Lojas de Discos: a desgraça e o calvário de se trabalhar em uma

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Texto original de NEILL JAMESOM para a coluna DECIBLOG.

Faz mais de um ano que me cederam esse espaço. Mês passado, eu escrevi uma sequência para o primeiro artigo sobre o atual estado das lojas independentes de discos. Para deleite dos compradores casuais de discos da região sul de Nova Jérsei, eu recentemente terminei de cumprir minha tarefa depois de quatro anos, logo após publicar a matéria.

Trabalhar em uma loja de discos pode ser ótimo. Você está cercado por música o dia todo e é só nisso que você se concentra. Mas como tudo, isso pode te saturar. Você vê problemas com a ética de certas pessoas quando se trata de gravações piratas [ou ‘importados não-oficiais’, como se chamam nos EUA] ou se você vê as lojas vendendo CDs promocionais reembalados como se fossem novos. Você lida com clientes que podem estar tendo o pior dia de suas vidas e não queriam te desrespeitar, mas não importa.

Eu nunca fui uma pessoa convencionalmente ‘legal’, mas eu trabalho com o varejo faz muito tempo. Em algum lugar do tempo eu me tornei amargo. Por causa disso, eu cedi à pecha de crítico e esnobe que tantas pessoas parodiam da figura de atendente de loja de discos. Havia chegado a hora de eu sair dessa loja e seguir com a minha vida.

A primeira regra do ramo é que o grupo atacadista &* varejista Urban Outfitters é aparentemente agora o maior fornecedor de discos no país. Muita gente está escrevendo o obituário do disco de vinil porque os hipsters das regiões ricas não precisam mais pegar o metrô para comprarem discos no centro da cidade. Eles apenas têm que ir ao shopping. Eles estão preocupados com o fato de que o hobby deles agora é acessível a gente demais. Olha só, vai se fuder com essa lógica, falou?

— Você se esquece que no ano passado, a [rede varejista] Target e outras cadeias monstras de lojas também começaram a vender vinil.

As pessoas se apegam à exclusividade. A exclusividade de seu hobby, de suas coleções, mesmo das bandas que elas ‘amam’. Eu ouvia as pessoas se queixando quase que diariamente sobre como elas não estão mais interessadas em certas bandas ou em ir a seus shows porque ‘muita gente passou a gostar delas’. Essa ideia de querer algo para ser exclusivamente ‘seu’ mostra tamanho desdém pelos artistas e pelo que eles fazem. Deixa eu te perguntar uma coisa: apenas porque as pessoas curtiram uma banda que você também curte e agora esses artistas desfrutam de um módico sucesso e podem pagar as contas em dia ou pararem de comer sanduíches eles agora então perderam o que apelava a você no começo? Em, certos casos, quando uma banda muda para se ajustar à uma sonoridade popular, eu até entendo, mas isso é só em tipo, 20% das vezes que eu ouvi reclamações.

O crescimento da indústria do vinil para dentro do foco do mainstream trouxe muito mais paraquedistas do que eu poderia ter imaginado.  Fósseis de todo canto, alguns que cruzaram a ponta sobre o mata-burro para ver o primeiro show de Elvis, são atraídos pelas cores brilhantes e pelo cheiro de papelão embolorado. A quantidade de bosta que essas pessoas trazem achando que asseguraram suas aposentadorias é impressionante. Eu instituí uma política de ‘apenas mediante agendamento’ para comprar discos, mas ninguém presta atenção a isso.

Eu descobri que as pessoas mais grossas e raivosas da minha quebrada estão todas tentando vender suas juventudes. É algo estranho, ser rude com alguém que controla, caso valha, algum dinheiro que você possa conseguir por seus pertences.

“COMO ASSIM, CARALHO, VOCÊ TÁ DIZENDO QUE NÃO VAI FICAR COM ELES? EU DESPENQUEI ATÉ AQUI COM ELES” é uma frase comum.

Essas pessoas ficam confusas porque o homem da televisão disse que os discos de vinil estão voltando e aquele cuzão de Detroit achou uma garagem velha com um cortador de gramas, um cadáver e três discos que darão para pagar uma faculdade [isso se você for a uma faculdade da qual seus pais não terão orgulho], mas o balconista na minha frente [que teve que lavar suas mãos duas vezes enquanto vasculhava a coleção] não quer nada além de queimar os discos que eles trouxeram.

Felizmente, a explosão do vinil da qual estamos falando geralmente quer dizer que você pode manda-los para o seu concorrente no fim da rua.

