Japão: a última fronteira para colecionadores de discos

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Adaptado do artigo “A Terra do Preço Crescente”

Por Ian Shirley

Para a revista Record Collector – edição de Fevereiro de 2013

Em Roma, faça como os Romanos; mas em Tóquio, vá às lojas de discos. Foi isso que eu fiz quando passei oito dias na capital do Japão em Novembro, e a experiência me abriu os olhos. A primeira coisa que eu vi quando entrei na loja principal da rede DISK UNION no bairro de Shinjuku foi uma cópia do recém-retirado do mercado single comemorativo de aniversário dos BeatlesLove Me Do/PS I Love You’ [# de catálogo R4949/R 4714 /5099901740172]. Tal como os leitores devem saber, devido à gravadora EMI ter prensado a versão errada da música no lado A, 20 mil cópias foram retornadas e destruídas e aquelas que escaparam da fundição de vinil tem sido negociadas entre 25 e 60 Libras Esterlinas no Ebay nos últimos meses. Um pequeno lote acabou ficando no Reino Unido e parece que outro fora enviado ao Japão antes do erro ter sido percebido. A Disk Union estava cheia deles a um preço bem razoável de  1000 ienes, algo em torno de 8 Libras [24,50 Reais]. Uma pechincha!

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Apesar de haverem várias lojas de discos em Tóquio, a Disk Union é a líder do Mercado, com 48 lojas por todo o país. Uma dúzia delas na área de Shinjuku e quarto na de Shibuya, a alguns quilômetros de distância. Elas oferecem departamentos especializados espalhados por diferentes andares do mesmo prédio ou em endereços diferentes, e que fornecem para todo gosto, seja jazz, rock progressivo, rock, avant-garde, soul, punk, new wave, heavy metal, música clássica, psych, reggae, e muitos outros gêneros. As prateleiras são abarrotadas com todo tipo de discos lindos, relançamentos, assim como caixas de ofertas especiais para se chafurdar.

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Quando o assunto é raridade em oferta, eu fiz uma lista tão longa quanto os braços de uns gigantes e alguns destaques aleatórios incluíam uma prensagem de ‘Neat Neat Neat’ do The Damned em encarte japonês com foto [100 mil ienes/2100 Reais], uma prensagem de teste do LP ‘Come My Way’ de Marianne Faithfull [20 mil ienes/425 Reais], o LP ‘Trans European Express’ do Kraftwerk em uma prensagem original alemã [5800 ienes/123 Reais], ‘In The Wake of Poseidon’ do King Crimson, prensagem original estadunidense [9800 ienes/210 Reais] e o LP de Doris Troy pela Apple [24 mil ienes/510 Reais], ‘Let’s Go Swimming’ de Arthur Russel em 12 polegadas [promo dos EUA – 5800 ienes/123 Reais] e ‘My Love’, do New Age Steppers, 12 polegadas, a 4800 ienes [102 Reais]. Também foi estranho ver uma cópia inglesa em vinil vermelho de ‘Swingin’ Doors’ de Diana Dors!

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Quanto ao Mercado japonês, eu pude falar com um dos gerentes de compras da Disk Union, Yuki Kon, que me disse que os discos mais procurados no Japão são edições britânicas dos Beatles. “Se compramos algo dos Beatles, pra nós a edição britânica é muito melhor do que a japonesa, para nós e nossos compradores”. Então recentemente, uma cópia em excelente estado de ‘Please Please Me’ em estéreo com o selo original preto e dourado durou três dias na loja antes de ser comprada por 1 milhão de ienes [algo em torno de 7500 Libras – 23 mil Reais]. Quanto a onde a Disk Union compra discos, falamos do âmbito doméstico e internacional. “Os colecionadores japoneses tem discos de qualidade muito alta e eles os trazem para vendê-los para nós”, afirma Yuki, “Apesar de comprarmos principalmente de clientes japoneses, nós também viajamos para fora do país para comprar vinis raros, pro Reino Unido, Europa e também os EUA.”

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O Japão pode estar nas profundezas de uma crise econômica, mas quando se trata de raridades, os colecionadores nipônicos ainda pagam grana alta por discos britânicos. Assim, muitos dos itens mais raros que os compradores da Disk Union procuram surpreendentemente batem com nossa recente lista de 200 raridades, e inclui artistas como Leaf Hound, Ben, Led Zeppelin, Black Sabbath, Will Malone, Mellow Candle, Norman Haines, King Crimson, The Rolling Stones, Nick Drake, Pink Floyd – e até mesmo Johnny Burnette por gravadoras bretãs.

Quando falamos de lançamentos dos EUA, além das figurinhas carimbadas Velvet Underground, Bob Dylan, Love, The Byrds e The Doors, também há uma demanda pelo LP de estreia dos Carpenters, “Offering” [relançado com o título de ‘Ticket To Ride’]. Os colecionadores japoneses também amam jazz e não parece ser por acaso que a loja de jazz raro deles em Shinjuku só possa ser acessada por um elevador e  a Disk Union, como outros varejistas ao redor do mundo, caça LPs originais do selo Blue Note, de artistas como Hank Mobley e Sonny Clark, entre outros.

