SACD: Formato não fracassou, mas a qualidade do que você ouve sim

SACD

Por Gilbert Hetherwick para o AudioBuzz em 20 de novembro de 2014.

Como estudante e grande fã de história da política… eu tenho desfrutado enormemente de uma vasta gama de livros do tipo “E se…” que povoam livremente o site da Amazon.

E se Kennedy tivesse ‘ouvido a seus generais’ que o aconselhavam a bombardear Cuba? Ou e se a Inglaterra e a França tivessem confrontado Hitler em 1938 por causa da Checoslováquia? Ou e se a tempestade de areia não tivesse atingido a missão de resgate no Irã promovida pelo Presidente Carter pouco antes da eleição de 1980?

A lista não tem fim.

Eu sei… é meio absurdo comparar ‘e se’ de pontos vitais da história da política com as guerras entre os formatos musicais.

Mas o que é que eu posso dizer? Eu sou apaixonado pelo assunto!

Eu recentemente me dei conta de que meus vinte e cinco anos trabalhando para gravadoras refletiam quase perfeitamente o ‘arco’ completo da vida do Compact Disc.

Nos últimos anos de minha carreira trabalhando em gravadoras… eu era um grande apoiador do formato SACD. E agora que a indústria musical ruma para sua extinção total [com NENHUM artista chegando a disco de Platina em 2014] … eu me pergunto…

E SE… a indústria musical tivesse comercializado apropriadamente a ideia de um disco de áudio com qualidade superior [SACVD} do mesmo modo que o fizera ao lançamento inicial do CD? Seria possível que a indústria estivesse em uma posição melhor hoje em dia?

Claro… o fenômeno do download teria acontecido mesmo assim.

Mas eu acredito mesmo que caso o valor tivesse sido agregado e uma experiência auditiva mais intensa com o SACD [do qual somente a camada de menor definição poderia ser ‘ripada’] … e o formato tivesse alcançado aceitação em massa e estivesse disponível em todos os lançamentos… talvez hoje em dia poderíamos ter um formato musical FÍSICO muito mais saudável e viável.

Claro… você pode argumentar que o público possa talvez perceber as melhorias na qualidade com os elementos visuais do Blu-ray quando os compara com os DVD mas não quando se trata do SACD… mas o conceito do público adotar melhorias tecnológicas em massa tem com certeza um longo histórico com outros produtos.

Tudo tem a ver com comprometimento do marketing. E com o SACD… isso não existiu.

E eu estava lá para testemunhar a tudo isso.

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Para ter uma perspectiva apropriada, você precisa voltar à luta original entre a fita VHS e o formato Betamax da Sony.

A Sony introduziu o Betamax e o gravador de vídeo em 1975, e rapidamente foi seguida pela introdução do VHS pela JVC. A Sony queria ‘dominar o mundo’ das fitas de vídeo ao manter as patentes e controla-las sozinha, enquanto a JVC licenciou o formato VHS para outras corporações e marcas, vencendo assim a guerra dos formatos. Isso tudo apesar de o Beta ser um sistema bastante superior à época.

A Sony aprendeu a lição e quanto chegou a hora de desenvolver o CD… eles aliaram forças com a gigante europeia dos eletrônicos Philips em 1979.

A Philips queria um disco que coubesse na largura de um ‘rádio’ automotivo padrão e a Sony [comandada na época pelo maestro em meio-período Norio Ohga] queria poder encaixar toda a Nona Sinfonia de Beethoven em um único disco.

Assim eles ‘retrocederam’ para uma resolução de 44.1/16 bits… que eventualmente provaria ser inadequada para reproduzir fielmente a profundidade e os detalhes dos melhores registros fonográficos analógicos e toca-discos.

Depois… a tecnologia da compressão e do ‘layering’, avançaria ao ponto onde discos do mesmo tamanho poderiam ser prensados para serem DVDs… e eventualmente SACDs… contendo muito mais informação digital.

Mas ao mesmo tempo… as restrições físicas ditavam a resolução inferior.

Meus próprios derradeiros anos trabalhando no varejo musical coincidiram com o primeiro lançamento do CD em 1982 e eu testemunhei o ataque da indústria com o formato de perto… com banners de tecido… pôsteres… e materiais de exposição… cobrindo lojas mundo afora.

