Phil Rudd: “Eu vou aceitar meus erros”

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Quando a revista bretã CLASSIC ROCK, através do jornalista ROD YATES, entrevistou PHIL RUDD três meses atrás, mal podiam imaginar o que estava rolando nos bastidores.

[…]

No começo de agosto eu fui solicitado a entrevistar Phil Rudd duas vezes – primeiro pelo telefone e então, na véspera do lançamento de seu disco solo, ‘Head Job’, pessoalmente, em Sydney. Naturalmente, foi contato cara a cara que me marcou mais, por várias razões.

Apesar de sua postura jovial [e da moça o acompanhando], eu rosto estava marcado pelo tempo e pelo excesso. Ele também falava em um murmúrio parcamente audível que escondia muito do que ele estava dizendo

Ele era, contudo, claramente um homem vivendo uma vida privilegiada, mesmo que ele não tivesse tido uma criação nababa. O hotel dele era um de cinco estrelas no porto de Sydney; seus óculos escuros eram Prada; suas histórias de pilotagem de helicópteros, pescar em seu barco ou dirigir seus carros esporte eram coisas de playboy de Hollywood. Ainda assim, enquanto ele fumava um cigarfro Rothman atrás do outro e boquejava em seu sotaque australiano ‘tô pouco me fudendo’, ficou óbvio que seu coração ainda pertencia a classe trabalhadora. Uma vez proletário, sempre proletário.

Mais tarde naquela noite, na festa de lançamento de ‘Head Job’, ele ficou andando pela sala com o ar de um homem que tinha passado muito de sua vida tocando em uma das maiores bandas de rock do mundo. Não era nada petulante, mas ficava mais claro no modo que ele se projetava. De óculos escuros numa sala escura, tocando guitarra imaginária no seu taco de sinuca, falando apenas quando falavam com ele, essa era claramente sua festa, e esse era o território dele. Nada de conversa fiada, nada de pretensão, apenas o entendimento que aquele não era um homem com o qual se deveria bulir.

É fácil olhar pra esses eventos agora e reavaliá-los com o benefício de novas informações. Mas por mais memoráveis que meus recentes encontros com Rudd sejam, seria uma mentira sugerir que eu saí de lá pensando que ele era um homem que tramaria um assassinato – o que, no fim das contas, ele não é, já que tal acusação foi retirada menos de 24 horas depois de serem apresentadas conta ele [apesar de ele ainda enfrentar indiciamentos por posse de drogas e crime de ameaça].

Cabe ao judiciário da Nova Zelândia decidir se ele é culpado. Mas isso é o que aconteceu quando conheci Rudd.

 

Oito da noite de uma úmida noite de quarta-feira em Sydney, e um homem no bar está usando óculos escuros, apesar de as luzes estarem bem diminuídas. Ele parece velho, não há como negar, mas há algo eternamente jovial em sua aura. Ele está circulando a única mesa de sinuca no canto do pub, calculando sua próxima tacada, quebrando sua concentração somente quando a música ambiente o leva a tocar guitarra imaginária. Ninguém além do pequeno grupo em volta da mesa presta atenção a ele. A certo momento, ele balança sua ‘guitarra’ um pouco entusiasmado demais, derrubando um copo vazio da mesa, que atingir o concreto duro com um estampido alto, mas, de algum modo, não se quebra. Ele então vai até o bar, apontando para a mulher atrás do balcão, pedindo que ela aumente o som.

Se você não soubesse quem ele era, você acharia que ele era um bêbado assíduo da casa, na melhor hipótese. Mas o cara com a jaqueta de couro cara, mandando ver na guitarra imaginária, é Phil Rudd, o baterista do AC/DC, uma das maiores bandas do mundo. A música que ele está gostando tanto? A dele. Mas não é do AC/DC.

Ao invés disso, o rock que berra pelos falantes nessa sessão de audição aberta à imprensa é seu disco solo de estreia, ‘Head Job’, título que faz os sugestivos nomes de músicas do AC/DC parecerem coisa de criança. Um belo trabalho de rock sem frescura para tocar em bares, soa como um Motörhead menos raivoso, tocando para uma sede de um clube de motoqueiros. Soa descaradamente como rock antigo, isso provavelmente porque ele começou a compô-lo 25 anos atrás.

