AIDS & Heroína: Os Últimos Dias de Robbin Crosby – Parte II

crosbinho

[…]

Peppermint Schnapps e ‘Gasolina’

Virou um hábito visitá-lo no Hancock Park Hospital para levar uma garrafa de Peppermint Schnapps da Hiram Walker com 45 graus [TINHA QUE SER 45 graus!]. Uma das primeiras coisas que perguntei a Robbin era ‘Por quê Peppermint Schnapps? COM CERTEZA você não gosta DE VERDADE disso!’ Ele disse, ‘Não MESMO! … mas é a única coisa que consigo beber escondido aqui… as enfermeiras não notam que eu tenho bebido porque cheira como se eu tivesse acabado de escovar meus dentes!’ As enfermeiras no Hancock Park eram bem rígidas sobre álcool no prédio, então tínhamos que ter cuidado. Quando falávamos sobre o assunto perto de outras pessoas, Robbin me dizia, ‘Hey, tem como você me trazer uma gasolina?’, a palavra código dele para birita.

Isolamento & Frustração

Eu ODEIO hospitais, tanto quanto as outras pessoas, mas desde o começo, eu notei que ele estava extremamente solitário e deprimido. Ele me dizia. ‘Quase ninguém vem me visitar… ’ ele me disse no primeiro dia e eu me comprometi comigo mesmo que faria com que ele tivesse companhia pelo menos uma ou duas vezes por semana. Se eu não pudesse sair do trabalho por alguns dias a fio, eu pedia a um amigo ou membro da família que fosse lá, se eles pudessem, e só conversassem com ele… é só isso que Robbin queria… alguém pra conversar. Ele era orgulhoso demais para pedir por ajuda ou caridade.

Ele estava naquele lugar, confinado a uma cama, 24 horas por dia, 7 dias por semana, por mais de dois anos. Pragmaticamente, o lugar era apenas um grande despejo para idosos que estavam doentes ou incapacitados demais para que os membros de suas famílias cuidassem deles. Eu devo dizer que eles tomavam conta daquelas pessoas muito bem, mas era um lugar deprimente demais para se estar… Robbin teve pelo menos 20 colegas de leito enquanto eu o conheci… eu aparecia numa semana e via uma cama vazia do lado da sua e perguntava, ‘O que aconteceu com Don?’ e ele dizia, ‘ah ele… ele morreu ontem’. Isso se perpetuava semana após semana, e depois de um tempo, eu parei de perguntar. Eu podia ver no rosto dele o efeito que isso tinha sobre ele e ele não o expressava propriamente.

Uma coisa que realmente me chocou a princípio… me CHOCOU COMPLETAMENTE…foi o fato de que seus familiares raramente o visitavam. Robbin falava ao fone com a ‘mamãe’ ou com o ‘papai’ quase todo dia, mas eles moram em La Jolla, Califórnia [cerca de 150 quilômetros ao sul de Los Angeles, perto de San Diego] e estão envelhecendo e não viajam muito até Los Angeles. Eu sentia muito do que Robbin NÃO dizia a respeito de sua família, que ele tinha feito com que eles sofressem muito ao longo dos anos e que tinha ‘fechado algumas portas’. Ele era… como de costume, pragmático a respeito disso e entendia aquilo. A postura dele era, ‘Ah, é longe demais pra eles dirigirem… ’ Ele nunca falou muito sobre sua família. Uma das coisas que eu sabia era que ele gostava MUITO do pai dele e ‘sentia saudade das férias no México com meu pai quando era garoto. ’

Outra coisa que o afetou muito foi o fato de os caras do RATT raramente irem vê-lo… apesar do fato de eles todos morarem a meia hora de carro. Ele falava com eles ao fone, algumas vezes com Warren, algumas vezes com Bobby, algumas com Juan, e ele dava a entender que ‘talvez se um dia você estiver por perto, dá uma chegada’. Eles não iam… eu não estou julgando nenhum deles. Eu tenho certeza que todos tiveram suas razões.

O único de seus antigos colegas que ia mesmo vê-lo com frequência era ‘Zloz’… Neil Zlozower. Ele me disse um dia, ‘ONDE ESTÃO todos meus amigos? Sem querer ofender, mas não é triste que VOCÊ seja meu melhor amigo? Eu só te conheço faz um ano’. Ele tinha uma maneira bem particular de ir direto na veia.

