Mötley Crüe: 25 anos de “Dr. Feelgood” – Parte I

Por JON HOTTEN para a CLASSIC ROCK #25

1990 MTV Video Music Awards

No dia 1 de Setembro de 1989, o MÖTLEY CRÜE lançava “Dr. Feelgood”. Seria o maior disco da carreira deles. Em 2001, a revista inglesa CLASSIC ROCK recapitulou os insanos eventos que cercaram a realização do disco.

Kensal Green, Zona Oeste de Londres, 1989. A limusine preta era comprida demais. Era tão comprida que cobriu a área de três parquímetros. Era tão comprida que eu tive que estacionar virando a esquina. Ali, outras três monstruosidades pretas ocuparam outros nove espaços de parquímetros.

Dos carros saíram quatro músicos, dois seguranças, um empresário de turnê, um capachão e vários executivos de gravadoras. Senhoras e senhores, o MÖTLEY CRÜE estava no prédio…

Essa é uma história de excesso. Essa é uma história de uma quantidade muito grande de sexo e drogas e um pouco menor de rock n’ roll. Essa é uma história de overdoses de heroína, mulheres, armas, sósias, contrabando de maconha e milhões de dólares. Essa é a história de uma banda que usou uma limusine para cada membro para se transportar por Londres. Por que? Porque eles estavam lá. Por que? Porque eles podiam.

Dentro do edifício, que abrigava o estúdio de um fotógrafo, a banda estava sendo assistida por maquiadores e cabelereiras. Em 1989 a banda tinha muito cabelo e maquilagem. No caso do guitarrista MICK MARS, ambos eram aplicados toda manhã. Ele parecia o Nosferatu de ressaca depois de uma noite inenarrável. Havia algo em sua cabeça. Deve ter sido vivo algum dia. Com certeza era longo e preto, certamente era algum tipo de cabelo, e quase certamente não era dele. Eu me apresentei. Ele mal me olhou por um tempo, e então eu tentei de novo. Ele seguiu me olhando, e eu achei que ele fosse um pouco surdo, então eu falei bem alto, diretamente no ouvido dele. Nada. Daí o empresário de turnê tentou. Depois de mais alguns minutos, eu tentei de novo. Daí, muito tempo depois, ele me olhou fixamente e disse: “E ai, amigo? Só viajando aqui…”

Três anos depois, Mick acertaria por acidente um tiro em sua própria namorada.

 

Vince Neil estava em melhor forma física. Claro, Vince, era baixo, mas ele era bronzeado e tinha passado recentemente por uma cirurgia para corrigir seu septo nasal desviado, problema que ocorre quando a cartilagem que divide o nariz se desintegra, dentre outras causas, devido ao abuso de substâncias. A cirurgia afinou o rosto dele. Ele estava coberto de tatuagens e carregava um enorme relógio Rolex de ouro que tinha diamante para marcar aposição dos números no painel. O nome verdadeiro dele era Vince Wharton. Ele tinha 27 anos e era casado com uma ex-lutadora de luta livre na lama chamada Sharise Ruddell. Ele também era um típico californiano, tranquilo e acomodado e possuidor de uma visão de mundo perturbadoramente vaga. Conversamos meio por cima sobre um então recente evento de caridade no qual o Crüe tinha se apresentado em Moscou.

“Porra, cara, você tem ideia do quanto Moscou é longe? Demora pra… é…”

Ele procurava por uma descrição adequada para a duração do vôo. “É longe… pra caralho, cara.”

Ele estava sentado ao lado de TOMMY LEE, e até Tommy estava rindo da dificuldade de Vince.

“Enfim, botamos pra fuder. A gente mandou ver pra cima daqueles… daqueles…” Vince estava tentando com força lembrar-se de pra cima de quem ele tinha ‘mandado ver’.

Tommy pensou por um instante e disse: “Aqueles russos!”