De todos os membros do AC/DC que as pessoas podem esperar que lancem um disco solo, Rudd talvez seja o menos cobrado. Ele tem um comando firme da batida, mas ele não tem o pulmão de Bom Scott ou de Brian Johnson, ou a destreza musical de Angus ou Malcolm Young. E enquanto ele tem muitos interesses – fora da música, você pode encontra-lo pilotando um helicóptero, pesando em seu barco na Baía de Plenty ou destrinchando um prato de costelas em seu restaurante, em sua atual residência em Tauranga, Nova Zelândia – nada sugere uma carreira solo.

Mais surpreendente ainda é que, para um homem que passou 40 anos, no total, dando a batida de uma das bandas mais altas do mundo, seu tom de fala é um pouco mais alto do que um sussurro. Um monótono, por assim dizer. O fato de ele falar em frases curtas e afiadas só complica o processo de entrevista.

A primeira vez que eu e ele nos falamos, ele estava telefonando de seu barco na Baía de Plenty. Ao longo de 15 minutos, ele revela o que presume que sejam pedaços e coisas a respeito de seu material solo, seu trabalho com o AC/DC que acaba de gravar um disco, e a vida em geral. O que pega é que impossível entender direito o que as palavras significam exatamente. Então você acaba com pedaços de frases ao invés de sentenças completamente elaboradas. Sobre como ele se sente por estar lançando seu primeiro disco solo, ele diz que está ‘muito animado’ porque ´é o primeiro disco que eu fiz sozinho’. Sobre ser a principal figura desse projeto quando ele passou sua carreira sendo suporte traseiro do AC/DC: “Eu nasci”, ele diz, sem aparente ironia, “uma figura principal”.  Pergunte a ele se ele teve que obter permissão do AC/DC para fazer um projeto solo, ele e responde: “Quando você está sozinho em casa você pode fazer o que quiser. Não há regras quando não estamos trabalhando. Quando estamos trabalhando, você aparece na hora certa, sem problema. Mas quando você não está, não tem que ler certo livro, ou ir a determinada igreja, você faz o que quer.”

Rudd entrou pro AC/DC em 1975. Oito anos depois, ele foi demitido por excesso de consumo de álcool e drogas. Ele se mudou da Austrália pra Nova Zelândia, onde ele buscou refúgio dos excessos do rock n’ roll, enquanto pensava no que faria com seu futuro. Daí ele encontrou o baixista e vocalista Allan ‘Badge’ Badger e o guitarrista Geoffrey Martin, dois músicos para os quais fama e fortuna não valiam nada, mas que se encontravam todo domingo para tirar um som apelas pela graça de fazê-lo.

Rudd sugeriu que o trio se unisse e tocasse algumas músicas. Daí um dia eles se encontraram em sua casa e ligaram os amplificadores. Ficou tão bom que o baterista decidiu construir seu próprio estúdio. No começo dos anos 90, eles haviam gravado oito faixas que eles gostaram o suficiente para enviá-las para a EMI nos EUA. O selo pediu pela permissão deles para que as mostra-las para Malcolm, e Angus Young. Logo em seguida, ele recebeu um telefonema deles pedindo que ele fosse de avião até Londres para tocar com seus antigos colegas de banda.

“Eu não sei se foram as músicas, ou fato de que eles ouviram seu antigo colega tocando e pensaram, ‘Ah, porra, gostamos disso ai!’”, disse Allan Badger na sessão de audição do álbum de estreia de Rudd. “Eles o ofereceram seu emprego de volta. O resto é história.”

Não é bem assim. Depois de terminar a turnê ‘Black Ice’ com o AC/DC, Rudd encontrou-se com Badge e sugeriu que eles repassassem aquelas músicas antigas que haviam gravado. Feliz com o que ouviram, eles procuraram por uma gravadora, e a Universal Music da Austrália e da Nova Zelândia decidiu lançá-las. Motivo pelo qual, 25 anos depois de encontrar os outros membros do grupo, o álbum de Phil Rudd finalmente esteja vendo a luz do dia.

Badge revela mais do que motiva Rudd, além do próprio Rudd. Ensaiar e gravar ‘não foi nada divertido’. Quando Rudd senta à bateria, ‘é para matar. Muita gente toca música enquanto pensa em outra coisa. No caso, nunca foi essa a situação.’.

O baterista acorda bem cedo. Tipo, ridiculamente cedo. Amanhã pela manhã, Badge será acordado às 3 da manhã quando Rudd tocar ‘Head Job’ no máximo em seu quarto de hotel. “Phil vive a vida das três da manhã até as nove da manhã”, ele lamenta. “Se você conseguir acha-lo durante o resto do dia, você está com sorte.”