Matérias positivas na imprensa eram divulgadas em publicações internacionais à medida que as grandes gravadoras… assim como selos independentes como Chesky e Telarc… abraçaram o CD junto com público.

A Philips… que era dona da Polygram na época… liderou os lançamentos em CD e foram seguidos pela CBS, Warner, RCS e a MCA. A EMI chegou meio tarde para o jogo… assim como já haviam chegado com o estéreo e outras inovações no passado.

Por volta desse período… para reduzir seus riscos, a Sony começou a comprar empresas de entretenimento produtoras de conteúdo artístico para ajudar a direcionar seus desenvolvimentos de hardware. Em 1987, eles compraram a CBS Records… e depois compraram a Columbia em 1989. Eles acreditavam que isso ajudaria a resolver o problema que eles tinham tido no passado com o lançamento do Betamax.

Depois de comprar suas duas divisões de entretenimento nos EUA, a Sony Japonesa sabiamente cedeu total independência às equipes de gerenciamento estadunidenses já que a empresa entendia que os estadunidenses sabiam melhor como administrar empresas de entretenimento.

Com um fronte totalmente unificado cobrindo toda a indústria, a expansão do CD foi enormemente bem-sucedida, e o formato se tornou o principal portador de conteúdo musical em poucos anos. Também não havia nenhum formato competidor significante no mesmo período.

Nos anos seguintes, os lucros explodiram, à medida que os consumidores substituíam décadas de compras em LP por Compact Discs.

Eu me lembro de quando eu era gerente regional de marketing da Polygram Classics [D.G., London & Philips] em 1987… eu perguntei em uma reunião nacional onde todos celebravam nossas vendas sem precedentes: “O que acontece quando nossos consumidores tiverem substituído toda sua coleção de LPs por CDs?”

Ao que meu completamente alheio chefe daquele tempo respondeu: “Você levantou uma pergunta excelente, e ela deveria ser abordada”. Claro que ela nunca mais foi discutida.

Em 1992, a Sony decidiu exibir sua nova força corporativa ‘sinergética’ com a introdução do MINI-DISC. A empresa-mãe [através de sua divisão de eletrônicos] pressionou suas gravadoras nos EUA para lançarem gravações em um formato que eventualmente nunca decolaria fora do Japão. O fato de os discos também encorajarem gravação doméstica com qualidade digital não cativou a muitos na indústria, que viam o formato como uma ameaça à proteção de direitos autorais naquele tempo. Tal como o Betamax, o Mini-Disc foi um formato unicamente da Sony. E tal como o Betamax – acabaria fracassando.

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Daí, em 1998, a Philips vendeu a Polygram para a Seagrams.

Isso acabou com a aliança da empresa entre a divisão de eletrônicos e a musical. Então, a menos que a nova empresa do ramo [que agora se chama Universal Music] estivesse planejando promover a venda de álcool, não haveria mais nenhuma ‘sinergia’ com o quartel general da companhia no que tangia a futuros desenvolvimentos de negócios.

Depois do fracasso do Mini-Disc, a Sony decidiu aliar-se mais uma vez à Philips para o lançamento de promoção do Super Audio Compact Disc de alta resolução [ou SACD] em 1999.

Afinal, a aliança anterior tinha dado muito certo para o lançamento do CD.

Ao longo dos anos, a empresa musical da Sony tinha se tornado ainda mais distante da matriz japonesa e os executivos da divisão musical estadunidense também estavam amargurados por, ao longo dos anos, terem promovido o Mini-Disc para um público desinteressado. Havia pouca sinergia entre as diferentes divisões da empresa e a matriz só viria a ganhar qualquer tipo de apoio ao SACD ao bancar financeiramente os lançamentos dos selos musicais. E com a Philips não mais dona de uma gravadora, repetir o tipo de suporte dado ao lançamento inicial do CD era impossível.

A Sony também tomou a terrível decisão inicial de prensar os discos em SACD produtos separados de seus CDs tradicionais [enquanto outras gravadoras lançavam discos ‘híbridos’ com várias camadas e que tocavam em qualquer um dos aparelhos. Não só os lançamentos da Sony em SACD eram mais caros do que seus equivalentes em CD, mas as duas versões também exigiam que seus selos e varejistas tivesse inventários separados dos mesmos títulos.