“Sim! Sim! Aqueles porras daqueles comunistas. Aqueles russos. Nós botamos pra fuder com ele. Eles não têm muita coisa lá praqueles lados. Só, tipo, umas porras de lixeiras, cara…”

Tommy e Nikki eram diferentes. Eles eram celebridades genéricas. Eles se agarraram com unhas e dentes a todo tipo de oportunidade e eles pareciam inversamente incríveis. O nome de batismo de Tommy é Tommy Bass. Sua mãe havia sido Miss Grécia em 1957. Ele tinha pele cor de mel, dentes ultra-brancos, cabelo brilhante e um corpo totalmente desprovido de gordura. Ele era engraçado e genial, muito bonito e casado com Heather Locklear, a gata-mor da televisão.

O nome verdadeiro de Nikki era Frank Ferrano. Ele era alto e musculoso e de feições parecidas. Seu pai era siciliano, sua mãe de Idaho. Ele era um astro do rock nato e não havia muita dúvida de que ele comandava a banda. Ele compunha a maioria das músicas e bolava a imagem deles. Ele estava envolvido com uma modelo, Brandi Brandt, depois de romper com a antiga apadrinhada de PRINCE, Vanity. Ele também tinha sido, confessamente, um usuário contumaz de drogas por anos a fio.

Tommy estava gritando sobre seus problemas com Heather pra qualquer um que quisesse os ouvir. Ela suspeitava que ele tivesse ido pra cama com outra. “De jeito nenhum, cara. Mas ela tá me enchendo.”

“Cara,” disse Nikki. “É foda levar bronca por puta que você nem comeu…”

 

As coisas não iam rolar suavemente. Na verdade, a qualquer momento, tudo podia dar errado. O Mötley Crüe, e Nikki em particular, estavam putos da cara comigo e a [revista semanal inglesa de rock] KERRANG!, a publicação para a qual eu trabalhava porque havíamos publicado uma história sobre um cara da Pensilvânia que afirmara ter assumido o lugar de Nikki em uma série de shows em 1983 depois que o baixista sofrera um acidente de carro. O nome do cara era Matthew Trippe. Ele era um pobre coitado que tinha entrado e saído de hospícios e tinha seu próprio problema com drogas. Dentre suas ‘provas’ estavam uma série de memórias, fotos de um tour book que mostravam um Nikki Sixx suspeitamente baixo [quase tão baixo como Vince], várias fotos de umbigos, e outras provas circunstanciais.

Em 1988, ele tinha entrado com um processo contra o Mötley Crüe e o empresário deles, citando roubo de imagem e afirmando que ele tinha composto uma série de músicas que seriam gravadas pela banda depois, incluindo “Knock’Em Dead Kid”, “Girls Girls Girls”, “All I Need”, “Dancin On Glass” e “Wild Side”. Era exatamente o tipo de coisa que só acontece com o Mötley Crüe. Afinal, coisas de toda a sorte acontecem a eles o tempo todo. O empresário deles, Doc McGhee, havia sido condenado por contrabandear 20 toneladas de maconha. Parte de sua ‘punição’ envolvia montar uma organização de combate às drogas, a qual ele chamaria de ‘Make A Difference Foundation’. MAD [‘louco’] na abreviação.

Fora o show dessa fundação em Moscou que Vince se referia à viagem como “longe pra caralho” de se ir. Após finalmente chegarem, Tommy Lee saiu na porrada com Doc McGhee porque o Roupa N… digo, o BON JOVI obtivera permissão para usar pirotecnia em seu show e o Mötley Crüe não. A banda despediria a McGhee na sequência.

Vince Neil fora responsável por um acidente de carro que vitimou ao baterista do HANOI RICKS, RAZZLE. Ele fora condenado por homicídio culposo e sentenciado a 30 dias de prisão.

Mick Mars havia tentado explicar o cancelamento de toda uma turnê bretã [porque a banda estava intoxicada demais para ir] dizendo que ‘tinha muita neve no telhado’ de uma das casas de shows e que ele poderia vir abaixo com o peso do equipamento da banda. Vince tinha comprado um fuzil de assalto soviético AK-47 para Tommy no Natal.