Apelidos & Comida Mexicana

Robbin AMAVA comida mexicana e sushi… eram as duas coisas favoritas dele. Alguns de seus lugares favoritos na cidade eram o famoso restaurante ‘El Compadre’ em Sunset Boulevard e o ‘Casa Veja’ em Ventura Boulevard, no Vale de São Fernando. Eu ligava pra ele direto antes de ir ao hospital para perguntar se ele queria almoço. Ele dizia, ‘Mmmm… Ropa Vieja do El Compadre cairia muito bem… ’ ou ‘Sim, me descola uns Toro & handrolls [sushi] do xxx… na [avenida] Highland’. Ele realmente conhecia gastronomia muito bem e a única coisa que ele não gostava era… PIZZA!! Eu não conseguia acreditar naquilo! Ele dizia, ‘Nah… pizza me entope… por dias!

 

Ele adorava apelidos. Parecia que TODO MUNDO tinha um apelido. O meu era ‘Schmengie’ ou ‘Schmeckel’… eu não fazia IDEIA do que eles significavam até semanas depois. Parece que são palavras em ídiche para o órgão sexual masculino!! Ficávamos brincando e ele dizia, ‘Você é um puta dum Schmengie’. Uma das enfermeiras do hospital era a ‘Ligeirinha’ ou na semana seguinte era a ‘Rompopie’ ou ‘ Feijão de Vagem’. Outro amigo era o ‘Bloomer’. Todos tinham um significado.

 

Tawny Kitaen e o ‘Incidente Rumpleminze’

Certo dia, eu passei para levar a Robbin uma de suas 3 guitarras novas, uma Epiphone ‘Wildcat’ turquesa brilhante, eu estava com elas porque não havia espaço no hospital para guardá-las. Eu entrei e fiquei paralisado.. tinha uma ruiva bonita sentada do lado da cama dele. Eu disse, ‘Você não me é nem um pouco estranha… ’ Robbin, emendou direto, ‘Duh! É a Tawny, seu idiota!

WOW! Tenho que admitir que eu era MUITO apaixonado por ela nos anos oitenta [lembram-se do vídeo de ‘Back For More’?] e lá estava ela!!

crobicha

Conversamos um pouco e ela demonstrou uma preocupação autêntica com o estado dele, ela não o via fazia quase 10 anos!! Seja lá que tipo de problema pessoal ela esteja enfrentando, eu vou dizer que ela é uma pessoa doce e carinhosa. Robbin a chamava de ‘minha namorada dos tempos de escola’ e ‘meu primeiro e único amor’.

Depois de ela ir embora [Robbin tinha adormecido] uma das enfermeiras achou uma garrafa de Peppermint Schnapps Rumpleminze, um presente de Tawny, e surtou… então eu disse que levaria a garrafa comigo.

Eu havia, algumas semanas antes, parado de levar ‘gasolina’ porque eu me dei conta que eu não estava ajudando ele nem um pouco fornecendo aquilo. Na verdade, discutimos por causa disso. Eu disse a ele, ‘Eu não vou mais te trazer gasolina… não está te ajudando’. Ele disse, ‘Ah, e você não bebe, né? Fala sério!’, naquele tom de voz sarcástico do ‘King’.

 

Quando Robbin, inevitavelmente, foi procurar a garrafa, ELE surtou porque ela não estava lá. Ele apavorou com uma das enfermeiras por levar seu presente embora. Ela não disse a ele que na verdade tinha sido eu quem levara a garrafa. Robbin mencionou isso pra mim um dia e eu me senti muito mal… eu disse a ele ‘Ela não levou.. eu levei’ Ele mandou, ‘Cara… aquilo foi um PRESENTE de uma pessoa muito especial… você não tinha o DIREITO de pagar minhas coisas, e tem mais, eu faço o que eu QUERO, QUANDO QUERO!!’

Claro.

Naturalmente, eu ainda tinha a garrafa e a devolvi pra ele.

Mas não foi só.

Robbin me ligou naquela noite e ME pediu desculpas como se ELE tivesse feito algo de errado!!

Cara, me desculpe, eu não deveria ter sido tão áspero’. Ele era desse jeito… eu aprendi outra importante lição de vida dele mais uma vez, dessa vez sobre compaixão. […]

Continua…

 

6 pensamentos sobre “AIDS & Heroína: Os Últimos Dias de Robbin Crosby – Parte II

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