Algumas horas antes da festa de lançamento, Phil Rudd aparece na sacada de seu hotel cinco estrelas em Sydney a acende um Rothman’s. Pelos próximos 20 minutos, seus pés não ficam parados, marcando a batida de uma música que só ele ouve. Por três vezes, ele se curvou para trás no meio da resposta e enfiou a cara dentro do quarto para perguntar sobre o equipamento de som do quarto, porque ele quer colocar ‘Head Job’ para tocar [“eu tenho ele no meu computador. Você sabe arrumar o iTunes. Eu não consigo nem fudendo.”].

Mesmo pessoalmente ele fala em um murmúrio parcamente audível; um gravador digital a centímetros de sua boca pega apenas fragmentos do que ele está dizendo. Com um aviso de antemão de seu empresário que essa não é a ocasião certa para perguntar sobre a saúde de Malcolm Young, o que é decifrado da conversa é o que segue abaixo.

Você gosta de ser o chefe?

Eu amo ser o chefe. Quando me permitem que eu o seja, eu sou o chefe. Eu aceito meus erros. Eu gosto de fazer do meu jeito.

Você compôs a maioria das músicas em ‘Head Job’. Você pediu alguma dica de guitarra a Malcolm ou Angus?

Na verdade não. Eles não sabiam nada a respeito.

Quando você votou para o AC/DC, você só tinha escrito oito músicas para ‘Head Job’, ainda que haja 11 músicas no disco. Quando você compôs as outras?

A Universal disser: “Tem oito músicas. Você tem como subir pra onze?” Você já assistiu a ‘Spinal Tap’? Daí parimos as outras.

Alguma delas fora escrita na estrada com o AC/DC?

Não. Quando eu estou com o AC/DC é só aquilo. Não sobre energia para fazer mais nada. Viagem e trabalho, você só aguenta tudo aquilo e sobrevive.

Você está mais animado em lançar esse disco do que um do AC/DC?

Eu não sei. Isso é diferente. O AC/DC é planetário, domina o mundo. Nós somos apenas três caras tocando no pub.

Você já levou ideias suas ao AC/DC?

Não. Angus, Malcolm e Bom escreviam as coisas, e daí veio Brian. Eles têm seu próprio estilo. Eu não os ofereceria nenhuma de minhas músicas. Meu material é mais relaxadão. Mais ainda tem certa pegada.

Você se lembra do seu primeiro show com o AC/DC?

Sim, foi no Hard Rock Café de Melbourne. Tocamos no festival de Sunbury três semanas depois de eu entrar para a banda. Saímos na porrada com o Deep Purple. Nós nunca levamos desaforo pra casa.

Como era estar no palco naquela época?

Diferente. Eu ainda lembro de estar logo atrás de Bom. Ele era um excelente vocalista, ele tinha uma voz linda. Quando eles remasterizaram alguns daqueles discos do AC/DC, você conseguia ouvi-la direito.

Você já mostrou alguma coisa de ‘Head Job’ para seus colegas de AC/DC?

Algumas vezes no hotel quando eu toquei as antigas fitas cassete. Tomávamos algumas cervejas e colocávamos. Eles perguntavam: “Quem é esse?” “Eu e mais dois kiwis peludos.”

O quão difícil foi o período em que você foi afastado do AC/DC em 1983?

Eu fiquei bastante feliz em me afastar daquilo. Eu estava desde 1975. Oito ou nove anos, é bem intenso.

Você acaba de voltar de Vancouver, onde gravou o novo disco do AC/DC. O que é que você pode dizer a respeito dele?

Eu não o ouvi finalizado, mas o que eu ouvi era impressionante. Eu estou tocando melhor do que jamais toquei. Eu não sei como.

Há muitos rumores sobre o AC/DSC e Malcolm Young. Seja lá o que estiver rolando, isso uniu vocês mais ainda enquanto gravavam?

Com o AC/DC, ou você luta por ele ou você está fora. Você tem que largar tudo pela banda. É uma força destruidora que você não pode parar.

E com essa resposta Rudd aponta com a cabeça para olhar o relógio. Ele tem que ir pro salão do evento em uma hora, e ele quer se arrumar. Haverá, muito provavelmente como ele diz, outra turnê do AC/DC, talvez antes do fim do ano, mas os detalhes param por aí. Phil Rudd volta andando pro quarto, focado apenas em achar um aparelho que o permita tocar seu disco solo a todo volume. A mensagem é alta e clara: por mais que ele ame seu emprego no AC/DC, nada é melhor do que um bom ‘Head Job’ [boquete, em inglês].

 

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