Matthew Trippe era apenas mais uma trivialidade para uma banda que havia fincado acampamento na loucura. Era um artigo legal, para não dizer ridículo. Nikki odiou tudo, mas não entendeu o espírito da coisa. Matthew Trippe era cômico. Matthew Trippe era burro. Matthew Trippe era rock n’ roll. Matthew Trippe era, na verdade, muito Mötley Crüe.

Na semana em que o Mötley Crüe veio de avião até o Reino Unido, o quinto disco deles, “Dr. Feelgood”, era o álbum No. 1 nas paradas da Billboard. Eles haviam saído da desintoxicação e estavam tão próximos do topo quanto possível sem que virassem o próprio Elvis.

A banda não explodiu da noite para o dia, todavia. Eles todos estiveram na Los Angeles do começo dos anos 80, tentando fazer alguma coisa – qualquer coisa – acontecer. Mick Mars estava colocando anúncios de ‘guitarrista procura banda’ na imprensa local. Vince estava em bandas de bar. Nikki tinha estado no LONDON com BLACKIE LAWLESS. O London alcançaria um status de cult por todas as razões erradas: eles se tornaram um centro de admissão para os astros do rock recém-chegados à cidade, enquanto a banda em si nunca decolou.

O Mötley Crüe tinha lançado seu primeiro disco, “Too Fast For Love”, por seu próprio selo, o Leathür, e então subiu continuamente através de álbuns como “Shout At The Devil”, “Theatre of Pain”, e “Girls Girls Girls”. O primeiro grande sucesso deles veio de um cover de “Smoking’ In The Boys Room” em Theatre of Pain.

Enquanto os discos eram muito altos e traziam metal para farra sem maiores exigências, um VAN HALEN sem os licks, o Mötley Crüe provava-se brilhante em seu conceito como um todo. Eles afirmaram a imagem da banda sleaze, eles tinham um visual cool, caricato e enorme. E eles também tinham a sagacidade e a ingenuidade para seguirem em frente: Shout At The Devil tinha um pentagrama na capa, e uma faixa intitulada ‘God Save The Children of The Beast’ e nuances satânicas – o que sempre dá certo. Theatre of Pain era todo cheio de tecido de bolinha e batons. Girls Girls Girls foi um desabrochar genuíno: cabeção, tatuagens, bronzeamento, mulheres fabulosas e plásticas. O disco capturava a época, arrebentou nas casas de strip tease, no carro dos jovens e nos filmes descomprometidos. Entrou em alta rotação na rádio e na MTV. À medida que eles se preparavam para o álbum seguinte, o Mötley Crüe se turbinava para o cume do sucesso.

 

Sustentando tudo isso estava uma honestidade à qual as pessoas respondiam. Enquanto a música era comum, ela vinha de um estilo de vida genuíno. A banda realmente se vestia daquele jeito, agia daquele modo, vivia daquela maneira. Era pra valer, e inspirou e gerou uma geração de bandas. Isso foi o grande êxito deles.

Mas as drogas eram um problema sério, para Nikki Sixx em particular. Ao fim da turnê japonesa de 1987, Nikki deixou o resto da banda enquanto eles partiam para os EUA e parou em Hong Kong com Doc McGhee e o renomado produtor japonês Mr. Udo. Eles foram até uma cartomante, que disse que Nikki morreria antes do fim do ano se ele não repensasse seu estilo de vida.

Nikki viajou de volta para Los Angeles. Logo depois disso, ele foi até o Cathouse, o famoso bar na Sunset Strip administrado pelo apresentador da MTV RIKKI RACHTMAN e TAIME DOWNE, do FASTER PUSSYCAT. Ele levou a SLASH com ele em sua limusine. Sixx começou a perguntar por traficantes atrás de heroína e alguém apareceu no Franklin Plaza Hotel, onde a dupla tinha pego um quarto depois de sair do Cathouse. Slash desmaiou enquanto Sixx se injetava.