O alfabeto é uma compilação confusa de sinais mágicos que somente os mais habilidosos necromantes podem discernir e decodificar. Isso é algo que eu e a maioria do pessoal das lojas de discos aprendemos. É meio que a merda sobre qual Mark Twain escreveria e você usaria como meme caso ele ainda fosse vivo. Não, Led Zeppelin não fica na letra ‘Z’, nem Frank Zappa fica na letra ‘F’. “Ah, é que eu deixei meus óculos em casa” não é um argumento aceitável para uma pergunta estúpida. Por que caralhos você sairia de casa sem seus óculos? Como é que você dirigiu até aqui? Como é que isso não está te incomodando? Isso lhe mostra que o mundo é cruel e injusto e que quando eu sou parado por um adesivo de pedágio urbano que venceu há uma semana, ao mesmo tempo Helen Keller está atropelando gatos e provavelmente mandando mensagens de texto.

As pessoas também entram em uma loja e gritam perguntas aleatórias esperando que suas solicitações asininas serão respondidas pelo gênio mágico que irá aparecer do nada igual aos cuzões em um comercial da State Farm. Eu entendo que todo mundo esteja ocupado e de vez em quando você precisa de ajuda para achar algo. Mas boas maneiras e uma voz modulada vão te levar longe. Você entra em uma loja e parece que os funcionários não estão ocupados, mas na maioria dos casos, eles estão trabalhando online para preparar suas lojas no Amazon ou no Discogs para as festas de fim de ano. Ser grosseiro não vai te ajudar.

Já que estamos sendo francos, eu vou revelar que uma vez fui demitido de uma loja de discos por não me prontificar e mostrar a um cliente a seção ‘B’ onde os discos dos Beatles estavam. Para ser justo, eu também vendia cachimbos de crack nessa loja e eu estava em uma parte bastante interessante. Eu nunca disse que não era preguiçoso, mas isso não faz de mim a regra.

Uma coisa da qual eu senti falta ano passado, mas que já havia sido trazido à minha atenção, fosse pelo que se passa diante dos meus olhos, fosse pelo que me contam de outras lojas, é algo bastante mais preocupante do que por que tantas cópias de ‘Rumours’ [do Fleetwood Mac] venderam essa semana: o assédio em cima das empregadas mulheres. Eu sei que isso é um problema em todos os setores da vida, mas provavelmente deveria ser abordado aqui.

Manos, eu sei que é demais que você veio até a loja e tem uma moça ali que compartilha de interesses em comum. Mas, assim como em qualquer situação, se você se pronunciar e ela disser ‘não’, é pra você se afastar.

Assistir o jeito macabro que alguns caras se comportam é como assistir a uma porrada de trem em câmera lenta. Também é preocupante. Em espaços que lidam com a contracultura você sempre vai achar gente que foi socialmente inapta a vida toda e que trata o lugar com uma miscelânea solene de emoções. Beleza, música é pra isso. Mas, se ao for rejeitado, seu primeiro impulso é gravar uma compilação de dezessete faixas em um CD com anotações sobre o porquê de cada música te lembra da mina que te disse ‘não’, daí talvez você precise sentar e reavaliar sua vida, de preferência com um médico.

Se ela estiver dando sinais de que ela está apenas sendo gentil porque é um trabalho e você é um cliente, então eu guardaria aquela carta de quatro páginas com alguns trechos de poesia no meio para sua própria diversão, no seu bolso. Olha só, é simples: pare de ser um esquisito ofegante e seboso. Nunca é aceitável tocar em uma mulher quando ela está lhe ajudando a entender o alfabeto para achar seja lá qual disco você ache que irá impressioná-la. Se te disserem para se acalmar ou ir embora, vá embora. Não volte. Você perdeu seus privilégios. Não seja “aquele sujeito” que é conhecido entre as lojas e cujas fotos são guardadas por elas porque você leva jeito de sequestrador de crianças.

Eu ainda dou valor às lojas pequenas. Eu dou valor ao senso de comunidade que eles podem dar a uma cidade como um lugar onde as subculturas podem se encontrar e trocar ideias. É um lugar onde as pessoas podem pegar um disco que irá enriquecer suas vidas. Mesmo com coisas como o Record Store Day, que atrai os aficionados e homens de negócios [ou a um nível bem menor e mais triste, o Cassete Store Day]. Eu ainda acredito que a história e o futuro da música independente repousam nos ombros das lojinhas pequenas, até onde elas consigam carrega-los.

 

 

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