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Fora o vinil, o que eu achei fascinante é o número de lojas em Tóquio vendendo CDs. Entretanto, o preço de lançamentos novos pode ser puxado. Por exemplo, o ultimo álbum do Chatmonchy, ‘Henshin’ – imaginem um White Stripes só de mulheres com a guitarra de John McGeoch com Björk nos vocais e elementos de J-pop – saía por 3600 ienes [30 libras! – 91 Reais]. E isso não foi um incidente isolado. Tentá-lo achar barato online é uma esperança em vão, tal como é impossível encontrá-lo na Amazon ou no iTunes no Reino Unido. Mas até aí, alguns CDs japoneses de artistas locais são produzidos em pequenas quantidades – e daí o alto preço no varejo, apesar do custo dos artistas estrangeiros variar muito. “The 2nd Law”, do Muse, variava de 13 a 24 Libras [40 a 74 Reais], dependendo do formato [estojo de acrílico, digipak ou CD+DVD]. Ironicamente, algumas lojas de CDs no Japão como a Tsutaya permitem que você alugue CDs, então Chatmonchy ou Muse ou Green Day poderiam ser levados pra casa por uma noite a um custo ínfimo de 300 ienes [6 Reais] e copiados…

Porta-discos de vinil vendido na Disk Union

Porta-discos de vinil vendido na Disk Union

Falando nisso, eu dei de cara com uma loja de porão em Shibuya que vendia CDs por inacreditáveis 300 ienes [cerca de2 Libras] e oferece uma seleção maravilhosa de rock e pop, incluindo ai todos os CDs do Jamiroquai, U2, The Prodigy, Oasis, Blur, assim como bandas obscuras de Brit-pop como Menswear e The Warm Jets. Já o J-pop…

O J-pop [pop japonês] e o K-pop [pop coreano] são fascinantes. Há bandas teen com nomes como Midnight, Infinite, Girl’s Generation, A-Jax, Code-U, Idol Is Dead, etc, o suficientes para embasbacar Simon Cowel e Louis Walsh por uma década, e essas bandas comandam o Mercado e ajudam a vender tinta de cabelo e roupas da moda para garotos e garotas magras por todo o Japão. Fiéis ao sucesso ‘Gangnam Style’, de PSY, essas bandas mandam refrãos em inglês, mas com estrofes em japonês, e as músicas são produzidas para lembrar o tipo de produto prístino que você espera do Take That ou do Girls Aloud. A quantidade de bandas de J-pop [e artistas solo] é impressionante e você não consegue escapar delas mesmo quando você sai das lojas. Em Shinjuku e em Shibuya, caminhões com falantes nas laterais ficam circulando cobertos de fotos [painéis de 15 x 6m] das últimas sensações do momento e tocando seu novo lançamento ou atual sucesso. Em Shibuya há até caixas nas ruas e parece que a cada 10 passos você ouve a uma canção diferente de J-pop. Estranhamente, entrar numa loja de vinil é um tipo de refúgio para esse assalto constante.

Os colecionadores japoneses são muito exigentes com a condição do que compram. Quando visitei a loja de jazz da Disk Union em Shibuya, eu assisti a um cara inspecionar um disco original do Blue Note que ele estava comprando por 10 minutos, enquanto ele disparou várias perguntas para a pessoa do outro lado do balcão. Essa obsessão com discos novos ou em excelente estado se estende à embalagem onde eles estão acondicionados, onde foram analisados e etiquetados, tudo com nível forense de detalhamento. Do jeito que tinha que ser!

Claro, esse artigo é tão e simplesmente uma visão subjetiva por cima e apenas um dedo do pé no meio do oceano, mas eu estou fazendo planos para voltar ao Japão esse ano. E por fim, uma lição: quando eu voltei para o Reino Unido, eu decidi comprar o produto físico do novo lançamento do Four Tet, ‘Pink’, em CD, e que compila todos seus singles de 12 polegadas pelo selo Text. Foi só quando eu entrei na [tradicional rede de lojas da Inglaterra] Rough Trade da zona Oeste que descobri que era um lançamento exclusivo do Japão. E eu o comprei no Japão? Não, eu estava sem tempo, tentando achar reedições japonesas de Don Rendell e Paul Gonsalves.

3 pensamentos sobre “Japão: a última fronteira para colecionadores de discos

  1. Pingback: Shinjuku Record: um oásis para fãs do hard rock em Tóquio | playadelnacho

  2. Meus parabéns pela matéria, li duas vezes e indiquei a um amigo.
    Que experiência maravilhosa você passou.
    Espero algum dia poder viver este sonho.

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