Ele não aguentou e foi encontrado pelo baterista do GUNS N’ ROSES, STEVEN ADLER, que havia chegado com a namorada de Slash. Adler, ele próprio um usuário, percebeu imediatamente que Sixx tinha tido uma overdose e o arrastou para o chuveiro. Adler estava com um gesso no braço depois de um acidente, e ele batia em Sixx com aquilo, tentando mantê-lo consciente à espera dos paramédicos. Eles chegaram um pouco depois, mas Sixx estava clinicamente morto. Ele foi removido, com um lençol lhe cobrindo o rosto. Ele permaneceu daquele jeito por alguns minutos, até que uma injeção de adrenalina o trouxe de volta o pulso.

Nikki lembraria-se depois do que ele descrevia como uma experiência de projeção para fora de seu corpo, olhando de cima para si mesmo na ambulância. Ele também começou a usar heroína de novo.

O Mötley Crüe seguiu em frente. Eles estavam em turnês constantes, levando o Guns N’ Roses com eles para a primeira grande turnê da banda de W. AXL ROSE. Mas eles tinham quase uma década de abuso nas costas, e estavam perdendo o controle lentamente. No Japão, houve histórias horrendas que quase levaram a banda a acabar. Daí veio a turnê de Girls Girls Girls sendo cancelada no Reino Unido. A turnê de GGG se encerrou, e a banda voltou ao tratamento contra seus vícios.

“Ou parávamos ou a banda acabava”, lembrou Vince Neil. “Era algo que eu tinha que fazer de modo a lançar outro álbum e voltar às turnês. Pega quatro caras e dê aquele tanto de álcool e drogas por 10 anos e veja o que acontece. Saiu totalmente do controle.”

 

 

Os planos para gravar um novo álbum estavam sendo feitos, o quinto deles, e fazê-lo fora de Los Angeles, longe da tentação, longe do fluxo contínuo de visitantes no estúdio. Um especialista em reabilitação do álcool e das drogas, BOB TIMMINS, havia limpado a banda. Eles fizeram a pré-produção em Los Angeles, mas as gravações ocorreriam em Vancouver, com o produtor BOB ROCK.

Vince Neil estava convencido de que trabalhar em Vancouver seria uma grande vantagem. “Vai ser muito melhor porque há muita distração em Los Angeles. Você não termina de fazer nada.”

“Não vai ser muito puxado”, ponderava Tommy Lee. “E não vamos cansar do material do disco tocando pra 80 pessoas que dão uma passada por lá. Não conhecemos ninguém na cidade. É perfeito.”

As notícias começaram a vazar sobre as faixas que a banda estava compondo. Eles fizeram demos pra mais de 20, incluindo o que se dizia, uma música chamada “Sex, Sex and Rock N’ Roll” [uma nova filosofia?] e outra chamada de “Say Yeah”, sobre o caso Matthew Trippe, além de “Stop Pulling My Chain”, “Brotherhood”, Too Hot To Handle” e “Rodeo”.

Enquanto o plano de ficarem totalmente escondidos em Vancouver não ter sido plenamente bem-sucedido [a banda tocou no palco com o SKID ROW, e o CHEAP TRICK, além de BRYAN ADAMS, passaram pelo estúdio e todos gravaram pequenas partes nas gravações também], eles certamente de dedicaram totalmente à música. Em uma rádio estadunidense, Vince Neil disse a Don Kaye: “Trabalhamos todo dia nas músicas e limamos as que não curtimos. Cada uma das que sobraram é ótima.”

Isso ficou evidente pelas músicas que ele mencionou. Poucas eram dos mesmos títulos que haviam vazado das sessões originais: “Don’t Go Away Mad”, “She Goes Down”, “Same Ol’ Situation”, “Rattlesnake Shake”, e duas baladas, “Without You” e “Time For Change”. A nova ética de trabalho da banda não prejudicou o caráter de sua música, ela ainda era alta e abrasiva, cheia de atitude e seu momento mais emblemático seria “Kickstart My Heart”, que Nikki Sixx havia composto sobre sua overdose e a subsequente e espetacular recuperação induzida por adrenalina. Sixx havia transformado um horrendo baixo e sua vida em um ponto alto e produtivo, uma miniatura fiel ao grande cenário.

 

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