de estreia do The Clientele, ‘The Violent Hour’, e masterizou várias compilações do Matinee em CD, pegou pesado na ciência ao postar no ILX cerca de uma década atrás sobre os mitos e conceitos errôneos sobre o que o CD e o vinil oferecem, desde a resolução relativa até as taxas de sampling até a reprodução de ondas analógicas e os felizes acidentes eufônicos sobre os quais David Brewis se referiu. Os pontos altos e chave incluem:

Você está dizendo que áudio em 24/96k pode se comparar a um bom vinil? [Eu me dou conta de que não é realmente comparável e que há muitos outros fatores envolvidos]

“Bem, qual é a resolução de um bom vinil?  EM TERMOS DE TEORIA DA INFORMAÇÃO [RESOLUÇÃO = FAIXA DINÂMICA X LARGURA DE BANDA], O VINIL FICA QUILÔMETROS ATRÁS – não chega nem perto de 16.44. É um erro pensar que um sistema analógico seja mais ‘natural’ ou tenha mais riqueza de detalhe. Cada gravação e cada sistema de reprodução possuem suas limitações.”

Existem circuitos que possam prover uma interpolação suave [analógica, na verdade] entre os x níveis disponíveis em uma gravação digital? Algum bom player digital faz isso?

“”Todos” os equipamentos digitais fazem isso. Não há falhas ou pontes no som – uma onda analógica contínua é reconstruída da informação sampleada. O Teorema de Nyquist estabelece que nós só precisamos samplear uma onda que equivalha pelo menos a duas vezes a maior frequência dentro dessa onda para coletar um registro completo doa dados. Agora, limitar a largura de banda de um sinal musical até acima do que o limite superior da audição humana pode produzir seus próprios problemas, mas podemos afirmar com certeza que a amostragem subsequente não acrescenta ou retira nada.

“O número fixo de níveis de amplitude associado com o digital significa um limite a como pequenas mudanças sucessivas na amplitude possam ser – mas com o sinal analógico e seu ruído auto associado maior, os limites são ainda mais restritivos. O ruído cobre qualquer coisa menor do que ele. Então há ‘menos’ resolução no domínio da amplitude no sinal analógico, apesar de ele ser um sistema contínuo.”

Há alguma razão pela qual LPs possam soar melhor?

“Há muitos artefatos associados com a reprodução de vinil que não desaparecem mesmo com os toca-discos mais exóticos ou prensagens mais pristinas. Felizmente, muitos desses artefatos são eufônicos – anomalias de fase expandindo magicamente a imagem do estéreo, a ressonância do braço, aquecendo as faixas médias de frequência, causando o tom sedoso. É MAIS UM CASO DO QUE O VINIL AGREGA À REPRODUÇÃO, DO QUE O QUE O CD OMITE. Passou disso, é questão de preferência.”

Por que não assistir a ele dizendo isso em pessoa no YouTube? A falácia do ‘mais fidedigno à fita master’ também é mencionada aqui.

 

Graham Sutton é geralmente meu referencial como produtor musical e cara da técnica quando eu preciso de uma citação sobre compressão de faixa dinâmica ou distorção. Infelizmente, ele estava fora do país a trabalho quando eu escrevi o artigo para a NME, mas eis uma citação de uma entrevista que fiz com ele alguns meses atrás e que já tem bastante relevância por si própria:

“Como estético, pelo tipo de música que estou fazendo, eu também descobri que não gosto do som da fita. Eu não quero que o meio altere sonicamente o que estou ouvindo, eu quero uma resposta linear e eu não gosto de chiado. Eu acho que parte da má reputação do som digital é porque os engenheiros dos primórdios do CD tentaram aplicar os mesmos truques utilizados em fitas ao digital sem consultar seus próprios ouvidos, e as coisas vieram excessivamente brilhantes e duras como resultado. Também há um apego sentimental no mundo do rock, que se apoia no elitismo, ao analógico – o cheiro da fita e o amor por máquinas grandes, velhas e empoeiradas – isso não acontece muito em outras áreas da música, por exemplo, no clássico, jazz, EDM, rádio, filme, onde esse debate acabou há muito tempo.”

Assim, o amor pela quentura analógica parece ser uma ressaca roqueira, um cobertor aconchegante para uma indústria, que, 40 anos atrás, pensava pra frente, na vanguarda, mas que agora é retrógada, paranoica e hesitante. Examinando os discos que eu comprei e gostei em 2013, e há menos e menos ‘rock’ [e pop ou gêneros associados ou o que seja] e mais e mais eletrônica, jazz, avant-garde, chame do que quiser. Isso tem sido uma tendência crescente em minhas preferências já faz um tempo.

Se você quisesse realmente, você poderia visitar os fóruns de Steve Hoffman e envolver-se em algumas das trocas de ofensas do debate vinil vs. CD que rolam com frequência por lá. Nenhum dos lados fica com uma imagem lá muito boa no fim das contas, e é muito fácil despencar em um buraco de minhoca de audiofilia, no que eu não tenho o menor interesse.

Alguns anos atrás, eu me envolvi bastante com fones de ouvido e passei tempo demais [e gastei dinheiro demais] no [site] Head-Fi, onde notei que as pessoas descreviam os fones da Sennheiser como ‘velados’ em termos de som, o que queria dizer que o som de característico era escuro, e apagava detalhes um pouco através de uma fica camada de distorção ou falta de foco. A descrição é como eu ouço ao vinil, sem tirar nem pôr; é como se alguém estivesse segurando uma camada de cortina de rede entre os falantes e meus ouvidos, o que afeta a claridade e o espaço, e me impede de perceber alguns detalhes sônicos. Para mim, muito da mágica do som gravado é o quão psicodélico e espacial ele pode ser, e a claridade é uma grande parte disso. A mitologia não o é, e apesar de eu gostar do fato de que temos prateleiras cheias de CDs e eu tenho que tirá-los e coloca-los um de cada vez em um CD player, isso é menos ritualístico e mitológico do que é conveniente e concentrador, além do que eu não me sinto como um estagiário de um departamento de coleta de dados.

Eis outra listinha de merda composta pelo Matt, exceto que essa não é de merda, e faz algum sentido, pelo menos se admitirmos que grande parcela do fanatismo com o vinil se trata de estética e estilo de vida, e não de qualidade do som.

Então eu acho que dizer que o CD é melhor que o vinil, em termos de fatores mensuráveis objetivamente técnicos, frios e duros, como faixa dinâmica, resposta de frequência e resoluções, mas esse não é o x da questão aqui: o principal é que eu prefiro o CD, ele se encaixa em como e por quê eu ouço muito melhor com ele do que com qualquer outro meio. O vinil soa diferente, e se você o prefere, beleza – APENAS NÃO ME DIGA, SEM PROVA, QUE ELE É ‘MELHOR’. Porque não é.

A propósito, não vamos mais associar e confundir os termos ‘vinil’ e ‘LP’: ‘vinil’ é o formato, o meio. ‘LP’ é abreviação de ‘Long Play’, e é referente à duração do conteúdo fornecido pelo formato. Minha ‘coleção de LPs’ está majoritariamente em CD, e é assim que eu gosto.

Para Concluir: algumas pessoas têm me perguntado porque eu não simplesmente não ouço MP3 [ou qualquer outro tipo de arquivo digital]. A resposta é bem simples: eu prefiro vasculhar por prateleiras do que databases quando escolho qual disco ouvir. Acessar e manter uma coleção digital de música em sua maior parte me faz sentir como um estagiário de coleta de dados. Eu costumava curar bancos de dados de bibliotecas para viver. Eu não queria que isso fosse meu hobby.

 

 

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