Ele estava condenado desde o início.

Diferente do lançamento internacionalmente unificado do CD dezessete anos antes, houve pouco barulho… banners, pôsteres, imprensa ou entusiasmo fora das empresas de hardware e dos costumeiros audiófilos e selos de música clássica.

Na Sony Music, com os primeiros lançamentos não sendo ‘híbridos’ [assim exigindo a compra de um aparelho novo], as vendas foram pífias.

A negatividade rapidamente contagiou os executivos ao longo de todas as grandes gravadoras.

Eu também acredito que não ajudou o fato de que a maior ênfase parecia ter sido dada ao aspecto do som surround, nas esperanças de colocar ‘cerejas no bolo’, ao invés da resolução amplamente melhorada e o realismo sônico. Houve comparação imediata com o fracasso das gravações quadrofônicas nos anos 70, e não ajudou tampouco quando o formato rival [DVD-Audio] foi introduzido e apoiado pela Warner Brothers e outras.

Tendo ‘crescido’ no ramo fazendo marketing para a Telarc nos anos 80, e também sendo um músico que possui equipamento de gravação decente desde que comprei minha primeira mesa de meio canal em 1978, eu sempre fui um entusiasta de quaisquer avanços no áudio. Então, de cara, eu era uma grande ‘cheerleader’ do SACD.

Infelizmente, quando o SACD fora lançado, eu estava trabalhando na EMI, onde não houve apoio ao formato por parte dos chefões de Londres.

A EMI chegara tarde ao estéreo, atrasada ao CD, e NUNCA apoiou o SACD.

Mas, como gerente-geral da divisão estadunidense da EMI, a Angel Records, eu pelo menos fiz o esforço de insistir que todos os produtos lançados pela Angel fossem masterizados em alta resolução. Assim, pelo menos o material existiria nos arquivos para quiser futuros formatos em HD. Apesar de que, hoje em dia, provavelmente ninguém sequer saber que tais másters existam!

Felizmente, quando fui trabalhar para a BMG Music em 2003, meu chefe Stefan Piendl, de Munique, era um grande apoiador do SACD, assim como nosso chefe Nick Firth em NYC. Então, a maior parte de nossas produções de música clássica na época estava sendo lançada em SACDs híbridos. Isso incluía uma série maravilhosa de gravações produzidas em Munique por Nikolas Harnoncourt [um de meus maestros favoritos de todos os tempos].

Percebendo as possibilidades apresentadas pelo elemento 5.1 do SACD, eu tive a ideia de remasterizar as lendárias gravações ‘Living Stereo’ da RCA da era dourada do prestigiado selo. A maioria dos LPs tinha sido gravada originalmente em três canais [esquerdo, direito e central] e então mixados em masters estéreo em LP de dois canais. A ideia era usar os três canais dianteiros do 5.1 de modo que os ouvintes pudessem ouvir às primeiras gerações dessas incríveis performances do mesmo modo que os produtores e músicos o fizeram às sessões originais.

Eu falei com vários engenheiros de renome sobre assumir o projeto, mas só quem realmente ‘entendeu’ foi John Newton e sua empresa ‘Sound Mirror’ em Boston. Os caras da Sound Mirror METERAM A CARA no projeto e enormes caixas de fitas master foram despachadas para Boston. Revisitar as multipistas originais significavam não somente remasterizas as gravações, mas também recriar todas as edições originais que haviam sido feitas posteriormente a partir dos masters finais de dois canais para LPs. John e sua equipe fizeram um trabalho incrível e até hoje, a ‘luz verde’ para relançar esse projeto é um dos feitos em minha carreira dos quais mais me orgulho.

Depois da fusão entre a BMG e a Sony Music em 2004, eu me tornei presidente da recém=unificada divisão de música clássica, e a rebatizei como Sony BMG Masterworks, ressuscitando o lendário nome do selo da época antes de a Sony ter comprado a CBS Records.

Tendo sido o único selo na BMG a apoiar o formato SACD totalmente, eu achava que as futuras produções em SACD seria bem-vindas pela Sony.

ERRADO!

Em uma de minhas primeiras reuniões com os ‘picas grossas’, enquanto eu falava entusiasmadamente sobre o formato SACD, meu superior imediato à época disse, ‘Por que é que a música precisa de som surround? O que você vai fazer, colocar uma bateria no fundo da sala?’

Enquanto eu tentava explicar a habilidade do som 5.1 em recriar uma imagem sônica tridimensional, ao contrário da imagem ‘achatada’ do estéreo, eu podia perceber pela cara deles do outro lado da mesa que a discussão não ia dar em nada e logo aprendi que a divisão musical da Sony tinha abandonado o formato.

Parecia que os executivos da Sony Music tinham se tornado DESAFIANTES ao rejeitarem a pressão da matriz que determinava o apoio futuro ao SACD. A relação em torno da questão parecia de fato adversária. Não havia simplesmente ZERO de sinergia, havia sinergia NEGATIVA! Mas isso não me impediu de, muito discretamente, continuar a produzir todos os novos lançamentos da Masterworks como híbridos em SACD.

Eu sabia que os mundos do clássico e da audiofilia ainda seguiriam apoiando o formato. E pra ser honesto – havia tanto caos e confusão na época por causa da fusão entre as duas empresas que ninguém parecia perceber que estávamos lançando SACDs no fim das contas.

Daquele ponto em diante, tivemos muito cuidado para NÃO LEVANTAR A VOZ sobre o fato de os lançamentos estarem sendo feitos em SACD e fomos cuidadosos para incluir o mínimo de informação na parte externa da embalagem que denunciasse o fato. Eu sabia que os audiófilos do mundo saberiam distinguir um SACD pelo número de catálogo nas publicações especializadas. E já que eles eram ‘híbridos’, eles ainda seriam reproduzidos normalmente em CD players tradicionais.

Isso nos manteve ‘na surdina’, mas também, infelizmente, fez muito pouco pela futura promoção do formato.

Um dia, minha assistente Amy veio me dizer que alguns dos executivos do alto escalão da divisão de hardware da Sony no Japão estavam na cidade e queriam falar comigo.

Eu não fazia ideia do que eles queriam e quando nos sentamos para conversar, a primeira coisa que um deles me disse foi, “Você é um HERÓI no Japão!”

Aquela CERTAMENTE foi a primeira vez que alguém me chamou de ‘HERÓI’ de qualquer coisa… e meu queixo deve ter caído antes de eu pergunta-lo porquê.

Ele explicou que era porque a Masterworks ainda lançava SACDs.

A reunião havia sido marcada para me perguntar se eu poderia ajudar a convencer os selos populares da empresa a fazer o mesmo.

Eu rápida e veementemente expliquei que não só eu NÃO poderia ajudar a convencer os outros selos, mas que se eles próprios mencionassem aquilo a qualquer pessoa, provavelmente me mandariam parar!

Eles saíram do meu escritório e eu nuca mais ouvi falar deles.

Quando saí da empresa em 2006 [e você não foi despedido PRA VALER até que você tenha sido demitido e isso apareça no New York Times!] a divisão parou quase totalmente de lançar SACDs, e o formato rapidamente se transformou em algo usado primariamente por selos de audiófilos e de música clássica.

Apesar de o SACD ter essencialmente falhado como um produto de consumo em massa, pelo menos ele encorajou a masterização em alta definição de muitas gravações.

O que tem sido uma ÓTIMA fonte de material para sites como o HDTracks hoje em dia.

Seja através de SACDs ou downloads do HDTracks, não há nada que eu goste mais do que convencer meus amigos sobre o som do áudio em alta definição.

Talvez eu seja um ‘sonhador’, mas quando eu vejo as pessoas sentadas em meu sofá e olhando espantadas para meus falantes de estúdio quando eu toco áudio em alta definição, eu TENHO que acreditar que, caso ele tivesse sido devidamente divulgado0 e comercializado, o SACD teria sido um sucesso do mercado musical em geral.

E hoje em dia, poderíamos ter um mundo viável de vendas de conteúdo musical em um formato FÍSICO.

E o negócio de todo mundo poderia estar indo melhor das pernas.

Nós não tínhamos de fato que RETROCEDER para um mundo e MP3, arquivos vagabundos da Apple, e agora ao horrendo Spotify.

A música merece mais!

Mas pelo menos hoje em dia ainda temos ao HDTracks liderando a corrida em busca de maior qualidade e realismo na reprodução fonográfica.

 

 

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